Sexta-feira, 22 de novembro de 2019

ISSN 1983-392X

Inocências

Edson Vidigal

Quando não se tem nada a dizer, manda a regra, o melhor a fazer é calar-se. Não dizer nada.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011


Inocências

Edson Vidigal*

Quando não se tem nada a dizer, manda a regra, o melhor a fazer é calar-se. Não dizer nada.

E se entregar na contemplação das coisas até onde as lentes dos olhos silenciosamente possam alcançar, resolve?

Ora, se o mundo desaba em tempestades de verbos, e desaba, derramando acusações e atirando culpas e você protestando inocência, eu não sei de nada, eu sou até inocente e ainda assim as afrontas paradas no ar, os inquisidores em gritos mudos, os dedos em riste parados no ar, tudo assim agressivo quanto invisíveis, convém não se deixar acuar.

Quando você mal desperta e vê as coisas assim e assim como se fossem assar-lhe, o melhor a fazer é meditar, meditar, não se deixando acuar, porque talvez você precise agora de muita serenidade para olhar um pouco mais para dentro de si, até onde as lentes dos olhos da sua consciência livre, intimoratos, possam alcançar.

É bem possível que lhe tenha chegado a hora de dar um passeio lento no seu passado, lembrando-se daqueles quantos que nós conhecemos na estrada e que se atrasando na marcha foram ficando, ficando.

Uns não chegaram porque gastaram os seus sonhos todos de uma só vez, querendo tudo o quanto antes ao mesmo tempo com aquela fome de antes de ontem. Outros, por despreparo para as próximas horas, por incompetência até para sonhar.

No coletivo, não adianta nada querer conciliar as ações sem conciliar os sonhos. Todos, mas todos mesmo, tem o seu direito a sonhar.

E se estamos no coletivo, melhor ainda. Um sonha atrelado ao sonho de todos e todos sonham atrelados ao sonho de um. Isso é como apertar ao peito hipotético a humanidade maior de Cristo.

Mas agora, depois de sobrevoar esse estado de coisas e voltar com os pés no chão, as mãos cheias de indignação, a ver com os próprios olhos isso tudo que só dá motivo a não querer mais essas violências à civilidade e essas agressões à inteligência, agora não dá mesmo para protestar inocências.

Temos responsabilidade, sim, com o olhar triste das crianças famintas e sem infância dos nossos milhões de desempregados, com esse alheamento com que são tratados os nossos milhões de analfabetos.

Não podemos ficar indiferentes ante as centenas de milhares de moçoilas das beiras de estradas e dos lugarejos distantes engravidadas de mais bocas futuras predestinadas à fome ou à subnutrição e de olhares que irão se abrir às carências de direitos e de futuros.

Será sempre nossa a culpa por esse atraso de décadas em que vegeta a maioria da nossa gente, sem água tratada para beber, sem teto seguro para morar, sem esgotos, sem saúde pública, sem escolas de qualidade, os ratos em festas nos lixos das ruas. O patrimônio e a vida de cada um à mercê do previsível assalto.

Purgaremos penas noturnas infindáveis a nos doerem na consciência se, catando e incinerando um a um os nossos erros, não assumirmos a humildade com que devemos, de novo, nos reunir, respeitando a capacidade de um cada para a trincheira certa, agirmos coletivamente, e aí sim, confiantes na vitória coletiva.

É utopia? Não. É sonhar com o possível.

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*Ex-Presidente do STJ e Professor de Direito na UFMA

 


 

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