Segunda-feira, 17 de junho de 2019

ISSN 1983-392X

Araras

Edson Vidigal

Quase ninguém se lembra mais dos macaquinhos, um pouco antes do amanhecer, farreando nos galhos da amendoeira.

sexta-feira, 5 de março de 2010


Araras

Edson Vidigal*

Quase ninguém se lembra mais dos macaquinhos, um pouco antes do amanhecer, farreando nos galhos da amendoeira.

Não tinham medo de gente e eu mesmo cheguei a dividir com eles a minha banana matinal.

Uma banana por dia, dizem os médicos, é o mínimo indispensável para não deixar cair o potássio.

Um estudo sobre os macacos concluiu o quanto eles dependem de potássio em sua química de vida e daí, portanto, essa gana toda por bananas.

Tem médico mandando o pessoal comer bastante banana antes de qualquer tentativa de reposição hormonal.

Eu andava pelo mundo e não entendia porque os gringos não dispensavam, e ainda hoje não dispensam, uma banana, no mínimo, todo dia. Hoje, eu entendo.

Os macaquinhos da amendoeira faziam um alarido danado ao pressentirem que alguém se aproximava da árvore, ou seja deles, com uma banana.

Olfato apurado, sentiam de longe o cheiro.

Aquilo já era quase ritual.

O sol mal começava a ensaiar-se em enorme espelho sobre as águas quase paradas deste pedaço enorme de lago na península do Paranoá e os macaquinhos, de repente, não mais que de repente, sumiam.

Por um tempo, à noite, as antas andaram por estas trilhas das nossas caminhadas. Anta é o bicho mais besta de ser pego porque sobre o asfalto ou não deixa sempre os mesmos sinais.

Mas agora é uma arara, a dona do pedaço, que reina soberana em vôos quase rasantes entre a amendoeira outrora dos macaquinhos e uma mangueira adiante, na beira da trilha, quase margeando a água.

Às vezes, caminho distraído querendo ouvir só o silêncio, e de repente o susto num som seco como se fosse tirado de taboca rachada, - é a arara.

Tem gente que falando, e mesmo sem estar zangada, nos lembra voz de arara. Digo voz mas não tenho certeza se é voz.

Deve ser apenas som, algum sonido, porque arara não fala. A única palavra que ela consegue articular de forma audível, concatenada, é a que denomina a si mesma – arara.

Mas essa arara que botou para correr os macaquinhos da amendoeira da península não parece chegada a bananas, mas sei que adora manga.

Ela bica uma manga com tanto charme e solenidade que até lembra o Vinicius, nosso poeta da dor, do amor e da saudade, bicando suas doses da garrafa que mantinha em sociedade com o maestro Jobim, no bar do Antonios, em Ipanema, no Rio de Janeiro.

Foi lá que um telefonema de Frank Sinatra, querendo gravar a Garota de Ipanema, encontrou o maestro e aquilo lhe pareceu tão inverossímil que, num primeiro impulso, não quis atender, achando que era algum trote.

Conta uma testemunha que a sociedade dos dois naquela botelha acabou no dia em que nomearam como fiel depositário o incansável Carlinhos de Oliveira, que escrevia de lá mesmo, enquanto sorvia umas doses, a sua crônica diária para o Jornal do Brasil.

Quero saudar hoje a tagarelice de todas as araras, convocar os barulhos, os sons das ruas e os do abre e fecha, mais abre do que fecha, dos cofres públicos.

Quero que silenciem as buzinas dos sacanas que espantam os pedestres nas faixas de segurança quando o sinal ainda está fechado aos automóveis.

Quero que as pessoas que julgamos sem educação porque conversam em voz alta nas filas, nos bares, nos restaurantes, por onde andam não conseguem falar em tom ameno, num tom parecido com aquele dos peculatários, quero que todos, mas todos mesmo, aumentem os volumes de suas vozes e falem, falem, falem mais alto ainda, incomodando a todos de suas tribos até embarcarem seu desassossego nas trilhas do vento.

Quem sabe se assim, nessa tagarelice das araras, consigam tanger para o caminho de volta aqueles macaquinhos?

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*Ex-Presidente do STJ e Professor de Direito na UFMA





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