Domingo, 26 de maio de 2019

ISSN 1983-392X

Reflexão sobre o "politicamente correto"

Ovídio Rocha Barros Sandoval

Até onde pode ir o politicamente correto? Não temos uma resposta precisa, no momento, mas podemos afirmar, com segurança, que é uma praga terrível.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Tornou-se lugar comum falar-se em “politicamente correto” sobre quase todas as coisas. O “politicamente correto” passou a ser medida para rotular condutas, pessoas e posições individuais diante da vida e da sociedade. Se tais coisas não se amoldarem ao chamado “politicamente correto” são consideradas abomináveis, sem maiores explicações, muito menos no uso do senso crítico.

Guardo uma lição admirável do professor Paulo Ferreira da Cunha, conceituado e erudito catedrático da Faculdade de Direito da Universidade do Porto, quando em feliz síntese afirma: “o politicamente correto que pretende elevar-se a pensamento único, é uma nova ideologia totalitária. E mais perigosa e sutil, porque não se afirma e nem se pretende como tal. Não tem sede, nem partido, nem líder. É difusa, e todos sempre de algum modo vergam numa plenamente colonização cultural, impondo silêncio do que passa por inconveniente, criando tiques e reflexos condicionados, que nos levam todos a dizer o mesmo...”1

Vamos refletir sobre um exemplo. Há anos tornou-se politicamente correto dizer-se de esquerda em quaisquer situações e circunstâncias, especialmente, em política e no meio universitário. Inclusive existe um partido político que pretende ser dono do pensamento de esquerda no Brasil – o PT, que em seus estatutos e programa luta pela implantação da chamada Democracia Socialista. Ser de esquerda, quase sempre, não leva aquele que o diz, a saber, exatamente, o que é esquerda. A ignorância é comum no tempo pós-moderno, ninguém lê, muito menos deseja aprender. Basta a colheita de informações na tela de um computador. Desaparece o senso crítico, que somente se aprende lendo os filósofos clássicos. Os princípios da Lógica não interessam, sob o argumento olímpico de que tudo é transitório e tende a modificar-se e o pensamento de esquerda, em tal contexto, abriga os bons e a virtude. O mal está nos outros, especialmente, no capitalismo, na política do mercado livre e nos liberais que defendem a verdadeira democracia. Sabemos que a democracia não está livre de defeitos sérios, todavia, na trilha de Churchil, não há nenhum outro regime político melhor que ela.

Se formos examinar o mais recente entendimento sobre os termos “esquerda” e “direita”, temos que remontar à IV Internacional Comunista de 1937 que teve em Trotsky seu maior idealizador. Na III Internacional Comunista, duas posições ficaram claras: a primeira defendida por Stalin e seus seguidores bolchevistas, de que primeiro haveria de se consolidar o regime comunista na União Soviética, para depois expandir-se pelo mundo a revolução socialista; a segunda proposta por Trotsky procurava criar a chamada Oposição Internacional de Esquerda, com o intuito de lutar pela regeneração dos partidos comunistas com base num programa revolucionário. Nesse momento, aqueles que comungavam do ideal de Trotsky passaram a se agrupar à esquerda do pensamento socialista de Marx, enquanto os que ficaram com Stalin e os bolchevistas, à sua direita.

Com o surgimento do Fascismo na Itália e o Nazismo na Alemanha, o termo direita alcançou novo significado, qual seja abrigar no seu interior os fascistas e nazistas, deixando-se na esquerda, somente aqueles que comungavam das ideias de Marx.

O liberal democrata foi lançado ao limbo, quando não chamado de fascista, no esquecimento absoluto de que o Fascismo é irmão gêmeo do Marxismo, pois nasceu na Itália de Mussolini a partir do Partido Socialista Italiano. Para o Fascismo, o Estado é “a alma das almas” e não existem pessoas, mas “súditos do Estado”. Nada diferente do Estado soviético, onde existia a figura do chefe supremo, que encarnava e personificava o Estado, sendo o povo dominado pelo terror de pensar de forma contrária, pois seu destino era a morte. O expurgo comandado por Stalin, logo após a morte de Lenine, matou milhões de pessoas2. No marxismo e no fascismo, sempre imperou a máxima cunhada por Lenine: “O adversário é inimigo; não deve ser derrotado, mas destruído”3. Felizmente, o regime fascista desapareceu da face do mundo com a Segunda Guerra Mundial, levando junto o Nazismo alemão.

Houve em 1989 a queda do muro de Berlim e com ela o esfacelamento dos diversos Estados comunistas da Europa. Não sobrou nenhum, levando-se a crer que o Marxismo teria desaparecido. Da hecatombe da esquerda, sobraram dois países: Cuba e Coreia do Norte. Duas ditaduras ferrenhas, a cubana a mais antiga de todas com 50 anos e a Coreia do Norte comandada por um menino, sem qualquer preparo e comandado pelos tios militares e que, outra coisa não fazem a não ser assustar o mundo com seus experimentos nucleares e aventuras no campo da internet, enquanto o povo vive na miséria extrema. A China não se inclui, pois há décadas acabou adotando o livre mercado para melhorar a vida de seu povo miserável.

