Segunda-feira, 14 de outubro de 2019

ISSN 1983-392X

"Perdoem-me as feias, mas beleza é fundamental"

Mirian Gomes Canavarro Batista

"Por que nós mulheres lutamos décadas por um lugar ao Sol e ainda mantemos a postura de esconder nossa beleza e feminilidade no ambiente de trabalho ?"

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Antes que eu precise me banhar de alfazema nas escadarias do Senhor do Bonfim para me livrar do ódio gerado pelo título acima, não custa lembrar ser Vinícius de Moraes o autor da célebre e controvertida frase, extraída do poema Receita de Mulher.

Desculpas feitas (a fim de garantir minha sobrevivência por muitos anos) vamos ao tema...

Quem não entrou na era do "fast food" das informações e dedicou um pouco do seu tempo para ler o poema e entender o que o Don Juan Vinícius pretendia transmitir, saberá que na verdade fez uma Ode às mulheres, enaltecendo sua beleza em detalhes onde somente um admirador inveterado da espécie seria capaz de ver e onde as mulheres deveriam desde sempre conhecer.

Daí chegamos ao cerne da questão e que me levou a rabiscar esse artigo. Por que nós mulheres lutamos décadas por um lugar ao sol e ainda mantemos a postura de esconder nossa beleza e feminilidade no ambiente de trabalho?

Não – lá vai mais uma explicação – me refiro à desconcertante falta de bom senso entre a beleza e a vulgaridade, ou da exposição dos corpos como vemos em todos os meios de comunicação (incluem-se aqui as redes sociais). Estou me referindo a ter orgulho de ser mulher, de mostrar nossa feminilidade, de cuidar da nossa aparência. Não é incomum encontrar mulheres na alta gestão das empresas, porém está cada vez mais difícil que elas mantenham uma postura feminina. Em algum momento da nossa história criou-se uma dicotomia entre beleza e inteligência.

Se retrocedermos um pouco no tempo, vemos que algumas mulheres tiveram destaque num ambiente predominantemente masculino. São quase lendárias as conquistas (em todos os sentidos) de Cleópatra, o reinado de Nefertiti e, por que não, o misterioso papel de Khadijah, a viúva rica, empregadora de Maomé e que viria a ser sua primeira esposa, fornecendo o apoio financeiro necessário para que ele pudesse criar uma nova religião. Conforme destaca Blainey (2007, p.116)1, "é curioso que o fundador de uma religião, hoje, reconhecida por sua sujeição de mulheres, deva tanto a uma mulher."

Mas de fato a força laborativa da mulher, tornou-se útil somente no início do século XX. Um ditado popular poderia sintetizar o que de realmente aconteceu naquele momento: "quem não tem cão, caça com gato". Longe de querer menosprezar a capacidade feminina, mas diante de uma sociedade claramente machista, a ida das mulheres para as fábricas a fim de suprir a mão de obra masculina que lutava nos campos de batalha, não foi exatamente um avanço, resultou de uma necessidade puramente econômica. Mostrou-se, todavia, eficiente e inaugurou uma trajetória evolutiva, ainda perseguida nos dias atuais.

Quando parecia que tudo caminhava bem e as mulheres viviam a tão sonhada emancipação, veio à tona uma realidade constrangedora: as situações embaraçosas suportadas no ambiente de trabalho, tidas até então como normais. O estopim para a discussão sobre o tema do assédio sexual e seus limites, ocorreu no início dos anos 90 com o emblemático caso do juiz Clarence Thomas. As acusações de sua subordinada Anita Hill não indicaram que o juiz da Suprema Corte Americana tenha chegado às vias de fato, mas que era adepto a piadas de mau gosto com cunho sexual, e se gabava de suas habilidades na cama, restou incontroverso. O tema dividiu opiniões entre os homens, porém abriu uma fenda para que as mulheres enfim se manifestassem sobre situações que até então mantinham veladas, sob o véu da submissão.

Esse chacoalhão fez com que muitos homens pensassem duas vezes antes de fazer comentários impróprios no ambiente de trabalho, nós mulheres, em contrapartida, armadas com a carga genética de décadas de luta, habilidosamente e com sutileza inigualável aprendemos a "se safar" dessas situações.

Mesmo assim, os anos passam e o apelo sexual continua motivando comentários nada agradáveis. Quem não se recorda da repercussão que a conversa extrovertida entre o presidente Barack Obama e a primeira-ministra da Dinamarca Thorning-Schmidt causou na mídia mundial? A cena protagonizada por Obama e Thorning chamou mais atenção do que o funeral de Mandela e, com certeza, não teria ocupado o mesmo destaque se o papel feminino fosse atribuído a Angela Merkel ou mesmo a Dilma Rousseff. São notórias as críticas suportadas pela primeira-ministra por setores que a consideram "bonita demais" para ocupar tão algo cargo.

Beleza, inteligência, disfarces... Até Marilyn Monroe, o ícone da mulher bonita, superficial e frágil, nada mais era do que uma construção de Norma Jean Baker, que lhe garantiu a imortalidade no show business. Em sua biografia, Taraborrelli (2010, p.151)2, destacou um célebre comentário feito pelo então aspirante a ator Jerry Eildeman, "Marilyn, você não é uma loira burra, e sabe bem disso. (...) Na verdade, é tão burra quanto uma raposa loira."

Se lutamos tanto para mostrar nossa capacidade (veja bem, não me refiro a igualdade, pois homens e mulheres não são e nunca serão iguais), aprendemos a lidar com todos os desafios que nossa presença impõe no ambiente de trabalho (inclusive nossa TPM), por que ainda usamos a inteligência como escudo para a falta de vaidade?

Somos mães, companheiras, profissionais... Mas acima de tudo somos mulheres e a beleza de nossa espécie está explícita em nossos gestos, passos, gostos e tratos. Não existe a mulher feia, pois somos essencialmente belas. Está mais do que na hora do mundo (inclusive o corporativo) aceitar essa condição.
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1 BLAINEY, Geoffrey. Uma breve história do mundo. 2.ed. São Paulo. Fundamento,2007
2 Taraborelli, J. Randy. A vida secreta de Marilyn Monroe. 1. Ed. 2010

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* Mirian Gomes Canavarro Batista é advogada pós-graduada em Direito Empresarial pela FGV. Atualmente ocupa o cargo de diretora jurídica na Emparsanco S/A.