Terça-feira, 22 de outubro de 2019

ISSN 1983-392X

O francês parisiense

José Geraldo da Fonseca

Em tom de humor, a crônica relata o embaraço e o desembaraço de um estudante de Direito que não entendia nada na língua de Victor Hugo.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

José Geraldo da Fonseca

O francês parisiense

Eu fazia mestrado em Processo Civil na PUC de São Paulo e um certo professor, cujo nome não revelo para evitar problemas com a lei, trouxe pra palestrar na USP nada menos que o Prof. Jean Claude-Javier, uma espécie de Gisele Bündchen da época, só que um pouco mais de bunda. Metido, o professor foi logo avisando:

― Muito que bem! Suponho que todos os senhores doutores falem e escrevam fluentemente francês. O Professor Javier é parisiense, fala um francês de grande erudição e absoluta inteligibilidade. Não haverá tradução.

Puts!

Até hoje eu gostaria de saber o que foi que esse tal de Javier falou naquelas duas horas e quarenta de um sábado calorento nas Arcadas da famosíssima Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Na minha frente, tinha uma judia magricela que parece ter entendido absolutamente tudo o que o sujeito falava. Assentia com a cabeça, parava, fazia anotações. E eu ali, logo na primeira fila, sem entender uma vírgula de francês, arrependidíssimo de ter chegado cedo demais e de ter sido posto exatamente na bendita primeira fila porque o babaca do bedel disse que a preleção seria concorridíssima e era melhor ir me acomodando. Segui o exemplo da magrela. Quando o professor Javier dava uma ênfase na fala, eu assentia exageradamente com a cabeça, como se tivesse entendido tudo, e concordado com absolutamente quase tudo. Me virava de lado, na direção da magricela, fitava a judia nos olhos, com ares de "viu só, que profundidade?". Ela concordava comigo, assentindo com a cabeça e sorrindo, como quem diz, "Pois não é?". Uma completa interação mímica.

Pasmem, senhores! E em "francês parisiense!"

Vendo aquela perfeita simbiose nossa, o professor se entusiasmava, levantava a voz, parava, tomava água, enxugava a testa, afrouxava uma gravata esquisitésima que não tinha nada a ver com um paletó todo ferrado e fora de moda. Teve uma hora em que ele desplugou o microfone e ficou em pé.

Foi a glória!

Aí mesmo é que eu não entendi merda nenhuma!

A judia magricela, não! Quase teve um orgasmo. Pensando melhor, teve! Ao final, encheu o sujeito de perguntas.

Tudo em francês. Parisiense, claro.

Eu saí de fininho, amuado, em claro sinal de desaprovação do teor da palestra e do conteúdo das impressões pessoais do ilustre Professor. Na saída, um sujeitinho gordinho, de gravatinha borboleta, terno risca-de-gis preto, tecido irlandês, suponho, pela finura da aparência e pela elegância do talho, e que eu nunca tinha visto na vida, aparteou-me educadamente, puxando prosa:

Data venia, o nobre colega não vai ficar para o debate?

Eu, naquela época, atendia ao balcão da 1ª Junta de Conciliação e Julgamento de São Paulo e não tinha grana nem pra comer. Respondi-lhe, polido como mandava a etiqueta en France:

― Não, colega, data venia, infelizmente não posso. Peccato! Tomo o voo das 19 horas para o Rio de Janeiro, onde tenho uma reunião importante com um cliente exportador de componentes eletrônicos e não posso me atrasar. Qualquer coisa, depois pego anotações com os colegas. Mas, a propósito, se o nobre colega me permite uma inconfidência, tenho de admitir: não concordo com algumas ideias do professor, que já conhecia de um seminário na Côte-d’Azur, especialmente quando ele se refere à dinâmica do direito ou à sua dessincronia em face da estigmatização da cultura, mas que os seus argumentos são, na maioria, absolutamente irrespondíveis, ah!, isso o são.

Eu nem sabia se existia esse negócio de dinâmica do direito, dessincronia ou estigmatização da cultura. Nem sei se o Javier falou algo parecido. Eu não entendo merda nenhuma de francês! Ouvi um som lá, parecido com dinamique e estigmatización e "je sui", mas bem podia ser que o sujeito estivesse se referindo a dinamite, fornicação e caqui ou a alguma coisa como uma aluna que ele comeu e ele teve a indiscrição de revelar que era uma tal de "Dominique Mignon que eu comi". Nunca soube.

Sei lá! Falei só pra tirar onda.

O cara também não deixou por menos:

― E-xac-te-ment!, caprichou no francês, assim, "parisiense", pausado em cada letra, e acho que era a única palavra em francês que aquele bosta sabia. Mas, respirou fundo e arrematou:

― Concordo inteiramente com o nobre colega!

Depois dessa palestra, perdi o gosto pelos franceses e pelo francês. Especialmente o parisiense. E abandonei o mestrado na PUC, mas aí já foi por falta de grana. "D’argent", se é que me entendem...

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* José Geraldo da Fonseca é desembargador, presidente da 2ª turma do TRT-RJ

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