Segunda-feira, 23 de setembro de 2019

ISSN 1983-392X

A queda da gravata

Alfredo Spínola de Mello Neto

Antigo aluno conta-nos como foi que ele, acadêmico nos anos 70, soube com primazia, de viva voz pelo diretor das Arcadas, que o fim a obrigatoriedade do uso da gravata seria decretado.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Para ser sincero, naqueles tempos de militância frenética, a gravata representava, para mim, um incômodo maior apenas quando tinha que ir a reuniões das quais participassem colegas de outras unidades da USP, pois era alvo natural de gozações dos alunos da Poli, das Ciências Sociais, da História, de Letras... Afinal, o ideal de todo jovem, àquela época, era trajar "uma calça jeans azul e desbotada". Mas eu entrara para a São Francisco em 1971 sabendo que a gravata seria o "uniforme" a ser usado durante os anos de Academia. Lutar contra ela fazia parte daqueles combates que imaginava integrarem o jogo de cena, pois avaliava não haver as então chamadas "condições objetivas" de derrotá-la. Uma instituição que já perdurava por quase 150 anos, como derrubá-la? A queda da gravata me parecia praticamente tão improvável quanto a Queda da Bastilha antes da Revolução Francesa. Ademais, num contexto de lutas contra a ditadura, o acordo MEC-USAID, o decreto-lei 477, que pairava potencialmente sobre cada atividade que exercia, preocupar-me em demasia com a gravata significava quase uma alienação, para utilizar o jargão da época. Seria uma aspiração relevante para uma parcela dos colegas do período da manhã que ainda não trabalhavam - tudo bem, era uma "reivindicação específica", alguma atenção tinha que ser dispensada a ela, mas não era nem de longe algo que muito me afligisse pessoal ou politicamente diante do cenário negro que tinha à frente.

Meu quase-conformismo não contava com a figura – para fazer jus à pessoa, em linguagem atual, uma figuraça! – do Prof. José Pinto Antunes, então diretor da faculdade, cujo nome, em decisão praticamente unânime dos formandos, seria dado à nossa turma de 1975. Último Barão de Lorena, esse senhor de aparência frágil e modos refinados e afáveis, cujo objetivo de vida declarado era ser diretor da Academia, a amava sobre todas as coisas e era um defensor dos estudantes em quaisquer circunstâncias, como outros colegas talvez possam relembrar nesta coletânea. Agnóstico, liberal de boa cepa, naquele velho e bom sentido voltairiano, foi ele quem reformou o pardieiro em que se transformara nosso Centro Acadêmico para entregá-lo a uma gestão de esquerda. E foi também ele quem, certa manhã, num dos intervalos de quinze minutos entre as aulas, enquanto seu carro, um Puma, dirigido pelo Ivo, seu fiel escudeiro, era estacionado naquele patiozinho traseiro que dá entrada pela Rua Riachuelo, chamou-me e me disse, com aquele indefectível sorriso que o caracterizava: "Decidi abolir a gravata, mas quero que isso seja uma conquista dos alunos. Peça ao Gouveia que me enderece ofício requerendo o fim do uso obrigatório da gravata que vou deferir ainda hoje".

Acabara de tomar um café no XI, acompanhado pela amiga e colega de turma Márcia Elizabeth Fernandes Pereira, e subíamos para a próxima aula. Nesse ano, 1972, eu ocupava a presidência da Comissão de Trote, daí ter mantido contato freqüente com o Pantu, apelido pelo qual os alunos carinhosamente nos referíamos ao Prof. Pinto Antunes. Pasmos os dois, Márcia e eu ainda trocamos mais algumas palavras com ele, enquanto Ivo acabava de estacionar o carro. Mas, lembro-me bem, ela me cutucava, pois eu, ainda sob efeito da notícia e certamente tentando obter mais alguma concessão, insistia em expor a ele uma providência que desejava tomar em relação às atividades do XI, e ela temia que ele desistisse da idéia... Logicamente a aula seguinte foi perdida, pois saímos à procura do Gouveia (Antonio de Gouveia Júnior, presidente do XI) a fim de que o ofício fosse redigido e entregue o mais rapidamente possível.

E foi assim, sem a menor "condição objetiva" para que a gravata fosse abolida, na verdade sem luta alguma nesse sentido, naquele momento, que ela, como a Bastilha, caiu: por obra da vontade do Prof. Pinto Antunes, reconhecendo e acolhendo um antigo anseio dos alunos.

Era óbvia a necessidade de faturar politicamente essa "vitória dos estudantes", já que uma tradição sesquicentenária acabara de ruir, e uma coletiva de imprensa foi convocada. Para espanto dos jornalistas presentes, eis que surge o Gouveia... trajando sua inseparável gravata, fato que foi devida e ironicamente noticiado pela revista Veja.

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* Alfredo Spínola de Mello Neto é advogado formado na Faculdade de Direito da USP, turma de 1977.

Texto publicado no livro "Arcadas: no tempo da ditadura" (Saraiva - 253p.) Organizador: Henrique d'Aragona Buzzoni

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