Quarta-feira, 18 de setembro de 2019

ISSN 1983-392X

Obama, guerreiro-chefe?

Gilberto de Mello Kujawski

Além de ser um pensador e negociador, Obama é também um lutador, que faz guerra para conquistar a paz.

terça-feira, 15 de maio de 2012

O jornalista Peter L. Bergen escreveu no The NewYork Times um artigo publicado no Estadão (03-05-2012), colocando em dúvida a imagem corrente do presidente Obama como um pacifista consumado. Considera que o público americano considera o presidente "um pensador e um negociador, não um lutador".

Contrariando essa versão corrente, o autor do artigo enumera as façanhas militares deste Prêmio Nobel da Paz. Chamou a atenção do mundo inteiro a morte encomendada de Bin Laden, ano passado.

O que o grande público ignora, até dentro dos USA, é que ele dizimou os líderes da Al-Qaeda. Derrubou o ditador líbio, Muammar Kadhafi. Autorizou o assassinato do terrorista Anwar al-Awliki, refugiado no Iêmen.

Ao receber o Nobel da Paz, em seu discurso, justifica o uso da força com argumentos irrefutáveis: “Encaro o mundo como ele é e não posso permanecer passivo diante das ameaças ao povo americano. Pois não se enganem: o mal existe neste mundo. Um movimento não violento não poderia deter os exércitos de Hitler. As negociações não convencerão os líderes da Al-Qaeda a depor as armas.” Em discurso proferido em agosto de 2007, declara: "Se o presidente Musharraf não agir (contra os terroristas no Paquistão), nós agiremos".

Sua oposição à guerra no Iraque não significa que ele abrace o pacifismo.

Boa ocasião para lembrar que existem dois tipos de pacifismo. O primeiro, de olhos e ouvidos fechados, simplesmente se recusa a fazer a guerra. O perigo desta recusa está em menosprezar e subvalorizar o inimigo, o que pode ser fatal. O segundo pacifismo não se limita a não fazer a guerra, sim que se propõe a construir a paz. Porque tanto a guerra como a paz são coisas que se constroem. Ao contrário do que parece, já se disse que a guerra não é instinto de destruição, mas uma invenção, tão complexa e articulada quanto a administração ou a ciência. E a paz, por sua vez, não cai do céu, tem que ser elaborada, edificada segundo um conjunto de técnicas de extrema delicadeza: a diplomacia, o direito, a política, a economia, a educação e a cultura, a comunicação entre corações e mentes.

Arrisco dizer que este último é o pacifismo de Obama. Não a recusa a fazer a guerra, quando inevitável. Reza um dito muito antigo que "a guerra é o remédio das coisas que não têm remédio". E os romanos, que entendiam muito bem do riscado, diziam: "Se queres a paz, prepara a guerra".

Relata o artigo de Bergen que às vésperas da expedição que liquidou o chefe da Al-Qaeda, o Estado Maior e o Conselho de Segurança não tinham certeza de onde estaria Bin Laden. Obama ouviu um a um cada membro do Conselho. Todos foram unânimes em condenar a operação. O vice-presidente, Joe Biden, respondeu: “Sr. Presidente, minha sugestão é: não vá”. Na manhã seguinte Obama reuniu seus principais assessores em um semicírculo e disse, simplesmente: “Vamos então.” Três dias depois Bin Laden estava morto.

Portanto, esse pensador e negociador não deixa de ser também um lutador. Tem um predecessor ilustríssimo, o imperador romano Marco Aurélio, militar e filósofo notável, conhecido pelo espírito humanitário. Nos intervalos de suas campanhas contra os bárbaros, no Danúbio, retocava os pensamentos que legou ao mundo, Solilóquios, um clássico da filosofia estóica.

O título do artigo de Bergen pode ser assim completado: "Obama, guerreiro-chefe da paz". Obama faz a guerra para conquistar a paz.

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* Gilberto de Mello Kujawski é procurador de Justiça aposentado, escritor e jornalista



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