Terça-feira, 26 de março de 2019

ISSN 1983-392X

Contributo para cogitar o relacionamento familiar na tradição judaica

Jayme Vita Roso

Contextualmente, estou, como estarei, dentro da temática "Ética e Família". Há uma relação de subjetividade entre o título deste ensaio e a colocação da idéia de democracia na visão dos jovens israelenses? Entendo que, ou a relação pode ser gramatical (copulativa, em virtude da proposta), ou, quiçá, não será restrita pelo próprio tema, como subsequentes/conseqüentes, à abertura de uma reflexão com maior profundidade.

terça-feira, 3 de maio de 2005


Contributo para cogitar o relacionamento familiar na tradição judaica


Jayme Vita Roso*

"Do we today have an available bioethics? Yes, we do, a bad one: what the Germans call Bindenstrich-Ethik, or 'hyphen-ethics', where what gets lost in the hyphenation is ethics as such. The problem is not that a universal ethics is being dissolved into a multitude of specialized ones (bioethics, business ethics, medical ethics and so on) but that particular scientific break-throughs are immediately set against humanist 'values', leading to complaints that biogenetics, for example, threatens our sense of dignity and autonomy"¹.

I - Premissa para um diálogo, à moda socrática

Contextualmente, estou, como estarei, dentro da temática "Ética e Família". Há uma relação de subjetividade entre o título deste ensaio e a colocação da idéia de democracia na visão dos jovens israelenses? Entendo que, ou a relação pode ser gramatical (copulativa, em virtude da proposta), ou, quiçá, não será restrita pelo próprio tema, como subsequentes/conseqüentes, à abertura de uma reflexão com maior profundidade.

Em sede reflexiva, há uma grande preocupação escatológica entre as duas propostas, quando, com respeito aos títulos, o primeiro liga-se, inicialmente, pela conjunção copulativa e, o segundo, por uma preposição, que, na língua latina, equivale à função do genitivo, com significado restritivo.

A escatologia, a meu ver, verga-se à própria idéia teológica, no sentido do destino último do homem (morte, ressurreição e juízo final) e do mundo (estado futuro), daí, pulsando, na família, as constantes ameaças que pesam sobre o processo de transmissão e de continuidade da própria tradição, quando surgem questionamentos por razões éticas, frente ao poder que é exercido por alguém, em o núcleo.

Pretendo esboçar, por ora, na Lei Antiga, uma reflexão na linha das famílias bíblicas, que se entrecombatem e fazem a paz. Nelas afloram sentimentos que se traduzem comumente em atos dos integrantes das famílias, seja por alguns corretos, seja por comportamentos nocivos. E, deles, tentar uma aproximação com as famílias brasileiras, na vida contemporânea, extraindo, afinal, da fenomenologia, algum valor.

II - A família na Torá

Na Lei Judaica, há um círculo virtuoso que se entrelaça, historicamente, abordando a família, ao mesmo tempo e, concentricamente, em que ela passa a ser a arena onde se processam os combates espirituais, aflorando os estereótipos corretos em cotejo com o confronto dos atos criticáveis.

Como então era mantida a coesão familiar?

a) Por seu destino com forte conteúdo histórico, no chamado e na migração de Abraão (Lech Lechá), quando "Deus apareceu a Abraão e disse: 'Eu darei esta terra a teus descendentes' " (Gn 12,7) e, também, quando "Deus apareceu-lhe (a Isaac) e disse: 'Não desças ao Egito. Permanece tranqüilo na terra que Eu te designei. Permanece um imigrante nessa terra. Eu estarei contigo e te abençoarei, uma vez que será para ti e tua semente que darei todas estas terras. Eu assim manterei o juramento que fiz ao teu pai Abraão. Farei teus descendentes tão numerosos quanto as estrelas do céu, e a eles concederei todas as terras. Todas as nações da terra serão abençoadas através de seus descendentes. Tudo isso é porque Abraão obedeceu a Minha voz e guardou a Minha ordem, Meus mandamentos, Meus decretos e Minhas leis"(Gn 26;2-5).

b) Como sobredito a Isaac, a coesão familiar se operaria, também, por valores específicos transmitidos de geração em geração, porque, em linha sucessória, primeiramente, Abraão obedecera a voz, a ordem, os mandamentos, os decretos e as leis ditadas por Deus.

