Quarta-feira, 24 de abril de 2019

ISSN 1983-392X

O dia da árvore - Jayme Vita Roso já recebeu o título de cidadão emérito da cidade de São Paulo

Como ontem, 21/9, foi o dia da árvore, muito oportuno seria lembrar do modesto plantador de árvores, Jayme Vita Roso. O também migalheiro, é o idealizador da reserva florestal Curucutu, e pela sua iniciativa, no dia 17/8/04, foi condecorado com o título de Cidadão Emérito da cidade de São Paulo, homenagem feita pela Câmara municipal.

terça-feira, 22 de setembro de 2009


O dono da floresta

Jayme Vita Roso recebe o título de cidadão emérito

Como ontem, 21/9, foi o dia da árvore, muito oportuno seria lembrar do modesto plantador de árvores, Jayme Vita Roso. O também migalheiro, é o idealizador da reserva florestal Curucutu, e pela sua iniciativa, no dia 17/8/04, foi condecorado com o título de Cidadão Emérito da cidade de São Paulo, homenagem feita pela Câmara municipal.

  • Confira logo abaixo o discurso feito no dia da homenagem.

_________

DISCURSO NA CÂMARA

Excelentíssimo Senhor Vereador Arselino Tatto, Digníssimo Presidente da Câmara Municipal de São Paulo, Digníssimos Membros da Mesa Diretora dos Trabalhos

Fui distinguido pelo eminente Vereador Arselino Tatto com a Medalha Anchieta e o Diploma de Gratidão da Cidade de São Paulo, motivando ele suas razões para propor tal honraria o fato de eu, por mais de vinte e cinco anos, dentro da Capital do Estado de São Paulo, estar desenvolvendo um programa de recuperação ambiental, fazendo-o unicamente com recursos próprios.

Confesso, com todas as veras do meu coração, que, ao saber que a Câmara Municipal de São Paulo acolhera o pedido do Vereador Arselino Tatto, fiquei orgulhoso. É um tipo de orgulho que não é vício, nem pecado. Muito menos, atenta à grandeza da homenagem, mas traz, como conseqüência, maior responsabilidade para o galardoado. É, todavia, um grande impulso à motivação, à continuação, pois, como lembrava Teilhard de Chardin, se Deus criou a Natureza, só cabe ao homem transformá-la, porém, cuidando que seja para o bem, sem a destruir ou a danificar.

Também, com muito orgulho, proclamo: nasci num sobrado, no Largo do Cambuci, construído por meu avô materno Pascoal. Nas décadas de 30 e 40, ali cresci e me formei, plasmando a minha personalidade e tendo nas vizinhanças, além de muitos parentes, figuras notáveis das artes plásticas brasileiras, como Alfredo Volpi, Mário Zanini e Francisco Rebolo Gonzales; políticos, como Jânio Quadros, Antônio Delfim Netto e Erlindo Salzano e tantos outros. Isso sem contar com uma plêiade de jornalistas e escritores e, sobretudo, os meus queridos amigos, que viviam ao redor das ruas Ana Nery e Clímaco Barbosa. Há os que residiam em cortiços, tão celebrizados mais tarde pela escritora Carolina de Jesus, negra que tinha um coração transbordante de amor aos seus semelhantes. Vi muitos pais, que viviam naqueles cubículos, morrerem de tuberculose; vi outros, que trabalhavam em lugares insalubres, com pouco mais de quarenta anos, já imobilizados por reumatismos incuráveis e incurados.

A casa onde eu nasci ainda existe e está distante apenas oitocentos metros da antiga prisão em que eram colocados os anarquistas, quase todos italianos ou descendentes, comumente conhecida como Bastilha do Cambuci. Aliás, recente minissérie, que retratava o período do inconformismo dos operários, já no primeiro capítulo mencionava a existência da prisão e que, por sinal, estava ao lado de onde residiam vários parentes da minha avó materna. Mas, francamente, no bairro chamado Cambuci, nunca encontrei uma fruta cambuci, pois naquela época eram poucas as ruas arborizadas e a maioria delas ainda sem sanitário. De qualquer forma, as saudades são muitas. E para mitigá-las, pedi à minha colega da Academia do Largo São Francisco, Renata Pallottini, mulher que honra as letras nacionais, um poema.

Mandou-me ela este, do qual realço um trecho, intitulado “Domingos de São Paulo”:

Os domingos são claros.
Há laranjas abertas à beira das calçadas
abacaxi cortado na boca dos meninos.
Todas as mães são levadas a todas as cantinas
e macarrões em fio
são longamente desenrolados no meio do dia.
São Paulo é um bom bandido!

