Migalhas

Quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

ISSN 1983-392X

Porandubas Políticas
Gaudêncio Torquato

Porandubas nº 203

quarta-feira, 16 de setembro de 2009


Grande prole

Da Bahia, vem a historinha. José de Almeida, contador do BB, fazia o cadastro da agência. Um dia, chega Heroino Pita, fazendeiro. Que respondeu na bucha o formulário ? Nome, idade, imóveis, renda anual, dívidas. Aí vem a pergunta :

- Quantos filhos o sr. tem ?

- 8 filhos

- Tudo isso ? O senhor tem uma prole grande.

Heroino, entre sorridente e cabreiro, faz o gesto com as duas mãos :

- Não, senhor. É normal. Normal.

Boanerges e a salada de 32 frutas

Boanerges, barrigão de fora da camisa, vozeirão que ecoava pelos corredores, era proprietário da mais velha pensão de João Pessoa, nos idos de 60, a Hospedaria Pedro Américo, numa ladeirinha do Ponto de Cem Réis, onde se abrigava a estudantada que vinha de Souza, Cajazeiras, Uiraúna, Patos, Santa Luzia, enfim, de lá dos grotões da Paraíba. A "dormida", ali, quebrava o galho, mas a comida – era consenso - não satisfazia o apetite nem dos mais famélicos. Era ruim de fechar a boca. Vez ou outra, aparecia uma carne de sol. Mais dura que sola de sapato. De manhã, no café, o "véio" servia uma famosa salada de frutas. Que propagava com essa abundância frutífera : "Salada Pedro Américo com 32 frutas". Mas havia um porém na maldita : "era feita com uma maçã e 31 bananas". Um dia, a turma viu Boanerges saindo do quarto, o primeiro do corredor, escova de dentes na boca, resmungando um nhocnhocnhoc qualquer. De repente, para diante da mesa onde dois fregueses, que não o conheciam, trocavam impressões :

- Que comidinha ruim dos infernos. Isso é comida de porco.

- Veja essa banana d'água. Tá mais dura do que cipó de aroeira.

O "véio" ouve a indignação, baixa a cabeça, aproxima-se mais ainda dos dois, tira a escova de dentes e sopra bem na cara dos fregueses a massa da pasta, enquanto solta o vozeirão amedrontador :

- Vocês dois aí, prestem atenção : essa comida não é pra engordar macho, não, senhor. É apenas pra encher a pança. É procês não morrerem de fome. Se não tiverem gostando, chispem, chispem, vão embora !

Os dois se entreolharam, pagaram a conta e foram bater em outra freguesia.

Cenário paulista

O mundo gira e a política paulista roda. A cada dia, novos fatos e versões se sobrepõem aos fatos antigos. Vamos lá. Gabriel Chalita, o vereador tucano ligado a Geraldo Alckmin, está prestes a ingressar no PSB. Tem até o final deste mês de setembro para decidir. Está em fase de consulta, incluindo o presidente do partido, Eduardo Campos, governador de Pernambuco. Chalita quer ser senador paulista. Não teria vez no PSDB. Mas há o fator Alckmin.

Sobre reis

O rei de Uganda comia sozinho. Ninguém podia vê-lo comendo. Uma de suas mulheres dava-lhe a comida. Mas tinha de virar o rosto. "O leão come sozinho", dizia o povo. Quando não gostava da comida, mandava chamar o cozinheiro e espetava a lança em seu coração. Se uma servente tossia durante a refeição, era castigada com a morte. Se alguém entrasse de repente, também morria. E o povo dizia : "o leão matou três enquanto comia". (Elias Canetti)

Probabilidades

Para sair do PSDB, Chalita teria de pedir licença ao amigo do peito, Geraldo Alckmin. Que lidera a corrida para o governo, pontuando quase 50%. Ocorre que Alckmin não é (ou não era até esta semana) o candidato de José Serra para o governo. O candidato governista é (ou era) Aloysio Nunes Ferreira, chefe da casa Civil. Mas Aloysio tem dificuldade em pontuar no ranking. Por isso mesmo, saiu a versão de que Serra já começa a admitir o nome de Alckmin. Até porque se o ex-governador não sair para o governo e ganhar uma das duas vagas para o Senado, na chapa governista, queimaria o nome de Quércia, a quem já foi prometida uma vaga. Quércia não teria chance se Geraldo sair para o Senado. Isso porque governistas e oposicionistas (leia-se PT) elegeriam, cada um, um senador. Ou seja, Alckmin e Mercadante, por exemplo.

