sábado, 4 de julho de 2020

ISSN 1983-392X

Política & Economia NA REAL
Francisco Petros
José Marcio Mendonça

Política & Economia NA REAL n° 201

terça-feira, 12 de junho de 2012

Agora a Espanha - I

O conservador Partido Popular ascendeu à chefia do governo espanhol com a sua tradicional pregação pró-mercado. Encantou a maioria do eleitorado, incluso o mais jovem, com o ideário genérico da "austeridade". A mesma pregação da alemã Angela Merkel, a mulher sem graça que tenta incorporar o espírito de Thatcher, a dama de ferro. Pois bem : depois de cerca de seis meses de governo, Mariano Rajoy teve de pedir a bagatela de 100 bi de euros para que o sistema financeiro do país não quebrasse. Ressalta-se que este pacote assiste tão somente aos problemas financeiros e nada se destina à tragédia do desemprego galopante de cerca de 25% da força de trabalho (mais de 50% entre os jovens até 30 anos). Ademais, esta é a segunda intervenção do sistema monetário europeu nos bancos do país – grande parte da injeção de recursos por parte dos maiores BCs do mundo ao final do ano passado foi parar nas mãos dos espanhóis.

Agora a Espanha - II

O ideário pretensamente liberal de Mariano Rajoy era uma farsa, isso até os ossos de Lord Keynes já sabiam. Afinal, o tal do "mercado" é uma ficção ideológica cada vez mais sem lugar no cotidiano. O mais incrível é que a bolha imobiliária que causou este processo foi engendrada pelos conservadores espanhóis, agora socorridos pelo sistema europeu. A austeridade caberá, sobretudo, ao povo espanhol que terá de despejar suas moedas na sacola estatal que viabiliza tudo isso. A Espanha se junta, assim, ao seleto grupo da Europa meridional, composto por Portugal e Grécia e, do outro lado, os desesperançados irlandeses que votaram, há dois fins de semana, na austeridade da senhora Merkel. Ainda falta a solução da Itália, esta mais vigorosa para se sustentar no curto prazo, mas igualmente carente de crescimento.

Agora a Espanha - III

Poderemos ter um pouco de calma nos próximos dias. Todavia, em breve, os helênicos voltarão a votar (no próximo dia 17) e a fragmentação política do país gerará mais tensão ao Velho Continente. É quase certa a vitória do Syriza, contrário ao acordo, muito embora seja possível uma coalizão (intrigante) entre o Socialista Pasok e o conservador Nea Democratia. De todo modo, a pequena Grécia caminha para sua saída do euro. Será ao mesmo tempo uma tragédia (sem trocadilhos) e uma esperança. Quem viver, verá. Afora isso, pode-se afirmar que não há nenhuma possibilidade concreta de que possa se reverter o dramático quadro social de toda a Europa. A política de austeridade de Merkel persiste levando o Continente para a beira do precipício. Enquanto, não se adotar um receituário expansionista do ponto de vista monetário e fiscal, o destino da Europa está mais para a depressão econômica que a simples recessão. Em tempos de Eurocopa, melhor torcer contra a política econômica da Alemanha. Não apenas nos gramados.

E o FMI, quem diria !

Da Christine Lagarde, diretora-gerente do FMI, um dia antes do Comissariado Europeu decidir despejar até 100 bi para resgatar os bancos da Espanha :

"As autoridades políticas tem de deixar os mercados com suas ações em lugar de permitir que os medos do mercado guiem suas políticas."

A Espanha pediu e a União Europeia agiu por puro medo do mercado.

CPI : o barulho e o tsunami

Os depoimentos dos governadores Marconi Perillo (PSDB/GO) e Agnelo Queiroz (PT/DF), hoje e amanhã na CPI Cachoeira-Delta, vão fazer uma barulheira política, com os petistas tentando comprometer os tucanos e vice-versa. Porém, será um barulho muito mais eleitoreiro do que tudo, até porque o Congresso não pode fazer nada com os dois, se seus desvios suspeitos forem comprovados. Eles só podem ser cassados pelas respectivas Assembleias Legislativas nos Estados (Câmara Distrital em Brasília) ou depois de longo processo no Supremo. Barulho de verdade, tsunami mesmo, virá quando a Comissão, inevitavelmente, mergulhar nos negócios da Delta. As últimas informações do Coafi enviadas à CPI são, segundo pessoas que manejaram os documentos, de tirar o sono de muita gente, multipartidariamente.

