Terça-feira, 16 de julho de 2019

ISSN 1983-392X

Charles Aznavour canta e elogia os advogados

Jayme Vita Roso

Os que viveram épocas, onde o romantismo modelava as relações amorosas, onde os bailes eram musicados com orquestras ao vivo, onde a sensibilidade aflorava nos olhares furtivos, às vezes trazendo esperanças, noutras, desalentos.

terça-feira, 19 de abril de 2005

Charles Aznavour canta e elogia os advogados

Os que viveram épocas, onde o romantismo modelava as relações amorosas, onde os bailes eram musicados com orquestras ao vivo, onde a sensibilidade aflorava nos olhares furtivos, às vezes trazendo esperanças, noutras, desalentos. Estes ou aqueles, estas ou aquelas, com saudade e com emoção, recordam-se das canções de Piaf, Trenet, Chevalier, Montand e tantos outros astros da música francesa, que foi enclausurada nos anos após a guerra mundial (39/45).

Surgiu, Aznavour, consolidando-se a pouco e pouco, como ator e, mais tarde, como “crooner” (cantor de orquestra), e, finalmente, “solo”, Charles Aznavour. É, pois, ele que ousaremos incluir em “Migalhas”, para homenagear o octogenário (nasceu em 1924, em Paris), único que, a meu conhecer, se lembrou dos advogados, em uma canção deste milênio batizada de “Nos advocats”.¹

Pouco antes de seu aniversário (em maio de 2004), publicou as memórias. Não são uma autobiografia, mas memórias, tout court.

Surpreendeu a todos esse livro, pois as múltiplas funções e atividades exercidas ao longo de sua gloriosa vida terrena, nunca se imaginaria que iriam desaguar num escritor fluente, que soube colocar suas idéias no lugar certo, em prosa, já que é, como tem sido há décadas, um poeta fecundo, com versos encantadores, quão emocionantes.

Artista consagrado pelo público dos quatro continentes, nas memórias, mostrou a dignidade com que sempre pincelou sua vida. Não imitou Casanova, por ser artista, mas teve pudor e delicadeza ao narrar certos acontecimentos mais cruentos dele e de outros tantos conhecidos do público. Corajoso, não teve medo das palavras, mas deu-lhes um tom sereno, sobretudo em mostrar sentimentos e , quanto menos, exercitou o triunfalismo de um vencedor na carreira e na vida.

Escapou dos modismos corriqueiros de outros que trouxeram suas memórias. Assim, Aznavour se despiu para mostrar sua vida, sem ter o intuito de produzir uma “sucess story”. De outra face, ele sabe, conscientemente, que viveu uma vida digna de ser contada. E foi o que cumpriu, Charles Aznavourian (seu nome de batismo).

Comovem-nos, o autor, desde o início do livro, com testemunhos dignos, como, por exemplo, nunca se aborreceu frente aos eventos da existência, sempre sonhou, não no sentido pessoal, com o futuro, mas com o passado de sua família armênia, sobretudo com o famoso cemitério Der es Zor, onde um milhão e meio de seus parentes e ancestrais foram violados e assassinados em nome de um Alcorão, que verteu sangue por mãos impróprias. Aniquilou-se a antiga Armênia, para que outra nascesse.

Filho de uma mãe turca comediante e de um pai compositor, desde cedo, peregrinou pelo mundo conturbado, dos anos 20, na Europa.

Passou por todos os cantos da França, sempre demonstrando denodo, produto de um temperamento forjado, numa vida em que os desafios se sucediam cada dia, em cada semana, em cada mês, num caleidoscópio envolvente. Mas, Aznavour, galgava outros pontos e, levado por seu empresário, culmina em Montreal, com passagens inolvidáveis, narrados com emoção todos os momentos, os lugares, os eventos, os personagens e, sobretudo, o público que o acolheu carinhosamente.

Enquanto isso, compunha, compunha versos lindos, tocantes, que a seus ouvintes embeveciam.

Pai extremoso, com dignidade, narra o desfazimento do primeiro matrimônio, e o quanto lutou – anos mais tarde – para casar-se com uma nórdica que lhe deu mais dois filhos, tendo uma do anterior.

Cultivou sempre a juventude eterna, mas, passando os anos e os amigos que partem, confessa que “dia a dia, a nostalgia nos aperta um pouco mais a garganta e o coração”. Mesmo no turbilhão de seus dias, cultivou os bons momentos da família, dedicando-lhes palavras cheias de ternura, bem à maneira antiga, pois, paradoxalmente, não “viu o tempo passar”, como imortalizou em uma das suas célebres canções.

Também cultivou inúmeras amizades. Soube relatá-las, sem dar-lhes o tom banal que encontramos em outros colegas de profissão; soube apreciá-las, com ternura; soube valorizá-las, dada à importância que lhes deu ao longo dos anos; soube tratá-las com um toque de magia humana, envolvendo respeito e carinho, quando é constrangido a focar alguma particularidade, sem invadir a intimidade, sem irônia, mas com respeito humano.

Por isso, enfatiza, “nunca aprendi a condenar e sobretudo a falar como dono da verdade. Tendo visto tantas coisas, parece-me nada tê-lo visto, e minha sede de descoberta permanece inesgotável.”

Esse é o compositor dos belos poemas musicados, como “La bohème”, “Les deux guitarres”, “Il faut savoir”, “Le droit des femmes“, “Tout s’en va”, “Ave Maria”, “Les plaisirs demodés”, “La yiddische maman” e tantos outros, que vivem no inconsciente coletivo e na memória de todos quantos o admiram.

Ele conclui o livro com uma interrogação bem parisiense: “ À suivre?...”. Os milhões de todo o mundo, que o admiram, esperam a sequência.

Bem, de nós, advogados, com um enternecedor conhecimento do árduo exercício profissional, versejou, e cantou, com palavras respeitosas, numa poesia, depois musicada, da qual ressalto:

Nos avocats

“Mais bonne ou mauvais cause

Malgré quelques excès

Ils seront les virtuoses

De notre procès

Avec plus ou moins de chance

La loi c’est la loi

Quelles qu’en soient les conséquences

Et quoi qu’on en dise ou pense

Il nous faut faire confiance

A nos avocats”.

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Nota discográfica:

1 Música e letra no CD “Charles Aznavour 2000”, gravado e distribuído no mesmo ano, por Emi Music France.
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*Jayme Vita Roso é advogado e fundador do site Auditoria Jurídica.

Jayme Vita Roso