domingo, 27 de setembro de 2020

COLUNAS

Futebol, preconceito, elitismo e a banda Sepultura

O futebol não deveria ser tratado, no Brasil, apenas como um jogo. Muito menos como um instrumento de alienação das massas. À esquerda ou à direta, pouco importa, o desprezo (ou o preconceito) pela atividade que atrai, com maior ou menor intensidade, aproximadamente 140 milhões de brasileiros e 4,5 bilhões de terráqueos, é inaceitável.

A inaceitabilidade se intensifica - e avança para o campo do inconformismo - ao se constatar que, a partir de uma suposta relação de reverência, outros países passaram a extrair as riquezas locais - jogadores, muitos em fase de formação -, transformá-las e, com elas, dominar a indústria futebolística mundial.

Antes uma referência, o futebol brasileiro vem se transformando, assim, em fornecedor de matéria primária e em mantenedor da obsolescência organizacional e da mediocridade sistêmica.

Não se trata apenas de fruto da incompetência cartolarial ou dos equívocos legislativos; decorre, também, de movimentos históricos, de natureza patrimonialista, despreocupados com a distribuição de riqueza e a popularização do conhecimento.

Sim: o futebol poderia oferecer condições únicas de atração de crianças para sala de aula, de inserção social e de contribuição para o desenvolvimento econômico da Nação; mas é isso o que a maior parte da elite, independentemente da filiação ou da convicção política, não quer.

Como também não quer que outras formas de manifestação artística - igualmente desafiadoras dos padrões elitistas - se disseminem e se transformem em movimentos de contestação de um modelo falido de sociedade.

Apenas por esse prisma se justifica a falta da devida atenção do Brasil para com a banda Sepultura, formada em Belo Horizonte na década de 1980, e que se transformou, há muito tempo, em fenômeno mundial.

A provocação não é irrelevante. Lembre-se que, na Coreia do Sul, a música pop local (K-pop) tornou-se tema de Estado - ou ao menos de Governo.

Desde a formação do Sepultura, foram gravados mais de 20 discos (incluindo lp's, ep's e gravações ao vivo), vendidas dezenas de milhões de cópias, visitados em torno de 80 países com as suas turnês e colecionados discos de ouro em vários deles, como Portugal, Estados Unidos, Austrália, Canadá, França e Inglaterra.

Além dos números - ou mais do que eles -, saltam aos olhos as atitudes e as mensagens. Mencionam-se alguns exemplos.

Em 1993, a banda abalou a crítica musical com a força (e violência) do álbum Chaos A.D. A primeira faixa, denominada Refuse/Resist, escancarava a revolta com os abusos cometidos em nome de Estados. Aliás, o refrão Refuse/Resist poderia, não sem autoridade, ser incorporado à lista de passagens musicais manifestadoras de indignação contra atos autoritários, a exemplo de "Apesar de você" e "Bella Ciao".

Anos depois, em 1996, a banda lançou outro álbum, chamado Roots, que não apenas estabeleceu um novo padrão mundial para o estilo musical, como reverenciou algumas das raízes brasileiras, com as participações de Carlinhos Brown (e a poderosa percussão afro-baiana) e de uma tribo indígena Xavante, com a qual gravou a faixa Itsári: uma fusão sonora que, se fosse promovida por um músico escandinavo ou norte-americano, certamente seria aclamada.

Dois anos depois, um dos fundadores e vocalista, Max Cavalera, deixou a banda. No lugar de um homem branco, com longos cabelos castanhos, proveniente da classe média, que apresentava todas as características de um frontman desejadas por uma grande gravadora, os membros remanescentes tomaram uma decisão improvável para os padrões de mercado: integraram um cantor negro, desconhecido e que atuava, naquele momento, como segurança de bar. Passados mais de 20 anos, Derrick Green ainda troveja erudição e indignação incontida com a intolerância.

Dando-se um salto cronológico, recentemente, no início de 2020, o Sepultura, sempre comandado pelo guitarrista Andreas Kisser - pessoa conscientíssima de sua importância e da importância da banda -, lançou novo álbum: o excepcional Quadra, que foi recepcionado pelo jornalista e crítico Gastão Moreira como expressão absoluta da contemporaneidade; portanto, referência de música e de arte contemporânea.

Nele, aliás, descortina-se uma impressionante combinação de influências que vão - no meio de tanto peso e velocidade - da música clássica ao hard rock, passando pelo jazz e o rock progressivo; além, como já se indicou, dos ritmos brasileiros. Uma obra técnica, aberta, tolerante, democrática e desprovida de preconceitos.

Por todos esses motivos a comparação com o futebol não é descabida.

Mesmo tendo sido criado por nobres, para deleite próprio e exclusivo, a disseminação foi rápida e se expandiu para todo o planeta e todas as classes. Não há país em que não se pratique o jogo. Basta um objeto redondo, produzido a partir de qualquer material que role, como meias, para que se inicie uma partida épica entre seus participantes.

No Brasil, em particular, o futebol se tornou, para muitas crianças ou famílias, um sopro de esperança; um caminho, ou um sonho, de uma vida diferente, inserida, social e economicamente. Nele, aliás, se expõe o verdadeiro Brasil, que não é branco e tampouco pródigo em oportunidades; mas um funil, pelo qual poucos passam. Uma atividade que pode contribuir para inversão, portanto, da estratificação imposta desde a invasão portuguesa, ocorrida há mais de 500 anos.

Essa perspectiva indica um necessário ambiente de tolerância e de afirmação de conquistas humanitárias que não podem existir apenas no texto da Carta Constitucional.

É aí que surge a verdadeira questão: se o futebol, organizado como um mercado sustentável, respeitador do patrimônio cultural imaterial, dos direitos dos jogadores e dos agentes econômicos que dele fizerem parte (clubes, clubes transformados em empresa, investidores, etc), ostenta tamanha vocação transformacional, qual o motivo de tanta resistência?

A resposta parece evidente: a resistência, no caso, não parte do mesmo inconformismo inspirador - na opinião deste articulista - da canção do Sepultura, pois construída, ao contrário, para manutenção de poderes e privilégios.

Talvez os mesmos interesses e privilégios que se ameaçam com as poderosas mensagens proferidas pela banda brasileira.

Atualizado em: 5/8/2020 08:38

COORDENAÇÃO
Rodrigo R. Monteiro de Castro

Rodrigo R. Monteiro de Castro, é professor de Direito Comercial do IBMEC/SP. Ex-presidente do MDA. Ex-presidente do IDSA. Ex-Professor de Direito Comercial do Mackenzie. Doutor em Direito Comercial pela PUC. Coautor do projeto de lei que institui a Sociedade Anônima Simplificada. Coautor do Livro "Futebol, Mercado e Estado" e autor dos livros "Controle Gerencial" e "Regime Jurídico das Reorganizações". Sócio do escritório monteiro de castro, setoguti advogados.