Rindo sozinho. Até quando ?

Com o PSDB e o PT em guerra esta semana na CPI Cachoeira-Delta, enrolados hoje no depoimento do governador Marconi Perillo, tucano de GO, e amanhã no de Agnelo Queiroz, petista do DF, o PMDB está uma felicidade só. Em parte ele armou esta confusão para os dois concorrentes mais perigosos do PMDB nas eleições municipais : uniu-se aos tucanos para chamar o depoimento de Agnelo e aos petistas para convocar Perillo. Esta alegria pode durar pouco : petistas e tucanos preparam o troco para trazer Sérgio Cabral à CPI quando a empreiteira Delta entrar na berlinda de fato e de direito. Nessa hora, não haverá amizade do governador fluminense com o ex-presidente Lula e com o senador Aécio Neves. A vingança de petistas e tucanos será comida crua mesmo.

PT : de nau sem rumo a nau com novo rumo ?

O raciocínio que se segue é de um petista de escol, de bem com o partido e de bem com a vida, mas que, por motivos óbvios, não quer (ainda) se identificar para não cair na roda da inquisição dos companheiros mais intolerantes. Entende o interlocutor que seria útil ao PT passar por alguns "sustos" nas eleições municipais deste ano, com derrotas em cidades consideradas "chaves" para a legenda, para que os petistas revejam suas políticas dos últimos anos e retome o leito perdido quando se rendeu totalmente à realpolitik nacional. Parafraseando Delúbio Soares em uma reunião do PT, que discutia botar na internet as contas do partido, o interlocutor diz que "concessões como estão sendo feitas, alianças como estão sendo praticadas, é burrice demais". Ele lembra que a militância petista tradicional já não tem o entusiasmo de sempre – há apenas uns poucos remanescentes dos bons tempos nas ruas, a burocracia do partido e muitos assalariados temporários. Para encher convenções é preciso patrocinar alguma coisa. O partido está cada vez mais dependente do ex-presidente Lula. E, com todo respeito, diz, Lula não é eterno nem eternamente infalível em suas projeções políticas. Por fim, mesmo sendo paulista e paulistano, acredita que seria útil que o PT ficasse menos atrelado às coisas de SP.

O mensalão em foco - I

A entrevista do ex-ministro Márcio Thomaz Bastos, advogado de um dos réus do processo e autor da tese de que o mensalão não passou de um jogo de "recursos não-contabilizados", a um programa de televisão no fim de semana em SP, revela a surpresa que tomou conta de suspeitos e de suas equipes de defensores com os rumos que o processo tomou nos últimos tempos no STF. Os sinais, vindos de vários causídicos de acusados das estripulias mensaleiras, era de que eles esperavam – ou será que tinham ilusória certeza – que o julgamento seria postergado para o ano que vem. Por obra e graça de algum "espírito" desconhecido, dava-se como certo de que nada ocorreria neste ano. Talvez por que estivessem tão crentes, tão confiantes nesta possibilidade, é que tenham colocado as chamadas "manguinhas de fora". E a situação, que parecia segura, se inverteu.

O mensalão em foco - II

O STF encheu-se de brio. Não foi por pressões da opinião pública, pois esta ainda não entrou no clima do jogo, e nem por culpa da sempre culpada imprensa, que não tem a influência que se lhe atribui quando as coisas imaginadas pelos estrategistas políticos não dão certo. Foi muito mais por causa das provocações e o ar de superioridade exibido sem certo pudor pelos defensores e amigos dos acusados. Pode-se ter certeza de que o movimento da CPI Cachoeira-Delta e o encontro Lula-Gilmar Mendes (via Nélson Jobim) foram decisivos para a decisão do STF de tentar encerrar o processo até setembro. Qualquer movimento parecido com essas duas desastradas ações só pode aumentar os brios do Supremo e prejudicar, ainda mais, a defesa dos réus.

