Domingo, 20 de outubro de 2019

ISSN 1983-392X

Pivetes

Edson Vidigal

Nada mais verde esperança do que uma criança. E fico a imaginar no que leva uma criança, armazém de tanto futuro, a se perder na encruzilhada entre o bem e o mal, preferindo seguir a estrada larga das vantagens fáceis, que sendo fáceis demais, nem compensam porque são quase sempre ilícitas.

quinta-feira, 8 de julho de 2010


Pivetes

Edson Vidigal*

Nada mais verde esperança do que uma criança. E fico a imaginar no que leva uma criança, armazém de tanto futuro, a se perder na encruzilhada entre o bem e o mal, preferindo seguir a estrada larga das vantagens fáceis, que sendo fáceis demais, nem compensam porque são quase sempre ilícitas.

Vantagem fácil no começo. Um pequeno descuido de alguém logo abre a possibilidade para o descuidista. Depois, começa o aprendizado que descamba, enfim, no aprimoramento que garante a vaga no espaço cativo da marginalidade.

Quando se diz que o fulano é um marginal está se dizendo que ele optou por estar sempre à margem. O que significa definir à margem da ordem legal, não estando nem aí para os princípios éticos, nem aí para os valores morais.

Os colegas de escola, na infância, de Fernandinho Beira Mar dizem que ele era um garoto bem comportado e muito inteligente. Da sua turma saiu inclusive um oficial da aeronáutica. Mas o Fernandinho, que se destacava porque era sagaz, direcionou sua vocação de líder para a transgressão, para a criminalidade.

Dizer que só vai para a marginalidade o pobre de estudos não vale porque muitos criminosos, dos que foram afinal pegos pela polícia, tornando-se reféns da lei, tinham curso superior. A crônica policial das duas últimas décadas do ultimo século muito se ocupou de um cirurgião plástico, famoso no Rio de Janeiro porque namorava coroas ricas, mas eu conheci uma jornalista que nem era coroa, a qual largou tudo, emprego e paixões, por causa dele.

O Marcola, lendário líder do Comando Vermelho, que comanda da prisão as ações do crime organizado, é uma mente brilhante, dizem os psicólogos que o estudaram. Geralmente essas pessoas se tornam profissionais do crime porque, sem os freios morais e as amarras éticas, vão achando tudo muito mais fácil.

A impunidade causada pela ineficiência das engrenagens legais do poder público, e também pela tolerância da sociedade que até os absorvem, vão fazendo com que cresçam no medo e na arrogância que impõem e pelo medo ampliam os seus domínios.

Ainda bem que nem todos ousam incursionar pelo território da política, onde muitos já pontificam. Ricos, poderosos e famosos se impõem graças à tolerância da sociedade que não os rejeita de forma ostensiva e definitiva.

Chego a temer pelo futuro do país quando vejo essa promiscuidade entre pivetes e a rapaziada que pensa no bem, que sonha em ter chances de poder contribuir em favor do bem. A pivetada de hoje em dia já nem é mais aquela que simulando que fazia do trabalho difícil o seu ganha pão e que na constatação do Chico – no sinal fechado vendia chicletes...

O problema maior é quando faz a ligação direta. E nem sabe que a esperteza quando é demais vira bicho e engole o esperto.

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*Ex-Presidente do STJ e Professor de Direito na UFMA





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