Quero recordar os dias passados, durante as férias escolares, na farmácia de meu pai, localizada ao lado da estação da Luz, no bairro do Bom Retiro. Aprendi muito cedo o que era a ditadura de Vargas, como funcionava a sua chamada “Polícia Especial”, vestida com fardas que se assemelhavam às da congênere nazista.

Soube o que era a violência aplicada aos que discordavam da filosofia e da forma de governo então vigente. Lembro-me das frustrações da Intentona de 1937, que resultou na criação de um tribunal especial e no acirramento da censura, como, também, me vem à mente o dia primeiro de maio de cada ano no Estádio do Pacaembu, em todas as estações de rádio o conhecido refrão que entrou na História: “Trabalhadores do Brasil...”. Fecho esse período, sem amargura, mas, lembrando o poeta das Minas Gerais, Affonso Romano de Sant’Anna quando canta:

... vivo
num país que me des/mata
respiro
num país que me enfumaça
acuado
num país que me sequestra
e como resgate exige
minha alma selvagem em pêlo.
Humildemente me recolho
procuro um colo ou ombro.
Irmão, eu choro
- um amazônico desconsolo1

Os anos passados na Academia, definitivamente, plasmaram a minha identidade paulistana. Nela ingressei, quando Getúlio Vargas ainda era o Presidente da República, produto de uma eleição surrealista, pois, chocava-me ver no mesmo palanque o velho caudilho e Luiz Carlos Prestes. Como jovem e sempre muito interessado em política, pois desde a redemocratização, em 1945, eu estava envolvido nessa paixão e por ela completamente absorvido.

Posso dizer, sem erro e sem constrangimento, e, muito menos, sem culpa, que o fato de ter sido sempre emaranhado em atividades políticas, só me deixou mais convicto daquilo que mais tarde iria fazer: da necessidade de se quebrarem as grandes diferenças sociais que existem em nosso país, para um dia não nos penitenciarmos da indiferença ou da leniência, quando menos ainda do nosso distanciamento dos valores eminentemente brasileiros para nos abrigarmos em construções alienígenas, que destoam do nosso temperamento, da nossa vocação e do nosso destino. Nunca fui um homem light2.

Envolvi-me a fundo, a partir de 1979, numa área desertificada, no longínquo extremo sul da cidade de São Paulo, quase na Serra do Mar, com o intuito de fazê-la retornar ao que era ou, como num lance de Ícaro, fazê-la volver a ser integrante da ficção chamada Mata Atlântica.

Forjei a idéia de começar esse trabalho empírico. Nada havia que pudesse me socorrer para começar a empreender e ninguém que me auxiliasse, sequer nenhuma entidade pública interessada. Passei a ler e a estudar. Fiz muita coisa errada ali no Bairro do Curucutu, tão próximo da aldeia dos índios, meus vizinhos.

Até a estrada construí; a luz e o telefone fiz as instalações: nisso acertei.

Retorno um pouco, ao início dos anos 70. Ao trabalhar na África e vendo toda aquela desolação, toda aquela pobreza, recordava-me algo da minha família, que ouvira quando muito, muito, muito criança: ela emigrara para o Brasil, porque as condições ambientais então existentes no sul da Itália só favoreciam a disseminação de moléstias e endemias constantes, sobretudo a malária.

Decorridos anos, confirmei essa lembrança, lendo a obra de Norman Douglas, “Old Calabria”, escrita no início do século passado, por esse viandante que perpassou as terras de onde vieram os meus antepassados. Há um capítulo da obra, intitulado Malária, no qual ele descreve a dramaticidade da devastação como causadora de moléstias endêmicas. Enfatizo como, já no século XVII, as coisas ocorriam. Nas palavras textuais de Douglas: “... estas condições calabresas são unicamente uma parte da mudança geral do clima que parece ter ocorrido em toda a Itália; uma mudança que Columella refere-se quando, lembrando Saserna, disse que formalmente a vinha e a oliveira não prosperam ‘por razão de inverno muito severo’ em certos lugares onde havia abundância, graças a uma temperatura amena”3.

Consciente desse estado de coisas semelhante em São Paulo, comecei o trabalho apaixonado e paciente. Esse tipo de trabalho dá uma grandeza moral muito grande, porque a pessoa que nele se engaja passa a ter consciência da brevidade desta vida terrena e da felicidade de ser um imitador de Deus. Recordo o escritor francês Jean Giono, com o qual, de certa feita, deparei-me na sua Provence, talvez um dos lugares mais lindos do mundo.