É uma questão de matemática

O governo não admite publicamente que reduzirá, como permitido pela lei de Diretrizes Orçamentárias, a meta de superávit primário deste ano, abatendo do total parte dos investimentos do PAC. Vai deixar simplesmente que ocorra. Avisar antes pode aumentar as desconfianças dos agentes econômicos externos e obrigar o BC a continuar justificando a baixa contínua da Selic. A ordem é acelerar os investimentos públicos – e como a arrecadação não está subindo no ritmo previsto nem as despesas correntes estão de fatos contidas, não dá para investir num ritmo maior do que foi feito até o fim de maio e, ao mesmo tempo, ficar com o superávit cheio de 3,1% do PIB. Até os milagres têm limite. É uma questão de matemática.

Os planos de aceleração dos investimentos - I

Da lista de medidas que se especulava em Brasília a serem possivelmente adotadas pelo governo para, de sua parte, acelerar a retomada de um ritmo mais acelerado de crescimento da economia nacional, duas já saíram do papel semana passada – a CEF reduziu os juros e ampliou o prazo para financiamentos da casa própria e o BNDES cortou os juros de empréstimos para capital de giro das empresas.

Os planos de aceleração dos investimentos - II

E novas providências foram incluídas no rol das medidas em estudo :

1. O aumento da capacidade de endividamento dos Estados e municípios.

2. Criar um RDC para compra de equipamentos para as áreas de saúde e educação.

3. Aumentar o limite de refinanciamento de dívidas bancárias com incentivo tributário de R$ 30 para R$ 100 mil.

4. Mudar artigo da lei de Responsabilidade Fiscal para tirar exigências de contrapartidas – novos impostos, aumentos de alíquotas – para concessão de incentivos fiscais.

5. Estabelecer juros mais baixos e regras mais generosas para financiamentos agrícolas.

6. Dar maior prazo para as empresas recolherem impostos federais.

7. Ampliar e antecipar as compras governamentais, com preferência para empresas nacionais com diferença de preço até 25%.

Como Dilma está "no pé" de seus ministros, com cobranças diárias, o pacote deve ser acelerado esta semana.

Cair na realidade

Do economista José Roberto Mendonça de Barros, em artigo no "Estadão" de domingo :

"É impossível não ver que temos aqui um problema muito maior do que uma flutuação conjuntural e que é hora de parar com avaliações triunfalistas ou a denúncia de conspirações internacionais. Num mundo que vai crescer menos, a disputa vai se elevar, e o que vai falar mais alto é a capacidade de competição de cada país."

Efeito dominó ?

Sem ver riscos de uma "crise sistêmica" no setor bancário brasileiro, alguns analistas dizem que o Banco Cruzeiro do Sul não vai fechar agora a lista de instituições financeiras brasileiras em dificuldades, sob intervenção ou vendidas à força, numa lista que inclui, entre outras, o Banco Panamericano, o Banco Schahin, Matone, Morada... Para esses analistas, na conformação atual do sistema financeiro do Brasil, os pequenos bancos vão se tornando inviáveis. Uma das preocupações da presidente Dilma é evitar a concentração bancária no Brasil.

Radar NA REAL

8/6/12 TENDÊNCIA
SEGMENTO Cotação Curto prazo Médio Prazo
Juros ¹
- Pré-fixados NA estável estável/alta
- Pós-Fixados NA baixa baixa
Câmbio ²
- EURO 1,2534 baixa baixa
- REAL 2,0329 baixa estável/baixa
Mercado Acionário
- Ibovespa 54.429,85 estável/baixa estável
- S&P 500 1.325,66 estável alta
- NASDAQ 2.858,42 estável alta

(1) Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais).
(2) Em relação ao dólar norte-americano
NA – Não aplicável

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Francisco Petros

Francisco Petros, é advogado, sócio responsável pela área societária, compliance e de governança corporativa do escritório Fernandes, Figueiredo, Françoso e Petros Advogados. Economista e pós-graduado em finanças. Trabalhou por mais de 25 anos no mercado de capital, em instituições financeiras brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associação Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimentos do Mercado de Capitais (2000-2002).

José Marcio Mendonça

José Marcio Mendonça, é jornalista e comentarista político; editou o Caderno de Sábado, o suplemento de Cultura do Jornal da Tarde e foi chefe de redação da sucursal de Brasília dos jornais: O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde. Apresenta: A Palavra de Quem Decide na Rádio Eldorado e escreve para o Portal Estadão e no Blog: A Política como Ela é.

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