Segunda-feira, 19 de agosto de 2019

ISSN 1983-392X

Como um advogado chileno acabou santificado dias atrás...

Jayme Vita Roso

No dia 23 de outubro deste ano da graça, em Roma, assistiu-se à canonização de Alberto Hurtado Cruchaga. Dele me ocupo, porque se trata de um advogado que, desde cedo, conviveu com a precariedade da vida, somada à pobreza do interior do Chile, nos alvores do século passado.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2005


Como um advogado chileno acabou santificado dias atrás...

Jayme Vita Roso*


No dia 23 de outubro deste ano da graça, em Roma, assistiu-se à canonização de Alberto Hurtado Cruchaga. Dele me ocupo, porque se trata de um advogado que, desde cedo, conviveu com a precariedade da vida, somada à pobreza do interior do Chile, nos alvores do século passado.


Rememoro-o, comovido e consciente de que a imprensa não o celebrou e a comunidade jurídica não teve acesso à sua fulgurante vida e à sua obra terrena. Espero que, relembrando-o, tenhamos um belo e edificante exemplo a mirar e a imitar.


Veio ao mundo em 22 de janeiro de 1901, na cidade de Viña del Mar. Órfão paterno aos quatro anos, teve em sua mãe, Ana Cruchaga, a escora e a orientação para formar seu caráter e iluminar sua personalidade. Ele, não obstante lhe faltassem os meios materiais para dar subsistência discreta à família, ainda mirava os que nada tinham e eram constrangidos, malgrado tudo, a viver em orfanato.


Com oito anos, Alberto conseguiu ingressar no Colégio Santo Inácio (jesuíta) e, bafejado pela graça que ilumina os bons, teve nos seus preceptores orientação bastante1 para plasmar seu caráter, agora em grau de espiritualidade, voltado, sobretudo, aos pobres.


Recém-saído da puberdade, aos dezesseis anos, anunciou sua intenção de ingressar na Companhia de Jesus, mas foi prudentemente aconselhado a pensar um pouco mais e a aguardar mais tempo, por isso entrou na célebre Pontifícia Universidade Católica do Chile, no curso de Direito. Mesmo convivendo no ambiente universitário de então (1918), sempre e sempre participava de obras sociais, aliando essa militância a uma forte vivência espiritual.


Narraram, seus contemporâneos da Católica, que era Alberto dotado de um espírito alegre e participativo nas atividades curriculares, além de ser militante de um partido político. Expressava aspirações diferentes, sem ser recluso em si.


Para atender às exigências curriculares, no término do curso, em 1923, escreveu uma monografia, que surpreendeu aos docentes pelo o tema, pela profundidade da pesquisa e pela proposta conclusiva. Seu título: “A regulamentação do trabalho dos menores”.


Naquela época, saído da primeira conflagração mundial, o Chile já indicava sua elevada cultura e o interesse pela atuação do advogado, com sua importância social e política em todos os segmentos da sociedade. Por isso, aos egressos da Academia, antes de lhes ser outorgada a permissão para advogar, cabia escrever outra monografia. E Alberto, para não sair de sua trilha maravilhosa, espantou seus examinadores com “O trabalho a domicílio”. Esse tema hoje é recorrente2. Sucedem-se monografias sobre ele. Há conferências consecutivas, tratando das implicações desse lavor, inclusive sociais e antropológicas, sem descuidar das jurídicas. Alberto, todavia, elaborou a sua dando ênfase à precariedade do trabalho exercido em casa pelas costureiras, diríamos nós, em nossos dias, terceirizadas.


Este escriba pôde testemunhar que, se no Chile o trabalho era exercido em condições indignas, não menos diferente o era em São Paulo. Tinha parentes que iam, de bonde, apanhar as fardas incompletas para a Força Pública, trazendo-as nos braços para, nas suas casas, darem-lhes as formas, os acabamentos, os botões etc.. Era um trabalho árduo, em casa, na ida e na volta, para amealhar alguns réis de então e ajudar na manutenção do lar. E, além disso, as mulheres cuidavam das tarefas diárias. Normalmente, pedalavam as máquinas manuais à noite e, muitas vezes, até a madrugada.


Insondáveis os caminhos traçados pela Providência. Alberto, concluído o curso, resolveu, por vocação, mudar os rumos de sua vida, ingressando no noviciado jesuíta de Chillán, onde, hoje, existe um formoso balneário. Como é longa a formação da Ordem de Inácio, ele estudou, em seguida, na Argentina, na Espanha e na Bélgica (Louvain). Especializou-se em Pedagogia e acabou como doutor em Educação.


