Sábado, 7 de dezembro de 2019

ISSN 1983-392X

Nada de fim

Edson Vidigal

Nada de ficar imaginando que o último dia pode ser o de hoje ou o dia seguinte. Todo dia é ele só, cada hora é ela só. Os girassóis que em suas variedades de opalas são abundantes, eles também, em seus reflexos multicoloridos, também os girassóis dependem dessa luz deste dia de agora.

sexta-feira, 2 de julho de 2010


Nada de fim

Edson Vidigal*

Nada de ficar imaginando que o último dia pode ser o de hoje ou o dia seguinte. Todo dia é ele só, cada hora é ela só.

Os girassóis que em suas variedades de opalas são abundantes, eles também, em seus reflexos multicoloridos, também os girassóis dependem dessa luz deste dia de agora.

Amanhã é certeza de esperança, mas nada garante que os girassóis enfeitarão outra vez esse dia seguinte.

A incerteza é certa nas meteorologias destas paragens e foi por isso que a indignação de um padre viu mentiras até nos sinais dos céus.

Essa impaciência de que o ultimo dia está quase chegando é a causa das ansiedades desembestadas engolfando silêncios e desconfianças no amanhecer chuviscado.

O dia mal começa e os anseios mais lógicos são tragados pelas impaciências e nessa lógica tudo tem que acontecer hoje e agora porque amanhã ninguém sabe em que isso tudo vai dar.

Conheci um poeta que cantou alegre o seu ultimo dia da vida quando, então, se encontrou com os seus pecados, uns maiores, outros menores, mas no geral bem pesados.

É a sua versão de juízo final.

Disse que depois dessa medição, dessa contabilidade feita por um anjo, entre o que fez de certo e o que fez de errado, seu saldo era tão positivo que merecendo a vida eterna no Paraíso vestiram-no de branco e ele subiu.

Nas suas contas, os sofrimentos causados por um amor não correspondido foram tamanhos que acumulando tantas milhagens o seu crédito lhe garantiu passagem de ida, sem volta, ao Céu.

E de lá de cima, ele de camisola e sandália, tocando harpa, se deleitava vendo a fulana lá embaixo dominada pela quadrilha da fornalha, trabalhando de salsicha.

Essa coisa de último dia é evocação ao juízo final, quando as contas das boas ações da vida inteira são confrontadas com as contas das más ações, a velha rinha do bem contra o mal.

Há muita ansiedade em quem não aprendeu a esperar trabalhando, só querendo tudo para ontem imediatamente agora, tudo neste exato erro do agora ou nunca.

Calma rapaziada, Roma não se fez num dia. O Maranhão vem sendo desfeito há décadas no dia a dia, as esperanças populares anestesiadas, os sonhos adormecidos em sonos letárgicos que não despertam.

As dívidas dessa gente para com o futuro neste Estado são enormes, são incalculáveis. Eles não têm noção do quanto de mal fizeram e ainda fazem, travando as jornadas de gerações.

Calma, rapazes que o mundo não vai acabar agora, nem amanhã.

Mas essa certeza não dispensa ninguém de temer o juízo final, o temido acerto de contas quando as boas ações terão que somar acima das ações negativas, quase todas causadas pela inveja e pela arrogância.

Não será melhor esperar um pouco a passagem dessas nuvens que anunciam novas tempestades e essas muitas águas que ainda vão escorrer por debaixo de algumas pontes?

Não dizem que todo dia é dia de índio? Pois dia nenhum é dia de juízo final. Embora tenhamos que estar todo dia nos preparando para ele, o dia derradeiro, o qual, tenho fé, nunca virá.

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*Ex-Presidente do STJ e Professor de Direito na UFMA





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