Domingo, 22 de setembro de 2019

ISSN 1983-392X

A mulher do alfaiate

Oswaldo Duarte

Entre tecidos finos e máquinas de costura, uma tragédia acontece na pequena alfaiataria. Confira a crônica.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Oswaldo Duarte

A mulher do alfaiate

Numa sexta-feira, chegaram obreiros que invadiram a loja do açougue, fechada há muitos anos, quebraram, consertaram, reformaram, pintaram, instalaram duas vitrines, porta de vidro por trás da de aço e, na quarta seguinte, deram o serviço como pronto. Em seguida vieram outros operários, letreiro posto na marquise "Alfaiataria Galícia" e, na porta de vidro, o artista pintou com letras douradas: "Jésus Lavanderia, alfaiate, cortes e recortes".

A loja situava-se em bairro antigo, muito próximo do centro da cidade, com muitas residências térreas, prédios coloniais e comércio variado, apoiando as atividades febris que desenvolviam-se nas empresas e escritórios logo ali perto.

A rua onde irão acontecer os fatos era dividida ao meio por rio, no sentido do comprimento, sendo o primeiro trecho ocupado por lojistas, açougue, barbearia, farmácia, vidraçaria e outras, e no trecho acima do rio somente moradias. A cena vai se desenrolar na loja do alfaiate junto ao rio.

Mais alguns dias e chegou o caminhão desembarcando móveis comerciais de alfaiataria, mesas e máquinas diversas e de residência, pois nos fundos havia lugar próprio. Junto, um sujeito se destacava, falando espanhol, sabendo-se depois, ser o alfaiate.

A azáfama de arrumação durou algum tempo e finalizada com fato curioso: o cepo do antigo açougue não foi levado junto com o entulho da obra e o espanhol mandou pô-lo na calçada, onde foi devidamente limpo e raspado e depois pintado com as cores da bandeira espanhola, em listras verticais e lá ficou enfeitando, não sem causar incômodo aos nacionalistas de plantão que, pelo menos, queriam algum toque das cores da bandeira brasileira.

Zum zum instalado, de propósito ou não, o fato é que o espanhol, logo depois de abrir a loja, oficialmente, foi aos vizinhos, apresentando-se com simpatia e pondo-se pronto a participar da comunidadem, e ai souberam, oficialmente, que se chamava Jésus.

No fim de semana seguinte, cerrou as portas no sábado pela manhã. Retornou no domingo, já noite, com uma mulher que não foi melhor observada pelos plantonistas, dado o adiantado da hora.

Segunda, abriu-se a alfaiataria e fregueses chegaram e começou o alfaiate sua lida. Da mulher nada e assim ficou, gerando expectativa e espicaçando a bisbilhotice, até o domingo, quando o alfaiate pôs cadeiras na calçada, mesa com petiscos, cervejas em caixa sobre o cepo e foi de porta em porta chamando os vizinhos para a confraternização, facilitada, pois quase todos moravam nos fundos das lojas.

Instalado o convescote, apresentou ele sua mulher e vamos pausar para mostrá-la muito bonita, loura, de cabelos encaracolados, vestido branco rendado. Chamava-se Marize, disse ele, pois ela só sorria e de pronto os circunstantes, não sem causar certo abismo, pois melhor vista, viu-se que estava descalça!

O fudúncio andou, cerveja para lá e cá, bolinhos de bacalhau, "tapas" que até ali ninguém conhecia e Marize diligente entrando, saindo e rindo, servindo seus quitutes e os pés no chão para onde todos olhavam. E espicaçava mais o fato de ela ser branca, e brancos e muito bem feito seus pés, contrastando com o piso.

O alfaiate aproveitou para contar sua história, sem muito brilho. Era da Galícia, região do norte da Espanha, de família pobre, agricultores e criadores de coelhos, veio com 16 anos e foi trabalhar com um tio, que era alfaiate. Ali ficaram até tarde, sem preocupação com o almoço pois a mesa era farta e Marize ria e ornava o ambiente com seu vestido branco esvoaçante e os pés descalços. Fato curioso e que ficou ao esquecimento, dado os eflúvios alcoólicos, somente sendo esclarecido dias depois, é que ninguém lembrava de ter ouvido a voz da mulher do alfaiate e nem poderiam, pois, segundo ele informou, era surda e muda de nascimento. Alguns gozadores aproveitaram: "mulher ideal".

E assim andou o andor. Cada um voltado a seus afazeres, volta e meia o domingo era festivo na loja do alfaiate e todos encantados com Marize, que não falava, não ouvia, mas entendia tudo, ria e de vestido branco e pés descalços, esbanjando felicidade, cumpria suas obrigações de dona de casa e de mulher do alfaiate, que prosperava, visto ter estilo em seus cortes e recortes, como mostravam a clientela e seus carrões.