Quércia faz pressão

Prevendo que Alckmin poderia ganhar uma vaga para o Senado, Quércia procurou seus aliados Serra e Kassab e teria colocado a hipótese : se ambos forem candidatos ao Senado, ele, Quércia estaria rifado. Portanto, Serra deveria aceitar o fato que se torna, a cada dia, mais real : Alckmin para o governo. Vamos acompanhar os próximos passos.

Chalita e o PT

Quem está muito interessado no ingresso de Chalita no PSB é o PT. Que vê a possibilidade de uma alavacangem na candidatura petista ao governo. Chalita conta com uma ampla rede religiosa, reunida pelo Grupo Canção Nova, da Igreja Católica. Ele é quase venerado por esse grupo. E poderia encarnar o perfil do moderno, do novo, ou seja, de uma Nova Canção aos ouvidos do eleitorado. Lembrando mais uma vez : Alckmin não deixaria Chalita fazer o jogo do PT.

O cenário carioca

Já no Rio de Janeiro, quem dá um passo adiante é o ex-prefeito César Maia, o mais estudioso de política entre os nossos governantes. Que começa a pensar alto e explícito em torno de sua candidatura ao Governo do Estado. Maia seria apoiado pelo PSDB de José Serra, que teria no Rio um amplo palanque. E o PSDB dispensaria Fernando Gabeira da candidatura ao governo, liberando-o para o que ele sonha : ser senador. Serra contaria, nesse caso, com o palanque de César Maia e até poderia envolver o PV de Gabeira no segundo turno. Há muitas dúvidas sobre a divisão dos verdes no segundo turno. Há quem garanta que fechará com Dilma, outros com Serra. Hoje, pende mais para Serra.

"Para desvirginar o labirinto
Do velho metafísico mistério
Comi meus olhos crus no cemitério
Numa antropofagia de faminto."
(Augusto dos Anjos)

Dilma, a dúvida

A dúvida acima se ampara na boataria dos últimos dias, que dá conta do rebaixamento de Dilma Rousseff no ranking das pré-candidaturas. Já esteve mais cotada que hoje. Os quase cinco pontos que perdeu, nos últimos tempos, a colocam sob o teto das inquietações. Volta-se falar não na doença, mas na índole autoritária e arrogante da ministra. Lula, que continua fechado com a candidatura de sua ministra, já esteve mais firme. Hoje, usa a régua do pragmatismo. Se der, deu; se não der resultados, tirará da cartola outro nome. Quem sabe, Ciro. Ou Palocci.

PMDB e PT

Nas últimas semanas, expandiu-se a versão de que a aliança entre PMDB e PT já foi mais segura. A partir do momento em que o PT começa a movimentar as pedrinhas na lagoa dos Estados, as marolas tendem a afastar o PMDB de suas proximidades. No Rio, por exemplo, Sérgio Cabral já começa a perceber que o prefeito de Nova Iguaçu, Lindberg Farias, se firma como candidato petista ao governo. Ademais, Cabral está insatisfeito com a posição federal sobre os royalties do Pré-Sal. A salmoura dos choques recentes tem contribuído para afastá-lo um pouco mais do Palácio do Planalto.

O quadro mineiro

Em Minas Gerais, Hélio Costa, ministro das Comunicações, pré-candidato ao governo pelo PMDB, ensaia uma união com o PMDB de Newton Cardoso. O patrono dessa unidade se chama Orestes Quércia. Como Quércia, em São Paulo, apoia Serra, é bem provável que, em Minas, Hélio Costa seja candidato de uma coligação envolvendo tucanos, peemedebistas e democratas. Aécio Neves estaria por trás dessa equação. E o PT, assim, se afastaria também em Minas do PT.

Sobre reis

O rei de Kitara era alimentado por um cozinheiro. Que, ao trazer a refeição, espetava o garfo na carne, cortava um pedaço e o colocava na boca do rei. Repetia o gesto quatro vezes. Se, por acaso, tocasse nos dentes do rei com o garfo, era castigado com a morte. (Elias Canetti)

Cesare Battisti

E o caso Cesare Battisti, hein ? O placar é de 4 a 3 a favor da extradição. O ministro Marco Aurélio pediu vistas. Comenta-se que votaria contra a extradição sob o argumento de que os crimes atribuídos a Battisti estariam prescritos no Brasil. Pergunta curiosa : os juízes brasileiros podem julgar o mérito de crimes previstos pelas leis italianas ? Se a prescrição na Itália não combinar com o tempo da prescrição prevista pelas leis brasileiras, o que valerá ? A lei italiana, onde os crimes teriam sido cometidos, ou a lei brasileira ? Pode um país julgar o mérito de uma legislação de outra Nação ? Este escriba quer simplesmente provocar o animus animandi dos juristas.