Giono, um homem tão simples, ali saboreou toda sua vida, escreveu um livro impecável, com um título emocionante: “O homem que plantou esperança e fez crescer felicidade”. Plantar árvores dá esperança.

A devastação ocorrida na cidade de São Paulo e, sobretudo na zona sul, não sensibilizava, até há pouco tempo, os nossos governantes e, muito menos, a população do entorno, que vive num estado de miserabilidade e, ainda hoje, lamentavelmente, sem esperança. Ao tomar consciência de que existia um instrumento legal pelo qual o proprietário de uma área poderia, criando um vínculo de conservação, proteger a natureza, nos meados dos anos 90, decidi converter parte das minhas terras em Reserva Particular do Patrimônio Natural. Nada mais, nada menos, é a vinculação da área ad aeternum para ser preservada, permitindo a lei que seja alienada, mas quem a adquirir tem a obrigação de mantê-la e conservá-la.

Quando apresentei ao IBAMA o dito projeto, de transformar parte da área em Reserva Particular do Patrimônio Natural, jocosamente o Presidente da autarquia me disse que seria a primeira dentro de capital do Brasil e de que eu não deveria estar muito bem de minhas faculdades mentais para fazer isso.

Hoje, graças à comunhão permanente de um grupo de idealistas, temos várias áreas transformadas em Reservas Particulares do Patrimônio Natural no Estado de São Paulo; melhor ainda, há inclusive uma entidade que as agrupa, conhecida por Federação das Reservas Particulares do Estado de São Paulo, com um incansável Presidente, João Rizzieri. Com a paciência dos plantadores de árvores, esperamos que, brevemente, exista um governo das árvores. Essa expressão, criada por Robert Dumas, filósofo francês, tem um argumento central: “A árvore porque ela necessita de um tempo de vida, que vai além do tempo daquele que a plantou, suscita a intervenção do poder público”. E, para o seu país, que pode ser inclusive trazido como exemplo para o nosso, ele (poder público) nos dá um fio condutor para reinterpretar através do exemplo a gênese do Estado5.

Pacientemente, aguardamos que o Estado brasileiro, principalmente o IBAMA, cuide da regulação das Reservas Particulares do Patrimônio Natural, a fim de que elas promovam definitivamente a integração das áreas que ainda restam da maltratada Mata Atlântica. Os remanescentes da Mata Atlântica, hoje, na capital de São Paulo, são decepcionantes, como também o são em todo o território nacional, por onde ela se espraia. É incansável o trabalho dos componentes da SOS Mata Atlântica na sua conservação e preservação, destacando, em especial, meu caro amigo, Mário Mantovani, sempre presente e de uma atuação extraordinária.

Plantador de árvores como eu, que recebe este prêmio de tanta importância, não pode deixar de recordar que uma mulher Wangare Matthai é a ganhadora do Prêmio Nobel da Paz 2004. Sem dúvida, ela que plantou no seu país milhões de árvores, emocionada, declarou recentemente que “o meio ambiente é muito importante para a paz, porque quando nós destruímos nossos recursos e eles ficam escassos e nós lutamos por ele, meio ambiente”6. É impossível dissociar essa situação de atuante no meio ambiente sem se interessar por seu semelhante; somos todos iguais, pois “Deus formou o ser humano do pó da terra, soprou-lhe nas narinas o sopro da vida e ele se tornou um ser vivo” (Gen., 2,7). É o sentido bíblico das árvores, símbolo da nossa finitude terrena e de nossa imortalidade.

Quero louvar a Câmara Municipal de São Paulo, que, no período de dois anos e alguns meses, conseguiu aprovar, sob a presidência do vereador Arselino Tatto, estes diplomas legislativos: Plano Diretor Estratégico da Cidade de São Paulo; Área de Proteção Ambiental Capivari-Monos (que começa no Bairro do Curucutu, exatamente em minha propriedade) e o zoneamento dessa Área de Proteção Ambiental. Louvo, também, o excepcional trabalho desenvolvido pela Secretaria do Verde e do Meio Ambiente, capitaneada pelo Secretário Adriano Diogo.

