Terça-feira, 26 de março de 2019

ISSN 1983-392X

Epopéia Paulista

O jornal O Estado de S. Paulo de domingo trouxe artigo

terça-feira, 30 de novembro de 2004

Epopéia Paulista

O jornal O Estado de S. Paulo de domingo trouxe artigo da jornalista e doutora em Letras pela USP, Leila Gouvêa, com o tema “A Paisagem urbana reinventada”. O texto fala sobre a inauguração da nova Estação da Luz que vai inserir na paisagem paulistana o mais recente trabalho de arte pública concebido pela artista plástica Maria Bonomi: o monumental de concreto Epopéia Paulista, com 73 metros de extensão e 3 metros de altura, fixado na galeria anexa de conexão entre metrô e a ferrovia.

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A paisagem urbana reinventada

Leila Gouvêa*

A inauguração da nova Estação da Luz, nesta semana, insere na paisagem paulistana o mais recente trabalho de arte pública concebido pela artista plástica Maria Bonomi: o monumental painel de concreto Epopéia Paulista, com 73 metros de extensão e 3 metros de altura, agora definitivamente fixado na galeria anexa de conexão entre o metrô e a ferrovia. A obra materializa a elaborada reflexão de Bonomi sobre esse gênero de produção artística, tema de sua tese de doutorado Arte pública: sistema expressivo/anterioridade, defendida em 1999 na Universidade de São Paulo – a pesquisa será publicada em 2005 pela Edusp. Há conceitos que vêm abordando ainda em múltiplas conferências, como as que acaba de realizar em Granada, Espanha, e na última Trienal de Praga, onde foi homenageada com uma sala especial.

“Transpor do micro para o macro, detonando limites intimidados pelos circuitos fechados dos tradicionais redutos de arte, interferindo nos grandes espaços urbanos.” Esta, em síntese, é uma das diretrizes do pensamento de Maria Bonomi sobre arte pública, a qual considera a grande possibilidade ética de expressão artística na contemporaneidade. Um gesto, em suma, do artista engajado no seu tempo face ao caos urbano, o qual vem ao encontro de outras iniciativas na contracorrente da desenfreada especulação imobiliária, como o projeto de revitalização do centro.

O empenho da artista em reinventar a paisagem urbana talvez possa ser atribuído, em parte, ao legado atávico do avô construtor, Giuseppe Martinelli, que revolucionou o cenário da Paulicéia modernista, com a edificação do primeiro arranha-céu – o prédio Martinelli, na década de 20. Com efeito, o acervo de arte pública de Bonomi apenas na cidade já soma mais de uma dezena de obras, como o conjunto de painéis A Construção de São Paulo, na Estação Jardim São Paulo do Metrô, as Páginas insertas na praça do Arquivo do Estado, o mural Futura Memória no Memorial da América Latina, afora o trabalho inaugural, o tríptico em concreto inscrito no altar da Igreja Mãe do Salvador (da Cruz Torta), em Pinheiros, datado de 1976.

A proposta é sensibilizar o espaço público com painéis e esculturas que procuram resgatar o olhar dos apressados transeuntes da miséria simbólica do dia-a-dia na megalópole. A arte pública, segundo Bonomi, pode instaurar a percepção, mesmo o devaneio e/ou a reflexão, despertando o cidadão, ainda que por instantes e como se fossem poemas captados pela visão, de sua alienante rotina. Move a artista a sede, “sempre insaciável”, de formar o olhar do público anônimo, de instigar pela percepção visual grandes massas que nunca ou raramente têm a chance de fruir emoções artísticas.

O conceito é o de que a arte pública tem de emergir como um referencial dentro do caos, especialmente numa era em que “a escala do homem foi vertiginosamente alterada”. Não se trata de enfeitar a cidade ou pretender transformá-la num museu aberto. Tampouco de transferir peças concebidas na solidão do ateliê para o espaço público.

O Monumento às Bandeiras no Ibirapuera, de Brecheret, a Fontana di Trevi em Roma, as escadarias dos profetas em Congonhas do Campo, mesmo Brasília são paradigmas de arte pública, conforme a artista. São “celebrações de visualidade coletiva”, concebidas desde a origem para determinado espaço e em diálogo com a problemática local. Assim, Bonomi vivencia demoradamente cada lugar antes de para ele conceber suas obras de fruição pública, estudando a população que por ele transita, o seu tempo, movida ainda pelo desejo de interagir com o imaginário das pessoas e transcendendo as desigualdades que “estilhaçam os convívios socio espaciais nos grandes centros”.

Pesquisadora infatigável, Maria Bonomi chegou à arte pública também como desdobramento de sua dupla trajetória de gravadora e de cenógrafa – agora, por exemplo, está mergulhada na criação do espaço cênico da peça A Última Viagem de Borges, na transcriação visual do universo onírico do escritor argentino, com texto de Ignácio de Loyola Brandão e direção de Sérgio Ferrara, a estrear em 2005. Transportar a concepção plástica do espaço de ficção dos palcos, que é efêmero, para a realidade concreta das ruas, em criações que tendem à permanência e se destinam a um público muito mais amplo e indistinto, foi um dos passos.

Outro decorreu da implosão das dimensões da gravura, quando destacou a matriz de sua função de suporte – etapa que atribui, em parte, à percepção da amiga (e comadre) Clarice Lispector, falecida em 1977. A escritora, que chegou a considerar Bonomi seu alter ego na criação artística em uma crônica, ao visitar uma exposição da artista escolheu a própria matriz de uma gravura (A Águia), despertando sua atenção para as possibilidades do tridimensional e, posteriormente, para a elaboração de sua poética da arte pública.

Contudo, o mural Epopéia Paulista, agora entregue à população de São Paulo, incorporou ainda uma terceira inovação: a da arte realizada e até certo ponto concebida coletivamente. Fruto de uma longa temporada de Maria Bonomi como artista-residente no Museu de Arte Contemporânea da USP, todo o processo de composição dos desenhos e das matrizes foi aberto à interação com propostas de outros artistas e estagiários visitantes, entre os quais seu discípulo Sérgio de Moraes. Nesta nova etapa de sua trajetória, a própria questão da autoria perde relevância no circunstancial, podendo mesmo ser compartilhada com outros artistas e até com o público.

É um passo a mais na fratura das comportas do trabalho fechado em ateliê – a propósito, o belo espaço de criação de Maria Bonomi em São Paulo, dotado de vasta biblioteca e para o qual já existe o projeto de uma futura fundação, é um dos destaques do livro recém-lançado Ateliês Brasil, de Bruno Giovanetti e Leila K. Moreno. Todo esse turbilhão criador da artista, sempre regido pela excelência e submetido ao crivo da reflexão, vem merecendo teses e dissertações acadêmicas. E acrítica Ana Maria Beluzzo já deu início à organização do catálogo raisonné dessa obra que saltou dos museus e galerias para o espaço público e agora deste para a arte coletiva. Valerá indagar: qual será o próximo salto conceitual da artista?

*Jornalista e doutora em Letras pela USP.

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