Sexta-feira, 23 de agosto de 2019

ISSN 1983-392X

A propósito de biografias, autobiografias e memórias: seu valor cultural, sobretudo, para o jovem

Jayme Vita Roso

Objeto da minha preocupação, da minha ansiedade, da minha freqüente insônia tem sido como impulsionar à vida o jovem advogado, no contexto deste mundo em que, prevalecendo o capitalismo, onde o econômico ressalta e antepara o financeiro, onde ter é melhor que ser, onde a mediatização inferniza os costumes, quebrando paradigmas eternos e horizontalizando-os, e ele, que tanto se esforçou para conseguir o sonhado diploma universitário, se vê diante de um quadro desolador.

terça-feira, 17 de maio de 2005


A propósito de biografias, autobiografias e memórias: seu valor cultural, sobretudo, para o jovem advogado

Jayme Vita Roso*


Primeira Parte


Objeto da minha preocupação, da minha ansiedade, da minha freqüente insônia tem sido como impulsionar à vida o jovem advogado, no contexto deste mundo em que, prevalecendo o capitalismo, onde o econômico ressalta e antepara o financeiro, onde ter é melhor que ser, onde a mediatização inferniza os costumes, quebrando paradigmas eternos e horizontalizando-os, e ele, que tanto se esforçou para conseguir o sonhado diploma universitário, se vê diante de um quadro desolador. Este é um tempo, que vivemos, de glorificação e exaltação de caprichos, já inexistente e sepultado o sentimento de culpa, nesse mercado que espelha o subconsciente coletivo da felicidade, onde se encontra o que se busca, “porque todo es valioso con tal de que te apetezca1.

Recordei-me que, no passado, incentivavam-se os jovens a mirar em exemplos de personagens vivos, ou não, como busca de modelos para a automodelagem. Dentro dos limites da condição humana, sempre a mesma desde a transgressão de Adão, alguma coisa era conseguida, embora, repetindo sem cessar, o mundo sem a mediatização tecnológica, et pour cause, transformadora e perturbadora, era diferente, por viver insulado em regiões, agora globalizado. Isso se refletia nas pessoas, que valorizavam as poucas coisas em sua posse, em contrário de hoje, onde o mais é pouco e o pouco é infinitamente maior do que os homens de minha geração detinham.

Não é por outro motivo que Martin Gray, egresso de Auschwitz, traça o caminho da Cólera de Caim contra Abel, metaforizando-a, como um vento de ódio, mas apela à fraternidade e insiste na esperança2.

Fiquemos de olhos abertos, num mundo em contramão, porque a missão sagrada que é confiada aos advogados pela vocação, no juramento prestado, deve ser perseguida com tenacidade, para nos dar a verdadeira alegria de viver, vivendo, malgrado o que nos circunda.

Que é a biografia? Por que se escrevem biografias? A quem se destinam?

Os migalheiros já se aperceberam que sou incapaz de entrar numa investigação sem procurar entender o que as palavras-chave do trabalho significam, dentro e foram do escopo desse lavor. E, não é de menos, neste pretensioso ensaio, abertura da quiçá longa e exagerada resenha que, Dio volendo, farei de uma obra monumental publicada, no fim do ano passado, na Espanha, com o título “Juristas Universales”, adiante realçada.

Mas, retomando, biografia, substantivo feminino, em português, origina-se do vocábulo grego já da época mais próxima da ascensão de Roma, sendo bio=vida e graphia=escrita, ou grafia mesmo, no sentido arcaico. Genericamente, biografia é uma narrativa da vida de uma pessoa, quanto menos ou quanto mais de pessoa ilustre, e a obra, uma própria narrativa ou a narrativa ela mesma, como usualmente se emprega, escrever, publicar a biografia de qualquer pessoa.

Oriundo o gênero literário do mundo grego-helenístico, primeiramente, e, tempos adiante, do romano, desde a origem tem tido o mesmo sentido hodierno, ou, explicando, verdadeira prestação de contas dos fatos relacionados à vida de um personagem ilustre (política, cultura, armas etc.), análise e interpretação das suas atividades existenciais.

Interessante notar que, segundo historiadores da literatura, retroagindo ao século V a.C., para apontar que, naquela época, a visão dos escritores da “história” se concentra num único indivíduo, ou no indivíduo enquanto tal, a partir de então começa a difundir-se o gosto pela pesquisa erudita e começa a se desenvolver um modelo e a indicar este que ele é ou se relaciona com um personagem famoso, para imitá-lo. Na filosofia clássica (Platão e Aristóteles) o vocábulo vida, no original, equivale ao estilo, à maneira, à conduta de viver. Essa relevante mudança favorece a interpretação do gênero biográfico como afirmação de um gênero literário autônomo.

