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Sexta-feira, 3 de abril de 2020

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Apito Legal
Roberto Benevides

Agora é pra valer: a Copa está começando

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Começa finalmente a Copa que pode entronizar o garoto Neymar na galeria de mitos do futebol brasileiro ao lado de Pelé, Garrincha, Tostão, Romário, Ronaldo e outros craques tão ou quase tão importantes quanto eles na conquista de cinco títulos mundiais, mas menos balados por historiadores, cronistas e fãs. Pode ser também a Copa que custará ao garoto de 22 anos o preço de uma frustração que boa parte do Brasil certamente cobrará a esta Seleção se o hexa lhe escapar em nossos novos estádios.

Por enquanto, há uma curiosa contradição de sentimentos nas ruas: os brasileiros estão indignados com os rumos do país, mas parecem tranquilos com o futuro da Seleção que, nesta segunda-feira, 26/5, desembarca na Granja Comary e começa a se preparar para a Copa do Mundo. Nelson Rodrigues adoraria ver esta surpreendente mutação do torcedor. Em 1970, quando a Seleção embarcou para o México, ele escreveu: "O escrete parte hoje. Termina o seu exílio e, se não ouviram bem, repito: o seu exílio era o Brasil".

Mais de quatro décadas depois, os sinais se inverteram: as principais estrelas da Seleção vêm do seu dourado exílio europeu para lutar no Brasil pela glória que em nossos velhos campos escapou à geração de monstros sagrados, como Barbosa, Zizinho e Ademir, no meio do século passado. E chegam acarinhadas pela torcida que as embalou na Copa das Confederações e será indispensável reforço na campanha pelo hexa, que começa 17 dias após a apresentação para os treinamentos em Teresópolis.

Nunca a Seleção Brasileira se preparou tão pouco para uma Copa do Mundo.

E não só a Seleção Brasileira. Ainda neste último fim de semana, o mundo do futebol acompanhou a decisão da Liga dos Campeões da Europa, uma grande festa celebrada em Lisboa para dar o décimo título da competição ao Real Madrid que, em 120 minutos de bola rolando, derrotou o Atlético de Madrid por 4 a 1. O Atlético tem 10 jogadores que vêm disputar a Copa no Brasil; o Real tem 13, inclusive o nosso Marcelo, que entrou no segundo tempo para ajudar a mudar o jogo que se desenhava a favor do Atlético, e ganhou de Felipão o direito a curtir a festa na capital espanhola antes de se apresentar à Seleção.

No total, devem vir do futebol europeu dois terços dos 736 jogadores que disputarão a Copa. É um problema para a qualidade técnica dos jogos, pois a imensa maioria chega ao final da temporada europeia fisicamente exaurida e muitos, inclusive estrelas de primeira grandeza como Cristiano Ronaldo, Falcao Garcia, Schweinsteiger, Suarez, Diego Costa e até o nosso Neymar, ainda não estão inteiramente recuperados de graves lesões.

Eis uma das grandes preocupações dos fisiologistas, como o professor Turíbio Leite de Barros, que adverte há muito tempo: "No momento em que a Copa do Mundo é realizada, nunca vai ser o palco mais adequado para o desempenho pleno dos grandes artistas. Não há uma seleção que não tenha jogadores importantes com problemas físicos. Este não é o cenário ideal para os grandes espetáculos".

Sobre o assunto não se ouve, porém, um pio sequer de um Joseph Blatter ou de um Jérôme Valcke. A FIFA insiste em regular a venda de espetinhos de filé miau nas cercanias dos estádios, mas não regula o calendário mundial do futebolnem dá bola para a saúde dos atletas crescentemente sacrificados pelo acúmulo de jogos. No futebol de hoje, se joga demais e se treina de menos. O resultado são jogos de qualidade técnica cada vez mais baixa, como se viu na milionária final da Liga dos Campeões da Europa e certamente se verá na Copa do Mundo.

Os craques, mesmo baleados, que se virem para salvar o espetáculo. É o que o Brasil espera de Neymar.

Festa

Já tem data a primeira festa da família Scolari na Granja Comary: nesta quinta-feira, dia 29, o pernambucano Anderson Hernanes de Carvalho Viana Lima completa 29 anos. Embora reserva, Hernanes garante que pretende ser um dos protagonistas do Brasil na Copa.

É assim que se fala

Boa sacada do Globoesporte.com: funcionários das embaixadas dos 31 países que vão disputar com o Brasil o título de campeão do mundo ensinam como se pronuncia o nome de cada um dos seus principais jogadores. Pena que a lista tenha apenas cinco de cada seleção e inclua nomes que não estarão na Copa, como o norte-americano Landon Donovan. Mesmo assim, vale conferir.

Quem diria?

Dos 23 jogadores chamados pelo técnico Jürgen Klinsmann para a jovem seleção norte-americana que vai enfrentar Alemanha, Portugal e Gana na primeira fase da Copa, 12 atuam no futebol europeu – dos quais, quatro na Inglaterra e quatro na Alemanha.

A alma do negócio

A edição digital do jornal espanhol El País anuncia: "Antes de entrar em campo o Brasil já é campeão... das propagandas". Faz as contas: "Principais jogadores e treinador da seleção têm seus nomes vinculados a nada menos que 45 marcas. Neymar é o que tem mais patrocínios, 12, e Scolari, o segundo, com 7". E mostra alguns exemplos de campanhas publicitárias com eles.

Não vai ter Copa

Cerca de 960 mil brasileiros vivem em lugarejos e comunidades que não têm acesso à energia elétrica – informa o repórter Rafael Luiz Azevedo, da Agência Pública.

Bola dentro

Antes mesmo que a bola comece a rolar nos 12 estádios da Copa, paulistanos e visitantes têm a chance de ver o melhor do futebol em três exposições imperdíveis:

  • No Instituto Tomie Ohtake, Futebol Arte, organizada por Hélio Campos Mello, mescla obras de grandes fotógrafos e pintores.
  • No Centro Cultural São Paulo, As Donas da Bola, organizada por Diógenes Moura, revela a paixão das brasileiras pelo futebol em 110 obras de 11 ótimas fotógrafas.
  • No Sesc Pompéia, Música de Chuteiras, organizada por Marcelo Duarte,mostra canções históricas relacionadas com a Copa do Mundo e até o hino nacional dos 32 países quedisputarão acompetição de 2014.

Fim de papo

"Quero que seja com a Argentina para darmos um 'couro' legal neles. Neymar de um lado e Messi do outro seria sensacional". Zico, escolhendo a final da Copa, em entrevista a Angélica, na TV Globo

"Essa Copa é do Brasil, no Brasil. É como fazer um teste de atores na casa de Marlon Brando". Ricardo Darín, o onipresente ator argentino, em entrevista a Rodrigo Salem, na Folha de S.Paulo do domingo, 25/5.

Roberto Benevides

Roberto Benevides, é jornalista, foi por muitos anos colunista e o editor do caderno de esportes de O Estado de S. Paulo, trabalhou também no JB, na Folha de S.Paulo, nas revistas Veja, Exame, Quatro Rodas, Placar e Época. Nos últimos dois anos, fez a coordenação editorial de uma coleção de 15 livros sobre esportes olímpicos publicada pelo editora do Sesi.

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