Segunda-feira, 21 de outubro de 2019

ISSN 1983-392X

A perquirição estética multiforme e a liberdade de expressão na obra de Evandro Carlos Jardim

Jayme Vita Roso

Quando mergulhei nas profundezas da tarefa nobre, sulcada de sacrifícios pessoais, pela sua importância à advocacia e aos jovens nela iniciados, deparei-me com uma muralha. Se jovem fosse, difícil e dificultosa a tarefa seria, quanto mais quando as décadas atingem um número cabalístico.

terça-feira, 6 de dezembro de 2005


A perquirição estética multiforme e a liberdade de expressão na obra de Evandro Carlos Jardim


Jayme Vita Roso*

Quando mergulhei nas profundezas da tarefa nobre, sulcada de sacrifícios pessoais, pela sua importância à advocacia e aos jovens nela iniciados, deparei-me com uma muralha. Se jovem fosse, difícil e dificultosa a tarefa seria, quanto mais quando as décadas atingem um número cabalístico.?


O que apresentar semanalmente?


O que motivar como abertura ao próximo?


Como dar esperanças?


E assim por diante, sucediam-se imagens no tosco calidoscópio que operava para, refletindo, repousar. Mas, a perseguição era tenaz.


Almejava fugir dos tradicionais livros sobre termos jurídicos padronizados, uniformizados, assépticos e insípidos na apresentação. Como e em quem dar uma roupagem nova, sem desembarcar na multimídia caricatural.


Visitando a Pinacoteca, em julho, com parentes que residem na Paraíba, tive a felicidade de ser acompanhado na peregrinação por Ivone, psicóloga freudiana ímpar. A variedade de obras, artistas e épocas alinhava-se ou se (des)alinhava nas tendências, escolas, tipos e perfis. Mas, tudo dentro de uma organização que poderia recordar a catalogação de uma livraria aberta, mas carregada de humus fértil da veia artística, sem peia. Quando se visita a Pinacoteca impregnada do ar carregado da variação artística, como fiz, há uma sensação. Mas, aquela, a que fiz, perturbava. Ali estava expondo, em amplos e merecidíssimos salões, Evandro Carlos Jardim. O que trouxera? Por que trouxera? Naquela visita, seguida de outra, à beiradeira de encerrar, saí perturbado. Sequer estive motivado a adquirir o catálogo, editado pela própria Instituição, pela Secretaria da Cultura e pelo Governo do Estado, respaldado no apoio de organizações empresariais conhecidas e respeitadas.


Por que não o fizera?


Pelo título, pelo longo título, que sugeria algo subjetivo demais para o meu saber e para a minha sensibilidade: “O desenho estampado: a obra gráfica de Evandro Carlos Jardim”. Demorei a perceber (a percepção está rareando) que a obra gráfica subsume1 o desenho estampado. Quando percebi, já estava com o catálogo. E me deliciei com as quinze notas escritas por Claudio Mubarac, sobre Evandro e sua obra. Por isso, sem temor de provocar gestos de sonolência, lanço a epígrafe escrita por Alberto Giacometti: “A realidade nunca foi para mim um pretexto para fazer das obras de arte um meio necessário para levar um pouco mais em conta daquilo que vejo”.


Pontualizara naquelas visitas, sem conhecê-lo, que Evandro, por ser paulistano, dera à fotografia da cidade as nuances e tiques que não nos apercebemos. E não nos apercebemos, porque não somos artistas plásticos, nem gravadores, muito menos intérpretes de desenho que sejam estampados, não cursivos.


Mubarac sintetizou geograficamente as variadas e comedidas andanças de Jardim, ao longo da Paulicéia, ressaltando o centro velho, o Tamanduateí, a zona sul, Santo Amaro, o rio Pinheiros, uma excursão ao Jaraguá, para, descendo a serra, chegar à Casa da Praia, no litoral sul.