No hebraico antigo, etimologicamente, a família (het av = casa do pai) ou as idéias de família em casa eram ligadas, sendo quase conseqüentes, entre si. Assim, no Gênesis (24,38): "Ao invés, tu deves ir à casa do meu pai, à minha família, e lá tu obterás mulher para meu filho",e, também, no Gênesis (46,31): “A seus irmãos e à família de seu pai, José disse: 'Eu irei e falarei ao Faraó. Eu lhe direi o seguinte: 'Meus irmãos e a família de meu pai vieram para mim de Canaã’", encontram-se as referências que os étimos traduziam.

No plano material, a constituição de uma família se assemelhava a "construir uma casa", à constituição de um clã, tanto que, por tradição, os critérios rígidos para pertencer a uma família somente poderiam ter origem sangüínea por laços estreitos, ou, ainda, por laços conjugais decorrentes do casamento (os legais) ou, ainda mais, pela proximidade geográfica.

A idéia de construir, simbolicamente, é a de erguer alguma coisa. Erguer uma casa (com paredes) é fazer algo sólido, para durar. Mas, há uma idéia mais profunda de levantar a casa para o alto, cuja simbologia é mais densa que a da construção de um altar (Ex 17,15 e 30,1), mesmo quanto à forma de sua construção (Jo 22,28). A casa (residência) é o fundamento da construção da (casa) família.

Essa, a família que teria de se representar, no seio da sociedade. Então, o escolhido como chefe da família era o patriarca, que exercia sua autoridade sobre a mulher e os filhos (assim, as expressas referências aos patriarcas em Ex 2,24; 3,6; 4,5 e 6,3; Tb 6,20 e Sb 9, como exemplos significativos). Não obstante representar estado (= status) diferenciado do marido, a esposa ocupava posição destacada na família, inclusive, participando das festas religiosas e, também, podendo vender os bens que lhe pertenciam, tendo lugar de honra na sua família.

Isso acontece, também, quando se leva em conta que a mulher, com seu devotado amor aos filhos (Gn 25,28), é, desde logo, encarregada de sua educação básica e inicial (Pr 1,8).

Sendo a maternidade uma benção e a infertilidade uma infelicidade (Gn 30,31), os filhos decorrentes do matrimônio passaram a ser uma benção divina (Gn 22,17). Quanto a eles, devem "honrar" (Ex 20,12) e "reverenciar" seus pais, e esse último verbo significa obedecê-los. Quanto a honrar os pais, trata-se de obrigação dar-lhes comida, bebida, vestimentas e meios de locomoção; ainda, não os interromper quando falam, e, muito menos, tomar partido quando discutirem: são reverências. Honrar, tomando o sentido mosaico, é servir, preservar a dignidade.

Ao longo dos séculos, sobretudo após a Shoah, esses preceitos mandamentais, que se reportam à Lei Mosaica - ao decálogo - foram sendo decantados e aprimorados, particularizando no Talmud. Por isso, são os filhos considerados como a seqüência histórica dos pais, e estes, até com exagero, participam de suas dores e de suas alegrias, de seus desafios e de seus êxitos/derrotas. Sobre eles é depositada a esperança, palavra simbólica, tantas e tantas vezes repetidas na Torá, de modo particular, porque ela é ligada ao "ato de se pôr esperança em Deus", no sentido de "esperar" que retorne, como Messias (Jó 11,18; Sl 4,6; 24,5; 32,18; 30,7; 39,2; 39,5; 54,24; 61,6; 64,6; 70,5; 77,7; 129,5; 130,5; 144,5 e 145,5; Jr 14,22 e Dn 13,60).