"Somos, ainda, sobre todos os outros, o povo das esplêndidas frases golpeantes, das imagens e dos símbolos." (Euclides da Cunha)

Exército na míngua

Qual é a Força mais próxima ao povo brasileiro ? A Aeronáutica ? Creio que não. Esta voa longe. Trata-se da Martinha ? Creio que não. Esta navega nos oceanos, espaço distante do dia a dia dos mortais. O Exército ? Sim. Ele está mais próximo. Os verdes circulam pelas ruas. Tanques e caminhões, vez ou outra, passam pela nossa vista. O Exército até que limpou aquela imagem dura dos anos ditatoriais. Pois bem, o Exército, que está mais perto de nós, está à beira da míngua. Até o expediente da segunda-feira poderá deixar de existir. Faltam recursos até para comida dos recrutas. Mas o Brasil ostenta, como pavão, as cores orgulhosas de aviões de caças, submarinos, helicópteros sofisticados. Cada Força com sua força.

E Marco Aurélio, hein ?

O ministro Marco Aurélio, do STF, até hoje não disse se vai aceitar ou não o recurso apresentado pela Câmara dos Deputados contra a liminar que determina a entrega à Folha de S.Paulo de 70 mil notas de despesas com verbas indenizatórias. A Câmara espera o julgamento do mérito. Segundo a Câmara, as informações solicitadas pela Folha podem ser acessadas no site eletrônico. Mas a Folha quer papel. Ademais, a Câmara não pode entregar notas sobre contas telefônicas, sob pena de infringir o sigilo telefônico resguardado pela Constituição. Mais ainda : se outros meios de comunicação fizerem a mesma solicitação, seria necessária grande gráfica para imprimir os impressos desejados, além da logística de transporte. Serão algumas toneladas. E se o STF julgar o mérito e acolher o ponto de vista da Câmara, quem arcará com o prejuízo ?

Toffoli, quase certo ?

Dizem que José Antonio Dias Toffoli é nome quase certo de Lula para assumir o lugar do falecido ministro Carlos Alberto Direito. E que, entrando no Supremo, já poderia julgar o pedido de extradição de Cesare Battisti. Algo não combina. O ministro da Justiça, Tarso Genro, abre a boca para defender a liberdade de Battisti. Tarso Genro é candidato ao governo do RS pelo PT. Toffoli já foi advogado do PT. Se começar no Supremo dando um voto de caráter político, entrará na mais Alta Corte com o pé esquerdo. Vão dizer que vota sob encomenda. Poderia, simplesmente, nesse caso, abster-se.

Juniti Saito quase saiu

Nos bastidores, comenta-se que o ministro da Aeronáutica, Juniti Saito, quase pedia o boné a Lula. Teria ficado contrariado contra a decisão antecipada do presidente de comprar os aviões Rafale, da França. Como Lula deu meia volta, Saito voltou a por o boné. Mas algo ficou nos ares.

Conselho ao ministro Marco Aurélio

Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes e líderes nacionais. Na edição passada, o espaço foi destinado ao presidente Lula. Hoje, volta sua atenção ao ministro do STF, Marco Aurélio Mello :

1. Vossa Excelência é considerado um ministro técnico, culto, preparado, independente. Nos últimos tempos, sombras têm se projetado sobre sua imagem, a partir de posicionamentos ainda não muito claros.

2. O pedido de vistas sobre o caso Cesare Batistti cria celeuma no mundo jurídico, eis que não se consegue enxergar em sua decisão motivação técnica. Dizem, até, que, nesse ínterim, o presidente da República nomeará o substituto para a vaga do falecido ministro Carlos Alberto Direito. Nesse caso, o indicado deverá participar do julgamento.

3. A sociedade aguarda com grande atenção seu parecer. Sob uma questão de fundo: se é verdade que os eventuais crimes cometidos por Batistti teriam sido prescritos sob a legislação brasileira, pode nossa Justiça julgar o mérito de outras legislações ? Se na Itália, os crimes não foram prescritos, pode a justiça brasileira tomar uma decisão contrária ?

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Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato, (gt@gtmarketing.com.br) é jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.

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