As mesmas imagens, revendo a exposição, situadas sob formas diferentes, configurações diferentes, arranjos diferentes, não descaracterizam a identidade conceitual do artista. Completam-se, quando não ampliam os ângulos delas, mostrando que ali reside a liberdade de expressão na plenitude, na complementação do trabalho, na indagação ou na dúvida estética.


E Mubarac escreveu e o escriba reproduz, para gáudio dos que apreciam a arte verdadeira, cinzelada2, duas das quinze notas:


“1.1. Evandro propõe um diálogo com a cidade de São Paulo, dos subúrbios até o centro, depois até a montanha; da montanha ao mar. Mas o diálogo e percurso descontínuos, fragmentados. Com os fragmentos recolhidos, de volta à cidade, o exercício diário de reconstruções, de reflexões amplas, de fixação de figuras pontuais, numa demarcada e movente odisséia lagunar.


12. A meditação sobre a paisagem como estratégia nos situa o horizonte como limite da visada e da viagem do homem comum. Imerso na paisagem e suas extensões, Evandro projeta sobre a cidade uma outra, sua, cidade. Ambas convivem em total interinidade, condição de passante, desenhista, marceneiro, carpinteiro, eletricista, pintor, soldador, torneiro mecânico, ilustrador, professor, gravador, andarilho, cartógrafo, em que tudo o que se desenha, anota, grifa, margeia, ao mesmo tempo, é e encontra um lugar para habitar”.


O catálogo contém, além das obras reproduzidas de Jardim, muitos fatos, que ele tomou ao longo do tempo, para transformá-los em desenho estampado. Parece que, do fato, do concreto, passou a elaborar metáforas do real, de várias maneiras, num exercício retumbante da liberdade de expressão. Esse processo, na ótica do escriba, não é a imitação de Deus e da sua obra. É o exercício pleno da criação do homem, que, feito à imagem e à semelhança de Deus, assume a liberdade de se expressar.


Mais duas contribuições, no catálogo: da consagrada Aracy Amaral3, “Conversação com Evandro Carlos Jardim: imagens revisitadas”; e do não menos reputado Alberto Martins, “A cidade e o passante: figuras de Evandro Carlos Jardim”. São eruditas contribuições para esse catálogo, que sigo comentando, quiçá um dos melhores que me chegaram às mãos nos últimos cinco anos. Descompromissado com o mercantilismo, denso e concreto, sem sair ou escapar matreiramente do indispensável que qualquer obra semelhante deva conter, o catálogo dessa exposição equipara-se a uma síntese da biografia existencial de Jardim, de sua biografia lúdica (porque brinca com imagens na conversão delas em metáforas da realidade) e de sua história pictórica. E, para que conheçam a grandeza de Evandro, no catálogo da galeria paulistana Leilão de Arte Tableau, para leilões em novembro de 2005, ele é referido neste quilate: “Excepcional gravador e pintor, diplomado pela Escola de Belas Artes de São Paulo, em 1958. Suas obras são sensíveis, têm apuro artesanal e invenção formal; buscam o insólito da paisagem, transformando em arte quase surreal”4.


Pois assim é. Os migalheiros, sempre ávidos por trabalhos sérios, nas questões jurídicas, encontrarão no livro que o Migalhas editará, coletando os artigos deste escriba, entre 1° de fevereiro e 31 de dezembro do ano da graça de 2005, onze obras selecionadas e constantes ou não da lustra na Pinacoteca. Houve um cuidado especial na escolha de uma possível relação subjetiva e intuitiva com o seu respectivo, transformando, ou mesmo procurando, o livro também como objeto de uma alegoria metafórica, sem interferir no conteúdo de cada trabalho.


Antecipando, o escriba entrevista Evandro Carlos Jardim, em seu ateliê5, na parte posterior de sua residência, quase que dentro da Granja Julieta, na região de Santo Amaro, em São Paulo.


1- Como receber a idéia de colaborar com algumas de suas obras num livro cujos principais destinatários serão advogados?