Como o mundo não parou, o ideal foi sempre buscado na família judia da Antigüidade, sobretudo com a procura incessante da harmonia doméstica. Ela pode ser conseguida, ou tentada, melhor dizendo, através de concessões mútuas entre seus membros, refletidas nos atos litúrgicos e nos seus rituais.

III - A família judaica no Brasil contemporâneo

O fenômeno que ocorre na maioria dos países ocidentais, como não poderia deixar de ser, também inflige sérios danos à estrutura familiar judaica no Brasil, de forma geral, havendo casos particulares, todavia. Dentre os fatores que me parecem aflorar com maior intensidade, para a perda do prumo tradicional, são: a) baixa taxa de fecundidade, à exceção dos ortodoxos; b) freqüentes divórcios; c) casamentos interconfessionais; d) homossexualidade; e) alcoolismo; f) tóxicos; g) indiferença social; h) perda da prática religiosa; i) ausência do lar e j) trabalho das mulheres.

IV - Questionando ética e família, para uma ética da família ou "o marido é o chefe, se a mulher o permitir"

Se pretendermos colocar em debate a singularidade das palavras propostas no tema, correlacionando-as com a cópula, poderemos ter uma conclusão por inferência: a "casa judia" é o local onde há o fator essencial para sustentar a perenidade do judaísmo, pois só ela, se bem constituída, preserva um modo de viver judaico: o justo só pode viver a Lei, isto é, se tiver fé, se tiver a formação e a vida para tanto, na casa ou no lar. É lá, que pode descobrir os preceitos (Mitzvoth) e como praticá-los. Jean-Marie Lustiger, cardeal francês, de raízes judaicas, refletindo sobre a subida de Jesus a Jerusalém - aqui como foco - disse: "En d'autres termes, ce n'est pas l'amour humain qui éclaire le mystère de Dieu qui permet de comprendre quelque chose de l'amour humain et qui donne sa vraie vocation à Israël pour sa conduite humaine"².

Da Torá ao Talmud, há a consolidação dos laços que unem a família, inteirando homem e mulher na permanente edificação do lar, voltado à adoração de Deus. Ainda que hoje os costumes tenham mudado, as tradições continuam a ser mantidas mais ainda dentro das linhas ortodoxas, de estrita observância, sobretudo quanto à chamada "pureza da família" (em hebraico, taharat ha-michpahah). É o que focaliza, em tese, com a acuidade que sempre o distinguiu, Levinas: "Mais ni l'assurance de la piété juive ni les ‘certitudes’ de la ‘science du judaïsme’, - Wissenschaft des Judentums - ne guident les ‘lectures talmudiques’ qui sont proposées ici. Nous sommes moins impatients que les historiens et les philologues de dé-construire le paysage traditionnel du texte qui, pendant plus d'un millénaire, abritait l'âme du judaïsme dispersé et un. Malgré la variété de très anciennes époques où se constituaient le sol et le relief de ce paysage et où se dessinaient ses horizons, il fut, déjà invariable, investi par une spiritualité qui trouvait dans ses formes son expression, ses archétypes intellectuels et moraux et les reflets de sa lumière. La merveille d'une confluence et la puissance du courant qui en sort vaut la merveille d'une source unique qu'on conteste"³.

De outro lado, se, na família judaica, a regra é a repartição do exercício do poder, entre marido e mulher, a exteriorização desse poder, na sociedade, tem levado os homens a se mostrarem menos aderentes à desmistificação: como respeitar os direitos da mulher, em uma sociedade que se seculariza? Por que distinguir áreas em que as mulheres historicamente e, quase, universalmente, não tiveram os mesmos direitos dos homens?4

V - "Quand le batîment va, tout s'en va”

Na composição da família contemporânea, a meu ver, não se aplica a sinédoque de um membro representar a totalidade. A predominância do egoísmo contempla a individualidade. Quase que seria a perda da sabedoria o equivalente à perda do respeito: haveria uma intencionalidade original, não teórica, dessa vida da consciência? Temos consciência disso? Creio que esse saber da consciência pré-reflexiva de si mesmo saberia manifestar-se, a teor do que propõe Levinas5. Assim agindo, un être-au-monde, com vínculo à família, ele seria.