Ali está o Conselho da Área de Proteção Ambiental, funcionando com representação paritária entre entidades privadas e públicas, sendo os privados eleitos por voto direto. Enalteço o trabalho de três figuras desse Conselho: a Presidente Jaqueline Fonseca, uma inglesa, formada em Filosofia, de vontade férrea; Maria Lúcia Bellenzani, a secretária, que vem de entidade pública, de uma dedicação incansável, moça com sólida formação ambiental em nível superior e, finalmente, Maria Lúcia, que representa para mim, o símbolo da mulher guerreira, voltada ao interesse dos seus semelhantes e à melhoria da qualidade do bairro onde mora, que é Marsilac. Todos os outros também, são muito eficientes, mas na impossibilidade de lembrá-los, registro o meu profundo apreço. Participar do Conselho da APA Capivari-Monos é uma lição de vida: obriga-nos a ser transigentes, conduz-nos a meditar sobre a importância de participar comunitariamente e nos faz levar à conclusão que precisamos evitar o caos ambiental a qualquer custo. As propostas dos ecomecanicistas esbarram naquilo que Hugo Penteado disse com grande propriedade: “.. jamais deveriam ter ignorado que a Terra tem um espaço físico constante e se trata de um sistema econômico fechado cuja única troca que faz com o Universo é energia fina e extremamente pulverizada do sol e de cometas”7.

Antes de encerrar, busquei Sergio Milliet, de quem guardo grande recordação, ele que foi talvez um dos mais importantes intelectuais paulistas do século passado.

Cantou São Paulo:

“Minha cidade
amo também teus plátanos nostálgicos
imigrantes infelizes
teus crepúsculos de seda japonesa
tuas ruas longas de casas baixas
e teu triângulo provinciano...”8

Minha gratidão a Deus, que me tem conservado e dado força, alento e vigor para esse trabalho que faço em prol do meio ambiente de São Paulo, sobretudo plantando árvores. Espero que Ele, na sua infinita bondade, propicie-me o que Arrigo Levi, escritor italiano contemporâneo, contemplou com este título: “A velhice pode esperar”9.

Minha gratidão aos meus funcionários, todos nordestinos, que, além de reconstruírem a cidade, ajudam e colaboram com coração, sentimento e esforço para criar a maior reserva privada da Capital de São Paulo.

Minha gratidão à imprensa ciente e consciente de sua responsabilidade com o meio ambiente da Capital de São Paulo, dando apoio, tempo, oportunidade e espaço, que sempre foram negados pela chamada iniciativa privada.

Minha gratidão perene a Nancy, minha mulher; Vera Helena, Teresa Cristina e Ana Cláudia, minhas filhas, e a seus maridos Antonio Carlos, Laerte e Gilberto pelo calor humano da convivência, o amor e respeito e por, também, terem gerado Júlia, Pedro Augusto, Ana Helena, Carmem e Luiz Felipe, meus netos.

Minha gratidão, por fim, a todos vocês que aqui vieram para compartilhar dessa alegria, que não é só minha mas se estende a todos os que lutam para fazer São Paulo uma cidade digna da qualidade de seu indomável povo.

_________

Fontes das anotações

1 SANT’ANNA, Affonso Romano de. O lado esquerdo do meu peito. In Morrer no Brasil. CD e texto impresso da série O escritor por ele mesmo. Instituto Moreira Salles, Casa da Cultura de Poços de Caldas.

2 ROJAS, Enrique. El hombre light: Una vida sin valores. Buenos Aires: Planeta, 2002. 189 p.

3 DOUGLAS, Norman. Old Calabria. Londres: Phoenix Press, 1994. p. 297.

4 GIONO, Jean. The man who planted trees. Londres: Peter Owen Publishers, 1985. 52 p.

5 DUMAS, Robert. Traité de l’arbre: Essai d’une philosophie occidentale. Paris: Actes Sud, 2002. p. 161.

6 SILVEIRA, Evanildo da. Ecologista queniana ganha o Nobel da Paz. O Estado de São Paulo, São Paulo, 9.out.2004. Caderno Geral, Seção Ambiente, p. A-14.

7 PENTEADO, Hugo. Ecoeconomia: Uma nova abordagem. São Paulo: Lazuli Editora, [s.d.]. p. 225.

8 GUEDES, Luiz Roberto. Paixão por São Paulo: Antologia poética paulistana. São Paulo: Editora Terceiro Nome, 2004. p. 177.

9 LEVI, Arrigo. La vecchiaia può attendere. Milão: Arnoldo Mondadori Editore S.p.A., 1998. 167 p.

__________
_________________

Leia mais

  • 29/1/08 - Ele criou uma floresta em SP - clique aqui.
  • 21/12/07 - O advogado Jayme Vita Roso criou e mantém, com recursos próprios, a única floresta urbana de SP - clique aqui.

__________

__________

informativo de hoje

patrocínio

Bradesco VIVO
Advertisement

últimas quentes