sábado, 26 de setembro de 2020

COLUNAS

Política & Economia NA REAL n° 7

A inflação não dorme no ponto. E desgasta

As expectativas dos agentes financeiros a respeito do comportamento da inflação, naquela medida do boletim Focus, voltaram a se agitar. Em menos de uma semana passaram de 6% do para 6,3% de subida dos preços em 12 meses. Se fosse apenas por isso, a "Brasília oficial" poderia dormir tranqüila. A não ser no BC, praticamente ninguém leva muito em conta essa pesquisa. Seria mais coisa dos "especuladores", tentando direcionar o jogo para ganhar, acredita-se em muitos gabinetes coroados da capital federal.

Mas a desconfiança não está mais apenas com os tais especuladores. Começa a atingir as pessoas reais, digamos assim, e boa parte do público preferencial de Lula. A mesma pesquisa do Ibope divulgada ontem, feita por encomenda pela CNI, que trouxe para o presidente a boa notícia de que sua popularidade não sofreu nenhum abalo deste março - está ainda nos píncaros de 68% de aprovação - embute também um sinal de franzir os senhos oficiais.

Desde o último levantamento, a aprovação do governo Lula no que se refere ao combate à inflação caiu para 41%, dez pontos abaixo da registrada em março. Caiu também a expectativa quanto à continuidade das boas notícias sobre o emprego, embora em ritmo menor : passou de 55% para 52%. Se a luz vermelha do monstro ainda não piscou para o governo, é hora dos mais dorminhocos acordarem. A popularidade de S. Exa. está diretamente ligada ao aumento de renda, principalmente das classes baixas, que o controle da inflação e o aumento do emprego formal proporcionaram.

A crise se espalha

Na semana passada os mercados acionários dos EUA tocaram o ponto mais baixo do ano. Algo simbólico num momento em que aumentam significativamente os temores em relação à saúde do setor financeiro daquele país. O índice Dow Jones já caiu 19% do mais elevado patamar de outubro passado. As ações do setor financeiro caíram na média 42% desde outubro do ano passado. De lá para cá, o setor foi atingido pela crise do setor imobiliário, pelos créditos corporativos e pelos temores em relação aos fundos especulativos denominados de hedge funds. Um dos maiores bancos norte-americanos, o Bear Stearns foi absorvido pelo JP Morgan numa operação patrocinada pelo FED, com o objetivo de evitar uma quebradeira do setor. O Citibank, ícone dentre os grandes bancos mundiais, teve de se capitalizar por meio de uma operação de mais de US$ 40 bilhões. Como se pode verificar, o mercado tangencia problemas gigantescos.

Some-se a este cenário a elevação do preço do barril do petróleo para um patamar ao redor de US$ 140 caminhando para os US$ 150. Há um processo especulativo alimentado por grandes investidores em todo o segmento de commodities e é neste segmento que a inflação se retroalimenta, de forma sistemática. Todas as economias relevantes do mundo estão com a inflação em elevação nos próximos meses, pelo menos. (v. coluna anterior, clique aqui).

A deterioração dos mercados e do processo econômico é inequívoco. Claro e transparente como a melhor das águas minerais. A recessão está próxima e a inflação crescente. O ambiente é muito ruim.

Brasil não é uma ilha

Se alguém for categórico e disser que o Brasil não será afetado pela crise internacional não tenha dúvida : você está diante de alguém iludido. No mínimo. A crise é séria e o Brasil não está isolado neste processo. Será afetado e a magnitude da contaminação é desconhecida e não é passível de ser avaliada. Há, sem dúvida, alguns aspectos positivos a favor da economia brasileira, sobretudo no que se refere às contas externas e a uma disciplina razoável das finanças públicas. Todavia, há dois riscos que combinados podem gerar um cenário deteriorado no país. O primeiro é a extrema valorização da taxa de câmbio que desfavorece o setor exportador e por conseguinte, as contas externas do país. De outro lado, temos a sobrevalorização dos preços das commodities que podem ser abalados pela redução da atividade econômica mundial.

O Brasil tem sido muito favorecido pela alta dos preços de produtos siderúrgicos, do minério de ferro, do papel e celulose, da soja e de outras commodities agrícolas. Uma eventual combinação de (i) desvalorização do real frente às moedas internacionais com (ii) queda dos preços das commodities pode acelerar a alta da inflação de um lado, e piorar o balanço de pagamentos de outro. Restará a amarga opção de conter este processo via alta dos juros e queda da atividade.

E a eleição não ajuda

Passamos mais uma semana com os índices internos de inflação apontando para cima e com o governo dizendo com mais ênfase que fará qualquer coisa para não deixar os preços fugirem do controle. Mas, ações reais mesmo, além da disposição do BC de continuar elevando a Selic, praticamente nenhuma.

Pouca gente no mundo financeiro acredita que o aumento de R$ 14,2 bilhões no superávit primário (de 3,8% do PIB para 4,3%), agora oficializados, surtirá algum efeito do ponto de vista inflacionário. E por uma simples razão : quando os economistas estão sugerindo um aumento do superávit (alguns querem logo que se chegue aos 5% do PIB) eles estão pensando não apenas na economia para pagar juros. Pensam principalmente numa redução dos gastos do governo, especialmente nas despesas correntes e nos gastos administrativos. E pouca coisa dos R$ 14,2 bilhões virá por este caminho. R$ 6 bilhões virão das estatais, Petrobrás e BNDES à frente, na forma de dividendos e royalties.