Ora, simbolicamente, adotando o provérbio em iluminura, a casa (= família) não subsiste quando há falta, ou insuficiência, ou deficiência nos seus alicerces. E, ainda, simbolicamente, torna-se, a meu ver, anódina qualquer discussão sobre a funcionalidade materna e paterna in concreto, quando se perde o fundamento da casa (= família): mútuo respeito, como reflexo de um amor autêntico (participativo + atuante + presente + prudente + transigente + sincero + leal).

A visão escatológica do Gólgota, antecedida no Salmo 21, deve ser entendida com Deus, ostentando que "tu és meu filho bem amado" (Mc 1,11 e Lc 3,22 e 9,35). Não há perda de amor, nem menor exercício de poder (= autoridade) naquele ato de desabafo, de complexidade frente à morte salvítica, muito menos de (des) esperança, porque, como escreveu João (6,40) "esta é a vontade de meu Pai ".

A casa, com fundamento sólido, é um mistério que (re) nova, em cada uma, pois seus membros, quando unidos, materializam o grande mistério do amor, encontrando na Lei a fonte da vida (material + espiritual + psíquica): Shema Israel (Dt 6,4). Mas, a precariedade da condição humana, entendida parelha à construção da casa, a formação do lar e a edificação da vida autêntica comum, que se espalha concentricamente para formar o Estado, não é feita sem sacrifício, ou sem o escândalo da infidelidade. A partir daí e, a meu ver, só a partir daí, frente à casa (= família), a ética (conjunto de atitudes sérias e coerentes para o bem comum da família) tem a valência de afastar o estigma do sofrimento do povo judeu dos crimes que lhes foram cometidos. Não há confronto entre casa (= família) ou família (= casa) com a ética. Há uma relação de dependência, por força da Torá.

O mistério é dissipado, quando se entende, como diz Lustiger, "il s'agit de crimes directement liés à l'élection et, donc, à la condition juive. Il faut aller jusque là dans la compréhension de ces événements"6. E, então, identificando os crimes, eles se ligam à condição judaica, que só é judaica se a família for constituída dentro dos preceitos e eles perdurarem, com todas as vicissitudes da condição humana.

Rompido o véu, a família unicamente se autodeterminará, se a aceitar a Lei ou praticar a ética dela, que se exige na observância e nas leis naturais. Concluo com a frase que, há muitos anos, li e me impressionou, em cartazes espalhados no metrô de Paris: "Au delà de cette limite, votre ticket n'est plus valable". Há o significado simbólico da ética ser prevalente à própria constituição da família, desde quando (con)celebrada no matrimônio, no plano existencial, se desenrolarem as observâncias e, delas, todos os atos que se fundam no amor temporal como reflexivo do amor (= adoração) a Deus.

Notas bibliográficas

1ZIZEK, Slavoj. Bring me my philips mental jacket: Slavoj Zizek welcomes the prospect of biogenetic interventions. London Review of Books, Londres, maio.2003. v. 25, n. 10, p. 3.

2LUSTIGER, Cardinal Jean-Marie. La promesse. Paris: Le Grand Livre du Mois - Parole et Silence, 2002, p. 18.

3LEVINAS, Emmanuel. Du sacré au saint: cinq nouvelles lectures talmudiques. Paris: Les Éditions de Minuit, 1977, pp.8-9.

4ELON, Menachem. AUERBACH, Bernard. CHAZIN, Daniel D. et al. Jewish Law (Mishpat Ivri): cases and materials. Nova York: Mathew Bender & Co., Inc., 1999, cap.24, pp.493-521.

5LEVINAS, Emmanuel. Éthique comme philosophie première. Paris: Éditions Payot & Rivages, 1998, p. 85.

6LUSTIGER, Cardinal Jean-Marie. La promesse. Paris: Le Grand Livre du Mois - Parole et Silence, 2002, p. 72.

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* Advogado do escritório Jayme Vita Roso Advogados e Consultores Jurídicos



















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