quarta-feira, 23 de setembro de 2020

COLUNAS

Porandubas nº 16

 

A DEPRESSÃO

Os discursos presidenciais exibem um presidente cheio de amargura. Enquanto se refugiava nas metáforas, Lula ainda conseguia expressar certa racionalidade. Agora, recorre com freqüência à mãe. E chora. Os psicanalistas de plantão começam a associar o verbo presidencial ao desespero, à solidão do poder, à necessidade do aconchego materno. Podemos discordar do presidente. Mas devemos respeitar o fator humano.

O GOVERNO ILHADO

O que faz o ministério de Lula ? Se faz alguma coisa, a mídia está simplesmente ignorando. Onde estão os programas, as ações, os feitos ? O presidente tem feito inaugurações, é certo. Mas alguém se recorda o que ele inaugurou ? O que fica no nosso sistema de cognição é o choro, é o gesto de limpar os olhos com um lenço, é o bordão repetitivo. O governo está ilhado. Há um novo ministro da Saúde. Um prêmio a quem expressar seu nome. Há um novo ministro das Comunicações. Outro prêmio para quem souber o que está fazendo.

RENÚNCIAS SERÃO PUNIDAS

Já há um movimento para não deixar a renúncia parlamentar sem punição. Renunciando, o parlamentar não terá direito a se candidatar em 2006. O presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Carlos Veloso, vai encontrar um mecanismo proibindo a recandidatura. É bom apostar nisso.

VALÉRIO MAIS ABERTO

Marcos Valério decidiu ser mais aberto, menos arrogante e mais atento às respostas. A nova atitude não tem nada de heroísmo. É orientação técnica. Já está a meio caminho da culpa. Quer apenas diminuir a pena, reconhecendo erros e ampliando o leque de envolvidos, quase cem pessoas. Valério se auto-designa ex (ex-publicitário, ex-empresário) e serve do recurso da exclusão para ser IN, ou seja, inserido no grupo dos colaboradores da CPI e da Justiça.

SEVERINO APERTADO

Severino já começara a fazer o jogo do governo. Pensava que o presidente da Câmara estava imune às pressões sociais e do próprio Parlamento. Procurou engavetar ou atrasar o recurso contra José Dirceu. Voltou atrás. A atual sociedade organizada é a maior força do Brasil de todos os tempos.

MÍDIA COBRE BEM

A mídia brasileira está fazendo uma cobertura admirável. Jornais e revistas estão deixando de lado idiossincrasias e posicionamentos partidários. Todos os que são denunciados ganham espaço. A mídia está fazendo a pauta política. A democracia brasileira deve muito aos meios de comunicação.

CONGRESSO CONSTITUINTE

Há uma proposta em curso: dar ao Parlamento a ser eleito, em outubro de 2006, poder constituinte, ou seja, o poder para reformar a Constituição. Realmente, parcela das mazelas políticas se deve à Carta Magna detalhista que temos. As reformas política, tributária e previdenciária em profundidade só poderão ser amplamente efetuadas dentro de uma nova Constituição.

CIÚMES ENTRE CPIs

Já começa a haver uma grande ciumeira entre as CPIs. Cada uma quer ser mais espetacular, mais impactante. Os integrantes, às vezes, dirigem-se mais aos telespectadores que aos depoentes. O Brasil-Espetáulo emerge por completo. A política até parece extensão do sentido lúdico que inspira nossa sociedade. Nesse sentido, é catarse, é riso, é choro, é lamento, é graça. Vejam que coisa: "Vossa Excelência é um canalha. Vossa Excelência é um mentiroso. Vossa Excelência conhece Jeane, a cafetina?".

ATÉ ONDE CHEGAMOS

A política é festa. Dois andares de um hotel de Brasília foram alugados para uma alegre festa. Parlamentares, quadros petistas e assessores na companhia de 23 prostitutas. E o PT, hein? Quem diria que a vestal da República iria aparecer brilhando nos palcos de um bacanal?

PIZZA MEIO A MEIO

Há um movimento entre os grandes partidos para se chegar a um número palatável de parlamentares condenados ao cadafalso. Entre um e cinco, em cada partido, é coisa razoável. Mais do que isso, a negociação pode abrir espaço para a morte súbita de muitos. O PSDB e o PFL têm interesse no jogo. O PMDB tem cinco nomes na relação. Os nomes do PT, PL, PP e PTB já foram divulgados.

O CORDÃO DA PORTUGAL TELECOM

Há quem aposte que o fio de novelo da Portugal Telecom será puxado. E aí, a coisa pega. Pega, não, bate. Bate no colo do presidente.

OS CARTÕES CORPORATIVOS

Os cartões corporativos poderão abrir nova frente de denúncias. A revelação desse ninho está sendo adiada. Por questões táticas. Há muita coisa sendo apurada. Não é interessante, nesse momento, desviar a atenção de situações que apenas começam a ser apuradas. Que os cartões corporativos são uma bomba, ninguém duvida.

TARSO VAI FICAR?

Tarso Genro não está muito firme na presidência do PT. Caso o trator Dirceu continue a passar por cima do novo comando partidário, Genro largará o boné. A conferir.

E CIRO GOMES, O QUE QUER?

Ciro Gomes não é mais o mesmo. Tinha credibilidade. Perdeu. Tinha discurso. Esfarelou-se. Ciro defende o governo Lula. Mais que os atacantes do PT. Está no PSB. Para onde irá Ciro Gomes? Está satisfeito com o governo Lula? Parece que sim. Está satisfeito com a política econômica? Parece que sim. Ciro é uma metralhadora velha. Enferrujada. É pena. Esqueceu de renovar cartuchos e limpar a arma.

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Atualizado em: 1/1/1900 12:00

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COORDENAÇÃO
Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato, (gt@gtmarketing.com.br) é jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.