Porém, apesar disso, a esquerda continua a empolgar o politicamente correto e há anos criou um pensamento dominante em nossas Universidades e no seio da intelectualidade que se diz pós-moderna, apesar da hecatombe experimentada pelos regimes de esquerda no ano de 1989. No Parlamento, o pensamento da esquerda predomina, na falsa mensagem de que o Marxismo propõe a restauração da Democracia, quando sabemos que todos os regimes de esquerda que existiram e os dois que ainda existem instituíram violentas ditaduras e com a transformação das pessoas em súditos obedientes dos Estados totalitários.

Os jovens precisam ser alertados de que o politicamente correto de ser de esquerda, há anos foi ganhando lugar entre os professores das Academias que passaram a incutir em seus alunos a falsa ideia de que no Marxismo existe a solução para todos os problemas enfrentados pela Humanidade. Os docentes vão, paulatina e subrepticiamente, inoculando nas mentes de seus alunos o pensamento de ANTONIO GRAMSCI, filósofo marxista e um dos fundadores do Partido Comunista Italiano.

De acordo com a sua ideologia, a máxima de que, para chegar-se ao Estado Socialista haveria de ocorrer a revolução armada não funcionaria no mundo ocidental, fora raríssimas exceções. Propôs, então, a chamada revolução cultural, tendo por escopo conquistar a cultura, a começar pela classe intelectual mais expressiva e os professores das Universidades e das escolas. Qual o escopo pretendido? Destruir as três colunas principais em que se assenta a civilização ocidental representadas, figurativamente, em três cidades: (a) Jerusalém, a fé cristã; b) Atenas, a filosofia clássica e c) Roma, o direito romano. Destruídas essas três colunas, fácil será a vitória do marxismo e a implantação da chamada Democracia Socialista, em um jogo de palavras “politicamente correto” para encobrir a Ditadura Socialista.

Nesse trabalho ideológico, vários valores da Civilização Ocidental deverão ser destruídos a começar pela Igreja por encarnar a fé cristã; a filosofia grega e a Lógica aristotélica serão banidas para dar lugar à ideologia marxista que a repugna, na aceitação da dialética de Hegel: tese, antítese e síntese manipulada ao gosto dos intérpretes e reduzida à análise econômica da luta de classes e à teoria da mais-valia. Passarão a valer, apenas, os livros certos que sigam a ideia revolucionária4.

A destruição do direito romano terá por escopo esfarrapar o Direito Civil por ele criado, com seus institutos mais importantes, tais como, entre outros, os direitos da família, instituição, aliás, considerada pelos revolucionários como produto posterior da moral cristã burguesa, o direito sucessório e o direito de propriedade. Não existem princípios da Moral e do Direito, muito menos norma ética e norma jurídica. Os direitos civis, como acontecia no antigo Estado Totalitário Soviético, eram protegidos pela lei, desde que cumprissem as finalidades do Estado, isto é “a lei não protege senão o uso do direito civil que não prejudica os interesses do Estado”. A Moral e o Direito estão atrelados à vontade autoritária do Estado e nenhum direito individual, absolutamente nenhum, pode se opor ao Estado totalitário que dita para os seus súditos o culto obediente e silencioso das condutas permitidas como favor, se é que possa existir algum.

Até onde pode ir o politicamente correto? Não temos uma resposta precisa, no momento, mas podemos afirmar, com segurança, que é uma praga terrível.

Voltaremos, ainda, ao assunto em próximos artigos.

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1 “Apud” DOMINGOS FRANCIULLI NETTO, A Prestação Jurisdicional”, Ed. Millennium,Campinas,2004, p. 25.

2 Ficou célebre a frase de Stalin: “A morte de uma pessoa é fato a ser lamentado; a morte de milhares de pessoas é questão de estatística”.

3 Na China, Mao Tse Tung matou 50 milhões de pessoas, sob o argumento da causa socialista.

4Aliás, bem por isso, tenho a notícia que o filósofo mais citado em teses de graduação, pós-graduação, mestrado e doutorado, com a finalidade precípua de agradar os professores e orientadores, em ciências humanas, é ANTONIO GRAMSCI. Tenho um primo irmão, cujo filho estuda Filosofia, sendo um dedicado discípulo de Platão, Pois bem, como os Diálogos de Platão e toda a sua obra filosófica têm raiz no Transcendente, ao contrário do pensamento marxista imanente e relativista, padeceu e muito diante de seus mestres, adeptos da filosofia de esquerda de GRAMSCI.

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* Ovídio Rocha Barros Sandoval é advogado do escritório Rocha Barros Sandoval & Ronaldo Marzagão Sociedade de Advogados.



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