Portanto, não é corte, é aumento de receita - e ainda por cima com redução da capacidade de investimentos das empresas contribuintes. Outra parte está garantida pelo aumento da arrecadação da Receita Federal. Quanto aos cortes reais, ainda não se especificou se atingirão investimentos ou custeio. As urnas de outubro podem rugir.

Exclusivo

"O câmbio é a mãe dos preços. E quando a mãe dos preços se aprecia, nossas vendas ficam cada dia mais difíceis. E antes de inverter esta tendência, o dólar ainda vai se desvalorizar com vontade. O nosso custo Brasil continua dramático e a velocidade dos investimentos terá de se acelerar para cobrir essa defasagem. Uma das saídas para acelerar o processo é inovação, produtividade e apostas na sustentabilidade." Ingo Plöger, ex-diretor da Apex e presidente do IP Desenvolvimento Empresarial e Institucional

INBEV : tomada de controle hostil

A INBEV, que controla a sua subsidiária brasileira AMBEV, tornou "hostil" a sua oferta de US$ 46 bilhões pelo controle acionário da Anheuser-Busch (AB), da cerveja Budweiser. Isso significa que a belga INBEV não conta mais com a colaboração da administração da AB para fazer uma fusão das duas empresas.

Neste contexto, o management da AB promete demitir 1.000 funcionários e implementar um programa de economia de custos da ordem de US$ 500 milhões até 2010. Apesar disso, parece incerto se as pretensões expansionistas da INBEV serão contidas. Serão os detentores de ações da AB que decidirão sobre a fusão. Num momento em que quase todos os setores estão com as ações das empresas em queda, aceitar o ganho proposto pela INBEV é uma tentação. Desde que a oferta da INBEV foi lançada, em meados de abril, as ações da AB subiram 32% enquanto o mercado despencava.

Lá, como cá, às vezes o nacionalismo empresarial fala alto : depois de vencer a batalha econômica pela AB, se vencer, a INBEV terá de enfrentar setores políticos e sindicais que não aceitam que a empresa americana passe para as mãos de estrangeiros.

Trombadas

Aconselham as boas e as más línguas que não se convide para dividir o mesmo barril de petróleo o ministro das Minas e Energia, Edison Lobão, e a diretoria da Petrobrás. O que um diz o outro não confirma - ou boicota. Há algumas semanas, Lobão anunciou uma nova refinaria da empresa no Maranhão, seu rincão natal e político. A Petrobrás confirmou primeiro no Ceará ; na terra dos Sarney disse que há estudos. Semana passada, o ministro comunicou que o governo estuda criar uma empresa especificamente para cuidar das descobertas na camada pré-sal da bacia de Santos. Da Venezuela o presidente da estatal, José Sérgio Gabrielli, disse que o governo não está pensando em tal. E alfinetou : "Isso é opinião pessoal dele".

Em tempo : quem continua presidindo o Conselho de Administração da Petrobrás é a ministra Dilma Roussef, chefe da Casa Civil. A tradição sempre foi o lugar ser ocupado pelo ministro das Minas Energia. Não foi assim com Silas Rondeau e não está sendo com Lobão. Mas, pensando bem... a tradição está mantida : não se faz nada na área energética no Brasil sem que Dilma palpite, oriente, determine.

O governo e as agências reguladoras

A ministra Dilma Roussef nunca gostou das agências reguladoras - pelo menos no modelo que elas foram imaginadas : independentes, autônomas, órgãos de Estado e não de governo. Quando ministra das Minas e Energia, tantas fez que conseguiu enquadrar a Aneel. Na frente da Casa Civil, passou a estender seus conceitos para outras agências: ANP, ANAC, ANATEL.

Coincidentemente, ou não, os problemas começaram a surgir - o caso Varig/VariLog perigosamente atípico ; o estímulo (com pressões sobre a ANATEL) à criação da BrOi (compra a BrT pela Oi), inexplicável ainda do ponto de vista dos interesses da economia nacional e dos consumidores ; o esvaziamento da ANP, cada vez mais submissa à Petrobrás ; o garroteamento financeiro das agências e a escolha, na maioria dos casos, de dirigentes levando-se mais em conta filiações político-ideológicas do que o preparo técnico dos indicados. Estão na mesma linha as novas indicações, inclusive para a presidência, dos novos conselheiros do CADE.

Não é um movimento inocente ou armado apenas para aumentar o poder do Planalto e da própria ministra. É mais ambicioso : trata-se de instalar no Brasil uma espécie de neo-capitalismo de Estado, no qual o poder público terá forte ingerência. Enquanto o setor privado contabiliza os lucros dos bons ventos que sopram na economia nacional e mundial, o poder público estende seus tentáculos. Quando o bolo ficar mais escasso, quem vai pagar a conta ?