O trecho de rua onde ficavam as lojas e a do alfaiate, junto do rio, era sujeito a enchentes, até por ficar à jusante, razão de os comerciantes aplicarem nas portas espécie de comporta móvel, de metal, aposta sempre que encerravam o expediente, a fim de conter as águas de modo não invadir os negócios. Jésus, o alfaiate, até em razão de sua boa vizinhança e dos rega-bofes que oferecia, foi alertado a preparar uma, logo providenciada por serralheiro. Toda noite era instalada, como faziam e iam dormir tranquilos.

O alfaiate, de tempos em tempo, desaparecia num fim de semana, só voltando na segunda- feira, pela manhã, criando especulações de que teria outra, gerando má-vontade, pois se verdade, Marize não merecia qualquer sacanagem e muito menos traição. Mulher servil e dedicada que era ao alfaiate. Risonha, e surda e muda!

Num desses fins de semana de evasão, no inicio das chuvas, deu ele "Às de vila Diogo" na sexta à noite, posta a comporta. Domingo, Marize com seu traje característico e os pés no chão, fez uma faxina geral na casa e na loja. Só, trabalhou até tarde, terminando já às escuras, depois de deixar tudo nos trinques. Recolheu-se e não foi mais vista e ninguém viu que ela esqueceu a comporta.

Desatou um toró que prorrogou-se noite e madrugada adentro e pela manhã arrefecida a chuva, a rua estava uma sujeira só. Foi tanta água, que em algumas lojas a lamaceira superou a altura da barreira, entrando mesmo pouca, mas sujando. Aí, alguém deu o alarme: "Marize não colocou a comporta!!!". Acorreram, bateram, chamaram até que ela abriu, lívida, gaguejando tentando em vá explicar com gestos, que adormecera.

Solidários, muitos muniram-se de apetrechos, e puseram-se a retirar todo o aparato da alfaiataria e testificaram a tragédia. Rolos de tecidos finos estragados, máquinas enlameadas e inutilizadas, uma desgraça só e no meio, desatinada, Marize com vestido imundo e os pés na lama, desdobrava-se em tentar resolver o irresolvível. Pelo meio dia, já com sol de fora, chegou o alfaiate e viu a cena. Perguntou o que acontecera. Os vizinhos ainda tentaram livrar Marize, argumentando que a chuva fora muito forte e muita "até entrou em outra loja". O alfaiate incrédulo dirigiu-se à mulher, exarcebado, colérico, inquirindo-a sobre a comporta. Ela aos prantos sinalizou com as mãos gesto de dormir. Estava muito próximo do alfaiate e ai deu-se o inesperado. A diferença de estatura e de massa corporal era grande e o tabefe empurrou-a para baixo e para trás. O chão enlameado fez o resto e lá foi-se Marize deslizando até o cepo onde bateu com a cabeça. O corpo girou e parou não antes de escorregar para baixo. Cena grotesca. Marize, vestido sem cor, cabelos não eram mais louros, pés descalços e sangue escorrendo da testa. A cena paralisou os assistentes.

Resultado final, três pontos na testa, aplicados pelo esculápio na farmácia e olho roxo, tudo ressaltado, pelo fundo, o rosto bonito ainda de Marize, que depois e poucas vezes foi vista, a não ser quando ia às compras, assim mesmo, rarefeitamente.

O relacionamento amigável dos vizinhos com o alfaiate arrefeceu depois da agressão à Marize. Terminaram os encontros dominicais. Trocavam-se bons dias e outros comprimentos e só.

Algumas semanas se passaram. As chuvas, pleno verão, mais constantes e torrenciais e as comportas nas portas.

Certo fim de semana, como volta e meia fazia, o alfaiate saiu no sábado de manhã. A loja fechada e barreira instalada.

Não se viu Marize todo o dia e nem no domingo. Ao final de tarde começou chuva torrencial que adentrou a noite e assim até o raiar de segunda-feira. O rio fez seu papel, derramando lama e detritos, como nunca sido visto. A catástrofe acometeu toda a cidade. Alguns mais afoitos, logo cessado o aguaceiro, saíram para começar a limpeza das calçadas e tentar retorno às atividades e preocupados viram que a comporta da alfaiataria não estava no lugar. Especulações diversas, resolveram bater e o fizeram muito na porta, telefonaram e nada. Silêncio absoluto.

Ao final da tarde o alfaiate chegou, viu e logo bufou, e disparou palavrões e entrou na loja e a porta ficou aberta e viram os borbotões de lama saindo.

Que acontecera? Onde estava Marize?

Ouviu-se um grito e todos já temendo pela sorte dela! Mais alguns instantes e quando esperavam pelo surgimento das vassouras, baldes e escovões, aparece na porta o alfaiate, com estupor no semblante, ao colo Marize, com pedaço de corda em volta do pescoço, confundindo-se com os cabelos louros, vestido branco e os pés...

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* Oswaldo Duarte é advogado.

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