sábado, 30 de maio de 2020

ISSN 1983-392X

Gramatigalhas
José Maria da Costa

Pronome relativo – Quando antepor uma preposição?

quarta-feira, 18 de março de 2020

Uma leitora que se identifica apenas como Rosane envia a seguinte mensagem para a seção Gramatigalhas:

"Na questão abaixo o gabarito é a letra E. Como pode ser, se o verbo necessitar exige a preposição de. 'O que devidamente empregado só não seria regido de preposição na opção: a) O cargo __ aspiro depende de concurso. b) Eis a razão __ não compareci. c) Rui é o orador __ mais admiro. d) O jovem __ te referiste foi reprovado. e) Ali está o abrigo ___ necessitamos'."

1) Uma leitora traz o que, aparentemente, é uma questão de concurso. O gabarito deu como correta a alternativa e. Pareceu a ela, entretanto, que essa resposta não é a correta. Veja-se a questão: "O que devidamente empregado só não seria regido de preposição na opção: a) O cargo ___ aspiro depende de concurso. b) Eis a razão ___ não compareci. c) Rui é o orador ___ mais admiro. d) O jovem ___ te referiste foi reprovado. e) Ali está o abrigo ___ necessitamos."

2) Fixem-se, de início, duas premissas importantes: a) se funciona como complemento, o pronome relativo depende totalmente da regência do verbo ao qual se liga; b) se vai haver ou não preposição antes de tal pronome, ou qual vai ser essa preposição, tudo depende do verbo que está sendo completado por ele. Exs.: i) "Editou-se uma lei em que acreditamos, com que simpatizamos e por que lutamos" (acreditar em, simpatizar com e lutar por); ii) “Fazer da aplicação da lei a arte de distribuir justiça é o ideal a que aspiramos e em que comprazemos” (aspirar a e comprazer-se em).

3) No exemplo da primeira alternativa – "O cargo ___ aspiro depende de concurso" – pode-se desenvolver o seguinte raciocínio: a) o pronome relativo completa o verbo aspirar; b) tal verbo, nesse sentido de pretender, desejar, almejar, é transitivo indireto e pede a preposição a; c) a formulação correta do exemplo, então, é "O cargo a que aspiro depende de concurso".

4) Na segunda alternativa – "Eis a razão ___ não compareci" – assim se deve raciocinar: a) o pronome relativo completa o verbo comparecer; b) ora, quem não comparece, não comparece por alguma razão; c) o raciocínio deixa clara a necessidade da presença da preposição por; d) o exemplo completo será, assim, "Eis a razão por que não compareci".

5) Na terceira – "Rui é o orador ___ mais admiro" – assim se desenvolve o pensamento: a) o pronome relativo completa o verbo admirar; b) quem admira, admira algo ou alguém; c) vale dizer, o verbo admirar pede um objeto direto, ou seja, um complemento sem preposição alguma; d) o exemplo completo, então, é "Rui é o orador que mais admiro".

6) Em sequência, na quarta alternativa – "O jovem ___ te referiste foi reprovado" – assim flui o raciocínio: a) o pronome relativo completa o verbo referir-se; b) ora, quem se refere, refere-se a alguém ou a algo; c) isso quer significar que tal verbo pede um complemento regido pela preposição a; d) o exemplo completo, então, é "O jovem a que te referiste foi reprovado".

7) O exemplo da última alternativa – "Ali está o abrigo ___ necessitamos" – deve ser assim analisado: a) o pronome relativo completa o verbo necessitar; b) quem necessita, necessita de alguém ou de algo; c) exige ele um complemento regido pela preposição de; d) o exemplo completo, desse modo, é "Ali está o abrigo de que necessitamos".

8) Feita essa análise, conclui-se que o pronome relativo, nos exemplos dados, apenas não será regido por preposição na alternativa c. Se o gabarito apontou a alternativa e, obviamente incorreu em erro.

José Maria da Costa

José Maria da Costa, é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas. Sócio-fundador do escritório Abrahão Issa Neto e José Maria da Costa Sociedade de Advogados.

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