Domingo, 19 de maio de 2019

ISSN 1983-392X

A medicalização da vida

J.C. Ismael

O circo midiático e político montado em torno da agonia da americana Terri Schiavo tem pelo menos a virtude de trazer à discussão o sempre polêmico assunto que é a medicalização da vida, --expressão que, quando começou a circular nos meios acadêmicos, em meados de 1960, pretendia discutir apenas a qualidade e a quantidade dos medicamentos ministrados a doentes em estágio terminal ou não.

sexta-feira, 6 de maio de 2005

A medicalização da vida


J.C. Ismael*

O circo midiático e político montado em torno da agonia da americana Terri Schiavo tem pelo menos a virtude de trazer à discussão o sempre polêmico assunto que é a medicalização da vida, - expressão que, quando começou a circular nos meios acadêmicos, em meados de 1960, pretendia discutir apenas a qualidade e a quantidade dos medicamentos ministrados a doentes em estágio terminal ou não.

Posteriormente, com o avanço dos recursos tecnológicos, "medicalizar" a vida de pacientes desenganados, prolongando-a por meses ou anos, passou a ser um dos questionamentos principais da então emergente bioética. Estamos ainda longe de um consenso a que provavelmente não se chegará, tamanha a complexidade do assunto. Os defensores da manutenção a qualquer custo da vida biológica brandem argumentos para lá de dogmáticos, enquanto seus opositores estão mais próximos da razão e do bom-senso. A seguir, o leitor poderá avaliar a opinião de alguns deles, expostas no meu livro "O Médico e o Paciente-Breve História de uma Relação Delicada", cuja 2ª edição sairá neste semestre pela Editora Ágora, que a seguir transcrevo.

Refletindo sobre a condição do doente que permanece longo tempo sob cuidados hospitalares e médicos, sem que na maioria das vezes haja esperança de cura, Friedrich Nietzsche, com o niilismo habitual, não usa meias palavras: propõe que seja sumariamente eliminado porque se tornou “um parasita da sociedade”, devendo portanto receber dela profunda repulsa por prosseguir vegetando, em vez de morrer de maneira orgulhosa, - pois tendo se dissipados a auto-estima e o orgulho de estar vivo, uma morte em “condições desprezíveis” o espera. Pregando a defesa do que chama de “morte livre”, critica ferozmente as tentativas de manter o doente com vida, sem lhe dar o direito de abandoná-la quando seu fardo se torna insuportável e lhe faltar a coragem para se suicidar, - decisão que, para o vulcânico filósofo alemão, é a coisa mais digna a fazer. Seu radicalismo teve pelo menos o mérito de antecipar as modernas discussões sobre que parâmetros devem ser usados para se afirmar até que ponto pode ser considerado “vivo” o doente com as funções vitais mantidas à custa de aparelhos. Mais sereno e ponderado, o médico canadense William Osler, para quem “a medicina é a ciência da incerteza e a arte da probabilidade”, fez uma cruzada memorável contra a prescrição indiscriminada, que de exames e medicamentos. Ao combater tenazmente as posturas dogmáticas dos colegas para os quais a importância do paciente como pessoa era uma postura romântica e nada científica da medicina, propôs um modelo de relação médico/paciente baseado no respeito mútuo, mas também na necessidade de o médico ser treinado para não ser um mero subscritor de receitas como se isso fosse a única razão de ser da sua profissão, aprendida segundo ele, mais na cabeceira do doente do que na escola.

No terreno da ficção, a medicalização da vida ganhou uma dimensão insuperável no oceânico romance de Marcel Proust, Em busca do tempo perdido. Neste contexto é também digno de registro um dos maiores romances de idéias do século 20, A montanha mágica, de Thomas Mann, no qual a doença (metáfora de um mundo agonizante), com seus longos e sofridos tratamentos, costura a história dos atormentados personagens. Porém, é na narrativa de Proust, filho de um eminente médico parisiense, que vida, ou melhor, existência, e doença são conceitos inseparáveis, como que se legitimando e se rejeitando mutuamente. Castigado por severas crises de asma desde os nove anos de idade, Proust concebeu sua magistral epopéia intimista como um verdadeiro tratado crítico e ao mesmo tempo irônico sobre as limitações da medicina e os seus diagnósticos contraditórios, mas principalmente na busca de cura mediante medicamentos e tratamentos quase sempre condenados ao fracasso. Na verdade, Proust, o narrador em briga constante com sua persona, desconfia tanto da cura do corpo, - como da alma de uma Paris alienada e fútil, com a qual manteve uma tortuosa relação de paixão e desprezo.

Mas é com esse gigante da reflexão sobre a natureza humana, o pensador vienense Ivan Illich, morto em 2002 com 76 anos de idade, que a medicalização da vida registra provavelmente as mais instigantes reflexões. Radicado nos Estados Unidos desde 1951, foi um crítico feroz dos excessos praticados pelos médicos na tentativa de manter a vida a qualquer custo, chegando a fazer a polêmica afirmação que a medicina, mais do que a doença, pode ser a verdadeira ameaça à vida dos pacientes. É famosa também a sua acusação de que o médico se preocupa mais em auscultar o paciente do que em escutá-lo, apagando com isso a face humana da medicina. Illich foi um dos primeiros cientistas a alertar para os perigos da perseguição obsessiva pela saúde física, tão inútil como as panacéias aplicadas para a cura de doentes terminais. Para ele, o conceito “saúde perfeita” passou, principalmente nos grande centros, onde o aparato tecnológico é mais sofisticado, a ser considerado a metáfora suprema das aspirações humanas e, para supostamente mantê-la, as pessoas são estimuladas por uma propaganda perversa a se submeterem a tratamentos caros e inócuos. Porém, o realista Illich sabia que as suas críticas aos excessos da medicalização e aos limites da medicina cairiam no vazio porque a obrigação, justificada por uma ética discutível, de manter biologicamente vivo um organismo devastado irreversivelmente pela doença está arraigada em conceitos culturais e religiosos que dificilmente serão derrotados pelo pensamento liberal, sensível aos sofrimentos do paciente e dos seus familiares.
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* A
dvogado, jornalista e escritor






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