Domingo, 16 de junho de 2019

ISSN 1983-392X

Advocacia é uma commodity?

Fábio Gindler de Oliveira

Na essência o trabalho é o mesmo e em tese não se diferencia de acordo com quem os produziu ou onde ele foi produzido.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Certa vez um cliente tradicional do nosso escritório professorou ‘isso que vocês fazem é uma commodity, todo mundo faz igual, vocês precisam mudar, se reinventar’.

Naquele momento o cliente se referia a uma das nossas especialidades, a elaboração e montagem do requerimento para o registro do memorial de incorporação. Etapa fundamental que antecede o lançamento de um empreendimento para ser comercializado ainda na planta. E aquela colocação deveras grosseira me fez pensar.

Será que a advocacia é realmente uma commodity? Commodity é um termo proveniente da língua inglesa utilizado nas transações comerciais de produtos de origem primária na bolsa de valores para se referir a produtos de qualidade e características uniformes, que não são diferenciados de acordo com quem os produziu ou de sua origem, sendo seu preço uniformemente determinado pela oferta e procura internacional. É o café, o trigo, a soja, o petróleo, dentre outros.

Estaria a advocacia enquadrada nesta "nobre" categoria? Infelizmente me parece que sim. O trabalho do advogado hoje está nivelado pela média e não se diferencia deste ou daquele escritório, ressalvadas sempre as exceções. O valor dos honorários é orientado por uma tabela, mas nem sempre respeitado posto que todos estão a matar o canino a grito, cobrando cada vez menos em um mercado marcado pela canibalização.

Na essência o trabalho é o mesmo e em tese não se diferencia de acordo com quem os produziu ou onde ele foi produzido. Peguemos por exemplo uma ação de execução de taxa de condomínio, para manter na mesma seara. Qual é a diferença entre essa demanda produzida por este ou aquele advogado, desta ou daquela região do país? Nenhuma. A lei é a mesma.

Um advogado pode ser mais sintético, o outro mais prolixo, um escreve de forma rebuscada com floreios em latim, o outro escreve de forma simples e direta. Mas o produto final é praticamente o mesmo.

A diferença entre um e outro processo estará no cartório ou no magistrado, caso tenham sido sorteados para varas diferentes. Diante dessa situação difícil se torna a precificação diferenciada, o que nos faz ter sempre aquela estranha sensação que ganhamos menos do que a qualidade do nosso trabalho merece. Ou ficamos também com aquela outra indagação meio amarga de ‘como o fulano pode ganhar mais do que eu se o trabalho dele é infinitamente inferior ao meu’. Não é. Salvo raras exceções os trabalhos são parelhos, e todo mundo copia todo mundo, que copia da internet. Sabe o que pode tirar a advocacia da vala comum do carvão, do alumínio, do trigo e do cobre? O ‘algo a mais’, ainda que para isso o advogado abdique de parte das coisas boas da vida. A qualidade no atendimento, a clareza nas explicações, a segurança, a disponibilidade, a postura e a firmeza na hora da reunião ou da audiência. O saber dizer não ao cliente. A arte de negociar. A ética e o respeito com a parte contrária. A urbanidade no tratamento com os magistrados, membros do Ministério Público e serventuários. A qualidade dos relatórios, o atendimento as incansáveis solicitações da auditoria externa. A reunião a qualquer hora, o socorro no final de semana. O retorno quase imediato das ligações, dos e-mails e das infindáveis mensagens de whatsapp e telegram. Sim, temos que olhar os aplicativos a toda hora.

E por fim, porém não menos importante, o conhecimento fino, a atualização constante, a leitura de jornais e revistas. E mais, a criatividade, afinal as soluções não vêm estampada em livros. São essas as características que diferenciam os profissionais e afastam a advocacia das commodities. Quem não as tiver estará mesmo a negociar matérias primas e produtos agrícolas em seu escritório.

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*Fábio Gindler de Oliveira é advogado da advocacia Hamilton de Oliveira.