Domingo, 8 de dezembro de 2019

ISSN 1983-392X

Lula, um democrata, um estadista?

Gilberto de Mello Kujawski

Ele pode ser chamado de tudo, de líder carismático, nosso guia, profeta, gênio, herói, só não pode ser considerado democrata, nem estadista.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Segundo a presidente Dilma, rebatendo as críticas de Fernando Henrique ao governo trabalhista, está fora de dúvida que Lula é um autêntico “democrata”, além de indiscutível “exemplo de estadista”. O esporte preferido dos políticos é brincar com as palavras. Lula pode ser chamado de tudo, líder “carismático”, nosso “guia”, “profeta”, “gênio”, “herói”, etc. Só não pode ser considerado nem democrata, nem estadista.

Para identificar a personalidade política de Lula é preciso remontar ao início do século XX, quando certos grupos sindicalistas franceses forjaram nova prática de luta, a “ação direta”, que seria a principal arma dos sindicatos dali em diante até nossos dias.

A ação direta dispensa qualquer tipo de mediação para a conquista de seus objetivos, como a lei, as normas, o parlamento, a ética, as instituições, a tramitação normal em todo o processo de reivindicação social. Basta a nobreza e a santidade dos fins, para justificar os meios, a violência, a transgressão, a antecipação e a brutalidade das greves, e todo tipo de atentados à convivência normal entre as pessoas. A urgência dos resultados fala mais alto do que a lei, o parlamento, o diálogo, o acordo entre as partes.

Lula começou como sindicalista no ABC, com comícios na porta de fábricas, incitação dos trabalhadores e promessas temerárias de fundo irracional. Pouco a pouco foi definindo seu perfil, que nunca foi de um democrata, nem de um tecnocrata (como Dilma), e muito menos de um estadista, mas o perfil de um demagogo puro-sangue.

Neste texto não se visa desqualificar a pessoa de Lula, e sim, pelo contrário, qualificá-lo em sua precisa identidade política. A palavra “demagogo” tem aqui uma conotação técnica, a mesma que foi dada por Aristóteles. Para este filósofo a demagogia constitui a degeneração da democracia, ou seja, a sujeição da política aos fins pessoais. Segundo Bobbio, Matteucci e Pasquino, a demagogia não é propriamente uma forma de governo nem um regime político. Limita-se a uma prática apoiada diretamente nas massas, mas desviando-as de sua real e consciente participação ativa na vida política (“Dicionário de Política”).

Pelos seus métodos demagógicos e populistas, Lula não pode ser um democrata, e pelo seu papel de eversor ou destruidor das instituições, jamais poderia constituir-se num estadista. Estadista é aquele político que põe o Estado a serviço da sociedade. Lula coloca a sociedade a serviço do Estado e o Estado a serviço de um partido. Desde sua posse não fez senão ocupar todos os postos de direção do Estado não pelo mérito dos servidores, mas por sua condição de petistas. Antecipou e radicalizou o sistema de cotas para a totalidade de sua administração, transformada em negócio de pai perdulário para filho mimado.

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* Gilberto de Mello Kujawski é procurador de Justiça aposentado, escritor e jornalista





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