Sexta-feira, 18 de outubro de 2019

ISSN 1983-392X

Dia da Consciência Negra e a necessidade de uma real conscientização da data

Vítor Santos de Godoi

Consciência negra consiste no estudo da história desse povo, na valorização da beleza de sua cultura.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Em 20 de novembro de 1695 o povo negro do Brasil perdeu Zumbi, a maior referência na luta contra a opressão sofrida pelos escravos. Por tal razão, refletimos nesse dia a necessidade de conscientização da história e direitos dos afrodescendentes. Ser negro neste País é representar uma raça que batalha por séculos para ser detentor da dignidade humana. É carregar nas costas um passado de dor pungente e discriminação. É ter consciência que seu povo é notoriamente pobre e massacrado pelo poder. É enaltecer uma cultura rica em conhecimento popular e aceitação das diferenças.

Ao tratar desse assunto é importante compreender e reconhecer o genocídio histórico travado pelos brancos e suas instituições. Por séculos, negro era ”coisa”. O Estado, que curiosamente possui como ditame basilar, inclusive em seu contrato social mais conservador (Leviatã de Hobbes), a segurança física dos membros da sociedade, simplesmente preferiu entender que negro não é partícipe de qualquer comunidade. A igreja que sempre foi um ator político e social relevante no Brasil, optou por execrar não apenas o negro como toda sua rica cultura. Os cidadãos, melhor dizendo os brancos, matavam, estupravam, exploravam sua força de trabalho em demasia, vendiam como mercadoria, subjugavam, ridicularizavam e marginalizavam os escravos.

A libertação dos escravos se deu por lei, sem qualquer forma de legitimação e reconhecimento da dignidade humana do negro pelo branco, principalmente, nenhum projeto de estruturação física e psíquica para esses novos livres. Sequer a igreja, representante da solidariedade na nossa sociedade, utilizou seu poder para conscientizar as pessoas da injustiça em atenção.

Apesar de toda a perspectiva histórica ora apresentada, ainda é comum a argumentação que inexiste na nossa sociedade preconceito com os negros. A essas pessoas questiono, se é comum negros ocupando grandes cargos, se estão em qualquer ranking dos mais ricos do País, se os encontram indo a eventos culturais de alto custo (será que não notaram que nos estádio da copa do mundo não havia afrobrasileiros?), em contrapartida, nos presídios a aparência é outra! Infelizmente, o racismo é uma realidade no país e são esses fatos que demonstram os efeitos dessa prática cultural. O argumento esposado por essa camada é lamentável e opressor, já que é utilizado para não provisionar políticas públicas de combate ao racismo.

Neste contexto é que começamos a entender a importância da consciência negra. Reconhecendo a realidade posta acima, de que forma podemos reparar tamanha desigualdade? O Estado, através de sua carta máxima, declarou em seu art. 5 que todos são iguais perante a lei. Ainda determinou como objetivo da sociedade, promover o bem de todos independentemente da cor.

Na prática, apenas após implementar a social democracia, é que se viu aplicação de políticas para o início da reparação dessa desigualdade. Podemos citar a implementação de cotas para faculdades públicas, a criminalização do racismo e, a mais importante delas, a obrigatoriedade no currículo escolar da disciplina “história da África e da Cultura Afro-brasileira” como medidas brasileiras de estímulo ma luta contra o racismo.

Afinal, pouco adianta políticas de Estado ou de Governo que visam à minimização das diferenças entre cor, se os brasileiros (de todas as cores) não conseguem entender a razão de tanta luta. A verdade é que pouco se fala acerca das consequências da escravidão. Nas escolas ainda não se ensina que mesmo atualmente o povo negro segue marginalizado em face da péssima condução de todos os pilares da sociedade em relação ao fim da escravatura. Apesar de nítido, não se admite que o poder ainda tem cor. Mesmo com todos os indicativos, não se explora que a discriminação possui ranço em praticamente todas as esferas do cotidiano, seja com ditados raciais (quem nunca ouviu que “amanhã é dia de branco”?) ou com notório padrão branco de beleza.

À luz do raciocínio exposto, consciência negra consiste no estudo da história desse povo, na valorização da beleza de sua cultura e se necessário for, ficar com braço esticado e mão cerrada, para gritar pela minimização dessa desigualdade histórica. Por fim, trago como reflexão o ensinamento do líder negro Malcom X: “As únicas pessoas que realmente mudaram a história foram os que mudaram o pensamento dos homens a respeito de si mesmos”.

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Vítor Santos de Godói é advogado da banca Loguercio, Beiro e Surian Sociedade de Advogados.

 

 

 

 

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