Passando os anos e despolarizado o centro do mundo de então para Roma e para, subsequentemente, ao Império, com grande extensão territorial, com o fundamento subjacente da moralidade ostentada pelos “viri illustres” (homens ilustres), com a face de beneméritos da Pátria e do Estado, o gênero biográfico se expande. Da época, recordem-se as obras de Varro e Cornélio, mas os mais importantes foram os trabalhos de Tácito (“Vida de Agrícola”) e Suetônio (“Vidas dos Doze Césares”), além da de Plutarco (“Vidas Paralelas”) considerada a obra biográfica difundida e aceita como modelo de vida dos personagens nela estampados.

Advindo o Cristianismo, a vida dos santos foi o tema central das obras biográficas, sobretudo escritas com finalidade apologética (palavra originária do grego, que passou ao latim eclesiástico, com o sentido de discurso para defender ou elogiar, ou encômio, louvor, enquanto substantivo feminino apologia): para santos, mártires e personagens que marcaram suas vidas para difusão da cultura do Cristianismo nascente.

Ainda dessa época, no predomínio romano, recomendam-se os “Comentários” de Júlio César; a sátira de Horacio, Marcial e Juvenal e a lírica de Catulo e, sobretudo, Ovídio, que emolduraram a literatura dos clássicos.

Já no século IV d.C., surge um livro memorável, até hoje lido, relido, discutido, comentado e interpretado: “Confissões de Santo Agostinho”. É uma obra que se pode considerar o marco ou baliza inicial, na literatura ocidental, ao sempre tormentoso gênero da busca e aprofundamento interior, na tentativa do encontro consigo mesmo. Mesmo os que não professam a fé cristã, ao longo de 16 séculos, não ficaram ao largo desse livro, pela riqueza dos pensamentos, pelas atitudes do autor perante a vida, a família, a sociedade, ao Estado. Por mais que se discuta Santo Agostinho, nunca será suficiente para colocar na tela a grandeza de seu pensamento.

Também os Islâmicos adotam o gênero biográfico, para fins religiosos, para edificar os crentes, para mantê-los na fé, para afastá-los dos perigos do mundo material e das suas tentações.

Sobrevindo a Idade Média, a partir do século X, no Ocidente, ensaiava-se, com as biografias, a primeira peça do grande Humanismo, que surgiria tempos e séculos posteriores.

Desde a “Vida de Dante”, de lavra de Boccaccio, as biografias foram sendo conduzidas e escritas, com a esterilização dos defeitos humanos, para ressaltarem ou ressairem, construindo, o conceito medieval de virtude (com apoio na teologia e na filosofia cristã) em oposição à fortuna, antitéticos e conflitantes.

Do Renascimento clássico ao barroco, há um novo interesse dos pensadores, sempre inquietos, porque a evolução das ciências, sobretudo a Física e a Astronomia, como as descobertas, levavam também os escritores a reinventarem as biografias, no sentido de lhes dar características inéditas, voltadas ao homem enquanto membro da sociedade, com lances psicológicos inéditos como nas celebérrimas obras de Rousseau (“Confessions”) e de Boswell (“Life of Dr. Johnson”); nas de Cellini, Gucciardini, Saint Simon, Casanova e Goldoni.

Na Alemanha, a biografia passa a assumir o caráter locativo, ou seja, o homem in situ, ou o homem na sua posição social, na sua época histórica. Como surgiam os romances, ainda voltados, no seu alvor, aos épicos medievais, mormente na Inglaterra, o gênero biográfico começou a fazer obras biográficas, dentro dos limites históricos e romanceados.

No Brasil, há um caudal de autobiografias, poucas biografias, nos séculos XVIII, XIX e XX. Daquelas, pela beleza, pelo estilo, pela profundidade humana, a de Joaquim Nabuco (“Minha Formação”), Humberto de Campos (“Memórias”) e Confiteor (“Paulo Setúbal”).

Sobre eles, na continuação, voltarei, quando versar os temas das autobiografias e o das memórias como subgêneros literários das próprias biografias. Antecipo que trarei as memórias de dois advogados (sim, advogados mesmo) norte-americanos e dois juristas, professores e advogados brasileiros.
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1ROJAS, Enrique. Las lenguajes del deseo: Llaves para orientarse en el laberinto de las pasiones. Madri: Ediciones Temas de Hoy, 2004. p. 85.
2
GRAY, Martin. Au nom de tous les hommes: Caïn et Abel. Paris: Éditions du Rocher par Le Grand Livre du Mois, 2004.
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* Advogado do escritório Jayme Vita Roso Advogados e Consultores Jurídicos



















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