Segunda-feira, 23 de setembro de 2019

ISSN 1983-392X

A crise dos recursos hídricos continua e ninguém faz nada

Leandro Eustaquio

Diante da previsão de seca, do aumento do consumo de água e das características do ciclo hidrológico, é necessário que em 2015 se administre melhor as águas brasileiras, com a adoção de práticas utilizadas mundo afora.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Notícias dão conta de que as chuvas de novembro em Minas e São Paulo contribuíram para elevar o nível das represas e do volume de alguns rios nesses Estados, o que gerou bastante otimismo. Só que precisa chover mais e por muito mais tempo. Pesa o fato de que choveu abaixo da média nos últimos 3 anos e, infelizmente, a previsão para 2015 é de mais seca.

Mas não é só a falta de chuvas que preocupa. Pesquisa realizada em novembro pelo site ReclameAqui em Parceria com a Fundação SOS Mata Atlântica, apontou que a má gestão e o desperdício são as principais razões para a crise de abastecimento de água em São Paulo. De fato, a crise não é só culpa de “São Pedro”.

Na agricultura e nas indústrias o consumo de água não para de aumentar, paralelamente ao crescimento demográfico, e ao aumento do padrão de vida que exige uma quantidade maior de água de boa qualidade. Se isso já não bastasse, a explosão demográfica tem causado muita poluição, em razão do derramamento de substâncias tóxicas, de dejetos, de resíduos sólidos, e de todo tipo de sujeira e detritos nos rios.

Além disso, alguns brasileiros ainda insistem em desperdiçar as águas, lavando seus carros e calçadas com mangueira, jogando fora um recurso precioso. A consciência a esse respeito é muito pequena, e também por isso, o descaso e os maus hábitos continuam a se perpetuar. O desperdício médio nas cidades de brasileiras é 4 vezes maior do que em cidades de outros países.

Diante da previsão de seca, do aumento do consumo de água, das características do ciclo hidrológico e suas limitações, é necessário quem 2015 se administre melhor as águas brasileiras, com a adoção de práticas adotadas por mundo afora.

Entre os exemplos no combate a crise dos recursos hídricos está o Estado norte-americano da Califórnia. 2014 foi o 3º ano mais seco da história desse Estado nos últimos 110 anos, resultando em medidas contundentes, tais como a declaração de Estado de Emergência, redução da pressão da água durante a noite, bônus de 30% na conta para que economizar no consumo e multa para quem desperdiçar água. Quem lava calçada com água potável na Califórnia pode ser multado em até 500 dólares por dia e não é apenas ameaça. Desde abril, a cidade californiana de Santa Bárbara já arrecadou mais de 1 milhão de dólares em multas, sendo possível acessar, em tempo real, informações sobre desperdício de água e conferir o nível dos reservatórios da Califórnia. Em uma analogia possível, o poder Público Brasileiro poderia criar um sistema de dados com informação atualizada de medição de consumo de água, permitindo-se acesso, em tempo real, à quantidade gasta por todos brasileiros no território nacional.

A gravidade da crise e as diversas alternativas para combatê-la são amplamente conhecidas pelos responsáveis por administrar o sistema de abastecimento de água. Se é assim, por que não se faz nada ou por que se faz tão pouco? O correto seria que os gestores públicos viessem pessoalmente a público, em rede nacional, explicando a gravidade da crise, chamado a população para um consumo mais consciente da água, tal como fez o Governador da California Edmund G. Brown, que declarou "estado de emergência", o que lhe permitiu algumas atitudes bem duras, tudo para preservar ao máximo o abastecimento de água. Uma coisa é certa, se não houver mudança, a seca de 2015 será contudente, faltará água nos pratos, nos copos, dos brasileiros.

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*Leandro Eustaquio é coordenador do Departamento de Direito Ambiental do Décio Freire e Associados.

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