Somente com 32 anos, nos mês de agosto de 1933, foi ordenado sacerdote na Bélgica, depois de surpreender mestres e colegas com sua alegria, empenho, benevolência, entusiasmo e persistência. Foi um exemplo. E, como exemplo, trago Alberto, para mostrar que, moldado para ser advogado dos humildes, transformou-se em educador e apóstolo para os jovens carentes, abraçando a rigorosa Ordem de Inácio. Recordo o rabino Menachem Mendel Schneerson: “Há muitos tipos de barreiras: as internas e as externas. Existem barreiras entre as que as impedem de fazer o bem. Barreiras da mente e das próprias incertezas, que se apresentam simplesmente, enquanto você é um ser limitado. A alegria, todavia, derruba todas essas barreiras”.


Antes de retomar alguns outros momentos e tarefas de Alberto em sua vida terrena, coloco um parêntese. Escrevendo, ocorrem algumas idéias genéricas; outras acontecem no mundo exterior, refletindo a realidade em que se vive. Pois é, caro leitor migalheiro, jovem advogado, esqueça durante alguns minutos e pense. Trago alguém que nos auxilie, como uma Raffaelle Morelli, para questionarmos: “Hoje, mais do que antes, a vida parece não ter sentido, nem fim, sem nenhuma meta a atingir. Formamos pessoas descontentes, todas atarracadas3 ao bem estar, na idéia da felicidade superficial centrada na aparência, em modelos efêmeros? Onde andamos?”4.


Sigo, pensando. Por que será que o Chile, país incomparavelmente menor em extensão e sem os mesmos recursos, já foi laureado com dois Prêmios Nobel, no disputadíssimo campo da literatura, com a sublime Gabriela Mistral e com o genial Pablo Neruda, além de ter santo como Alberto?


Embora tivesse passado pela chaga pinochetista, desse ser cambaleante que a televisão nos mostra, mas que roubou milhões de dólares e assassinou centenas de compatriotas, além de ter abortado um governo realmente socialista e eleito pelo voto dos humildes, Salvador Allende, e nós, reformistas ou depressivos brasilíndeos, por que não conseguimos? Cultura. Educação séria e competente.


Alberto, Alberto, quanto fizeste pelos jovens abandonados do teu país! Quanto lutaste pelas pessoas abandonadas nas mais frígidas das plagas chilenas. Mas, Alberto, Alberto, tu sabias que o Hogar de Cristo o esperava. Tu sabias que a miséria avilta o homem e aumenta a possibilidade da desordem social. Tu fundaste a Associação Sindical Chilena para proteger tais compatriotas – los obreros – da sanha devoradora do capital esquizofrênico. Tu, também, cuidaste da formação profissional das mulheres, donde tê-las organizado em pequenos círculos, os quais, concentricamente, se espalharam, dando, sobretudo, esperança pela transmissão de autêntica espiritualidade.


Assim, Alberto, beatificado no dia 16 de outubro de 1994, foi canonizado em 23 de outubro deste ano da graça. Ele morreu em 18 de agosto de 1952, após ter sido acometido por um câncer pancreático.


E, Alberto, vendo-o nos altares, repito, como sempre o fizeste: “Si, si, estoy contento, Señor, contento”5.

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Notas Bibliográficas:


1 O adjetivo bastante, neste caso, tem sentido de “que basta, suficiente, tanto quanto é necessário, que satisfaz ao que se quer”. In: AULETE, Caldas. Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa. 5ª ed., vol. I. Rio de Janeiro: Editôra Delta S/A, 1964. p. 518.

2 Recorrente significa “que parece retroceder ou voltar para a sua origem”. In: AULETE, Caldas. Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa. 5ª ed., vol. IV. Rio de Janeiro: Editôra Delta S/A, 1964. p. 3437.

3 Atarracada vem do verbo atarracar e significa “apertar muito, agarrar”. In: AULETE, Caldas. Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa. 5ª ed., vol. I. Rio de Janeiro: Editôra Delta S/A, 1964. p. 431.

4 Introdução da edição do livro de FREEMAN, Tzvi. Il cielo in terra per 365 giorni. Milão: Edizione Riza, 2005. p. 9.

5 Para conhecê-lo melhor, visite: http://www.padrehurtado.cl, http://www.canonizacion.cl e http://www.memoriachilena.cl.
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*Advogado do escritório Jayme Vita Roso Advogados e Consultores Jurídicos









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