A gravura de estampa ou gravura impressa é essencialmente um múltiplo e desde sua origem, meados do século XIV no Ocidente, tornou-se possível a transmissão de informações visuais, repetidas, muitas vezes, com relativa exatidão impressas em folhas soltas ou reunidas em livro. Até o advento da fotografia, este foi o meio de reprodução e multiplicação da imagem impressa através de diferentes procedimentos, servindo assim, indistintamente, a todas as áreas do conhecimento. Hoje , livre de uma função documental, antes tão necessária para a compreensão de seu próprio destino ao longo de sua história, desvincula-se dos compromissos de uma verossimilhança com objeto a ser registrado, tornando-se assim instrumento de indagação estética de natureza variada e de liberdade de expressão.


2- Conte-me alguns aspectos relevantes de sua vida.


Estudei na Escola de Belas Artes de São Paulo, de 1953 a 1958, complementando estes estudos no Museu de Arte de São Paulo, dirigido, na ocasião, pelo professor Pietro Maria Bardi.


Na Escola de Belas Artes, entre outros mestres, conheci Francisco Domingo Segura, com quem iniciei meus estudos de gravura em metal.


3- Participou de muitas exposições individuais ou coletivas? Desde quando? Qual teve maior repercussão?


Desde 1956, participo de exposições coletivas. Em 1963, mostrei meus trabalhos na antiga sede do Museu de Arte de São Paulo, Rua Sete de Abril, 230, convidado pelo Professor Pietro Maria Bardi e Augusto Barboso, juntamente com colegas pintores e desenhistas. Em 1973, volto a expor no Museu de Arte de São Paulo, já instalado na Avenida Paulista, esta uma mostra individual bastante extensa do meu trabalho gráfico e de experiências com a tridimensionalidade. Em 1976, participei do grupo que representou o Brasil na Bienal de Veneza, sendo curador Olívio Tavares de Araújo.?


4- O que pode contar da mostra realizada, neste ano, na Pinacoteca de São Paulo?


Convidado por Marcelo Araújo, diretor da Pinacoteca do Estado de São Paulo, e com a curadoria de Cláudio Mubarac, a exposição reuniu diferentes momentos de meu trabalho gráfico ao longo de quase cinqüenta anos deste exercício, sem a preocupação, entretanto, de propor uma visão retrospectiva deste trabalho. Algumas questões relativas à linguagem e aos conceitos básicos da gravura em metal, a meu ver, foram enfatizadas pela curadoria, que também considerou as relações que tenho proposto durante todo este tempo entre a gravura como corte e a tridimensionalidade.


5- Seu exercício de magistério trouxe-lhe, ao longo dos anos, algum fato, ou vários, que merece destaque?


O privilégio de um contato quase permanente durante esse tempo com os jovens estudantes sempre foi relevante nas tentativas de poder manter com as “gerações que ascendem” um diálogo profícuo. Esta experiência tem sido gratificante. Todo fazer humano, a meu ver, quando boas são as intenções, tem sua origem e é decorrente do que poderíamos chamar de uma manifestação poética, ou seja, uma espécie de passagem vivenciada por cada um de nós, de um não ser para um ser e um devir, isto é, de uma consideração a um chamado interior, que quando possível e se atendido tem também o valor de um desígnio, de um projeto e de uma prestação de serviço. A arte, como um fazer que produz obra, como um tipo de operação poética com especificidades quase sempre oriundas de uma predisposição ao conhecimento sensível, não dispensa as chamadas práxis artísticas que, contempladas continuamente pelo fazer e por uma reflexão deste próprio fazer, é matéria que, até certo ponto, pode ser aprendida. Aí talvez esteja uma das funções da escola de arte. Porque arte é, a um só tempo, “objetividade artesanal e subjetividade decorrentes da intuição criadora”, sem que se possa ou deva medir quantitativamente estas qualidades. Elas pertencem a um único corpo decorrente de um trânsito contínuo entre elas.


6- Como cataloga, artisticamente, sua obra?