Algumas conseqüências já estão no ar : segundo a edição de ontem do "Financial Times", "as incertezas sobre a regulação do petróleo são o maior risco para as empresas que pretendem operar na região das novas descobertas brasileiras".

O jogo das eleições municipais está feito

Pelo comportamento dos partidos na formação dos palanques eleitorais nas eleições para as prefeituras, pode-se inferir, tranqüilamente, que é intenção dos mais bem postados - PT, PSDB, DEM, PMDB e até do chamado bloquinho de lançar candidaturas próprias no ano que vem, no primeiro turno. Alianças, apenas na segunda fase a disputa.

As razões são duas:

1. Sem Lula na disputa e com estilhaçamento das relações internas no PSDB, as outras legendas vislumbram possibilidades reais de levar seu candidato ao segundo turno, beneficiadas pelo possível tiroteio entre petistas e tucanos na campanha.

2. Eles acreditam, com boa dose de razão, que um candidato da legenda ajuda a puxar votos para o partido nas eleições legislativas : Assembléias Estaduais, Câmara dos Deputados e Senado. E com boas representações, eles ficam com mais poder de barganha para o segundo turno e especialmente na hora de formação do governo.

O risco que desponta no horizonte com essa estratégia e com a permanência de um número excessivo de legendas no quadro partidário nacional é tornar o sucessor de Lula ainda mais dependente que o atual presidente e Fernando Henrique foram de transações fisiológicas para formar uma base de sustentação política no Congresso.

Caça ao Temporão

Que o ministro José Gomes Temporão nunca foi o nome preferido dos peemedebistas para o Ministério da Saúde não é segredo para ninguém. O PMDB, via o governador Sérgio Cabral, serviu apenas de "barriga de aluguel" para respaldar partidariamente o nome que Lula desejava pôr no Ministério, mas não podia porque havia se comprometido com a entrega da pasta ao partido.

Agora, diante de indicações, em parte reais em parte intrigas, de que o presidente está insatisfeito com as ações de Temporão, o PMDB da Câmara já se agita para indicar o substituto do médico carioca. Há até um ex-ministro do partido em grandes confabulações e lustrando a casaca para voltar. O PMDB só não está mais abertamente ativo porque teme o contra-ataque do PT, que nunca se conformou em perder o lugar que ocupou nos primeiros anos do governo.

Temporão está em baixa porque não conseguiu levar para Brasília a fama de bom gestor que adquiriu no Rio e também porque comprou brigas demais - algumas justas, outras indigestas. E está num Ministério cobiçado, com tentáculos espalhados por todos os rincões, pelos arranjos políticos que proporciona.

A corrida presidencial americana

Finalmente a Senadora Hillary Clinton se associou publicamente à campanha de Barack Obama. Num comício em New Hampshire, eles reavivaram promessas de unir o Partido Democrata em torno de políticas mudancistas. Tudo muito bonito aparentemente. Ocorre que as mulheres mais velhas, os trabalhadores brancos e os latinos não parecem inclinados a trocar os presumidos votos que dariam para a Senadora Clinton pelo candidato negro de Illinois. Ou seja, se Clinton inspirava os votos destes segmentos, não parece certo que ela tenha o poder de mudá-los de lado, dentro do Partido Democrata.

O cenário mais provável, portanto, é que a corrida presidencial entre Obama e McCain permaneça apertada até a data das eleições, em novembro.

Considerando-se a atual deterioração da maior economia do mundo, é possível que o início da próxima administração em janeiro do ano que vem seja complicada. Para não dizer complicadíssima... Até lá, todos ficarão tentando decifrar o que fará o eleito para corrigir os grandes problemas econômicos deixados por Bush.

A Procter & Gamble : priorização de emergentes

Em entrevista ao jornal inglês Financial Times, o presidente da Procter & Gamble (PG), Bob McDonald, diz que dará mais ênfase às economias emergentes para tornar ainda maior o crescimento da empresa que apesar de ter investimentos muito bem sucedidos na China e na Rússia, tem severas dificuldades em crescer no Brasil e na Índia, países nos quais a arqui-rival Unilever domina. O que os investidores querem mesmo saber é se a empresa irá vender várias divisões que foram somadas à P&G quando esta se fundiu com a Gillette em 2005. Dentre as quais a divisão de baterias cuja marca é a Duracell e a Pringles, marca de salgadinhos.

Atualizado em: 1/1/1900 12:00

COORDENAÇÃO
Francisco Petros

Francisco Petros, é advogado, sócio responsável pela área societária, compliance e de governança corporativa do escritório Fernandes, Figueiredo, Françoso e Petros Advogados. Economista e pós-graduado em finanças. Trabalhou por mais de 25 anos no mercado de capital, em instituições financeiras brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associação Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimentos do Mercado de Capitais (2000-2002).

José Marcio Mendonça

José Marcio Mendonça, é jornalista e comentarista político; editou o Caderno de Sábado, o suplemento de Cultura do Jornal da Tarde e foi chefe de redação da sucursal de Brasília dos jornais: O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde. Apresenta: A Palavra de Quem Decide na Rádio Eldorado e escreve para o Portal Estadão e no Blog: A Política como Ela é.