Como um trabalho de anotação de idéias e tentativas de uma figuração, tendo como origem “uma realidade visível” e a possibilidade de representá-la em diferentes níveis pelas relações possíveis entre imagem e figura, considerando que uma imagem pode conter muitas figuras. Por outro lado, e ao mesmo tempo, procuro contemplar as especificidades de linguagem, principalmente aquelas que distinguem, a meu ver, o desenho e a gravura. Um desenho-escritura e uma gravura linha-corte sobre matéria dura produzindo uma tridimensionalidade, ou seja, a linha e a linha-corte como elementos estéticos intrínsecos a estas referidas linguagens. No caso da gravura, ainda há relação possível entre matriz/molde, o gravar e o estampar, as diferenças e semelhanças entre a gravura e a gravura de estampa, acrescentando aqui o aspecto tridimensional como constante tanto na gravura como na estampa e um diferencial a ser considerado se comparado a um desenho sobre papel ou qualquer outro suporte cujo aspecto, em princípio, é geralmente planar. Creio que meu trabalho em sua materialidade tem assim se caracterizado, na tentativa de apreensão destas “realidades” em suas dimensões e temporalidade, e se possível a uma aproximação ao “genius lochi”, ou seja, a uma figuração do espírito desses lugares.


7- Quais outros artistas plásticos que trabalham com o mesmo gênero que o seu e que têm qualquer veia da mesma origem?


A gravura ainda é, a meu ver, um gênero muito praticado no Brasil pelos artistas das mais variadas tendências, embora tenha sido relativamente recente sua prática entre nós. Por fatores de natureza diversa, sua prática no Brasil Colônia não foi permitida, de acordo com as leis de Portugal, que proibia qualquer tipo de atividade a ela relacionada, assim como a existência de uma Imprensa Nacional. O pouco que se produziu de gravura no Brasil Colônia foi fruto de uma atividade clandestina, sempre interrompida quando descoberta pelas autoridades locais. No Brasil, sua história passa a ser mais conhecida e comentada a partir do início do século XIX, com a implantação da Imprensa Régia e a conseqüente permissão da prática desta arte entre nós.


8- Alguma vez teve participação em movimento político? Como e quando?


Política partidária não. Com relação aos princípios dos direitos humanos, sim. Sempre procurei participar e, quando possível, colaborar.


9- Sintetize os trabalhos escolhidos que irão ilustrar o livro patrocinado por Migalhas e que tem o advogado Jayme Vita Roso como autor. Há liame entre eles? A escolha foi adequada?


Creio que a escolha foi adequada. Os trabalhos selecionados pertencem todos a uma idéia de cidade que tem, como anotação de trabalho, “São Paulo, Sinais, Manchas e Sombras”. Propõem imagens com figuras abertas, se possível, a livres associações.
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Notas bibliográficas:

1 O verbo transitivo subsumir consiste “numa idéia como dependente de uma idéia geral”. In: AULETE, Caldas. Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa. 5ª ed., vol. V. Rio de Janeiro: Editôra Delta S/A, 1964. p. 3.287.

2 Cinzelado é o adjetivo dado para o “trabalho feito com cuidado, com grande esmero em todas as suas partes”. In: AULETE, Caldas. Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa. 5ª ed., vol. I. Rio de Janeiro: Editôra Delta S/A, 1964. p. 803.

3 Aracy Amaral é critica e historiadora de arte. Autora de inúmeros livros sobre arte brasileira, em particular sobre o modernismo no Brasil. Dirigiu a Pinacoteca do Estado de São Paulo e o Museu de Arte Contemporânea da USP. Professora Titular de História da Arte (USP) aposentada. Membro da Comissão de arte do Museu de Arte Moderna de São Paulo. Curadora independente de arte brasileira no Brasil e em outros países.

4 MORAIS, Frederico de. Arte brasileira: manifesto e polêmicas - 2. Rio de Janeiro: Soraia Cals, n. 31.

5 Ateliê é o “local preparado para a execução de trabalhos de arte”. In: HOUAISS, Antônio. Dicionário eletrônico da língua portuguesa. São Paulo: Objetiva, 2002. CD-ROM.
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*Advogado do escritório Jayme Vita Roso Advogados e Consultores Jurídicos










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