Segunda-feira, 20 de maio de 2019

ISSN 1983-392X

O Dr. Americo Brasiliense

Em 1855 quem penetrasse as arcadas da Academia de Direito de S. Paulo, em horas de aulas, encontraria um moço alto, sympathico, trajando com esmero mas sem pretenção a figurino, e usando muitas vezes casaca azul de botões amarellos. Seus passos firmes e pausados, seu porte esbelto e altivo, e suas maneiras polidas indicavam logo á primeira vista um estudante de anno superior, e intelligente.

sexta-feira, 11 de agosto de 2006

O Dr. Americo Brasiliense

F. RANGEL PESTANA.

Em 1855 quem penetrasse as arcadas da Academia de Direito de S. Paulo, em horas de aulas, encontraria um moço alto, sympathico, trajando com esmero mas sem pretenção a figurino, e usando muitas vezes casaca azul de botões amarellos.

Seus passos firmes e pausados, seu porte esbelto e altivo, e suas maneiras polidas indicavam logo á primeira vista um estudante de anno superior, e intelligente.

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Eil-o que chega e dirige-se a um grupo ; todos o recebem com affabilidade ; muitos o interrogam.

A este diz uma phrase chistosa e todos riem-se; áquelle responde com seriedade ; todos o cércam attentamente, interrogam e objectam ao mesmo tempo ; e elle resolve objecções e expõe doutrina.

Assim passa o tempo antes das aulas.

Todos o estimam.

Trata-se, pois, de um estudante de verdadeiro merecimento.

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Em Novembro do mesmo anno de 1855, entre os moços graduados bachareis em Direito, apparece o estudante que durante os cinco annos subira sempre cercado das attenções dos condiscipulos e mestres.

O nome de Americo Braziliense de Almeida Mello sahia bem vaticinado d’aquella corporação scientifica.

Um futuro esplendido se lhe abria.

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Vae separa-se dos companheiros, de amigos, que o abraçam entre lagrimas de despedida e sorrisos de esperanças.

Tinha então 22 annos, que os completára aos oito dias do mez de Agosto, pois que nascera em 1833, nesse periodo de agitação democratica, em que o sentimento nacional offendido pelos últimos excessos do primeiro imperador, vingára-se e matára a idéia da restauração votando nas camaras o banimento do principe já desthronado.

Durante os cinco annos do curso academico conseguira Americo Braziliense captar a estima geral e ao deixar os bancos despedia-se triste de muitos amigos tomavam diferentes rumos.

Tambem elle que vira a luz nesta capital e que passára aqui grande parte da juventude ia começar a vida publica na cidade de Sorocaba, onde seu pae, o dr. Francisco Antonio de Almeida Mello, era pessoa considerada e influente.

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Nos dous annos, de 1856 e 1857, elle advogou nessa cidade, alheiando-se da politica, porque seu pae militava no partido conservador e as idéias desse partido não estavam arreigadas no animo do novo bacharel em Direito.

Um facto entretanto, forçou-a entrar activamente em politica.

Os conservadores da localidade incluiram o nome do dr. Americo Braziliense na sua chapa para vereadores, ou com o fim de prendel-o aos interesses do partido, ou por attenção ao dr. Francisco Antonio.

O resultado, porém, não correspondeu á esperança.

Um desaffeiçoado ao joven candidato tirou-lhe parte da votação e elle não entrou na camara.

A derrota, a pretexto de servir de estimulo aos brios, proporcionou-lhe o meio de entrar na politica seguindo o impulso de suas opiniões.

D’ahi em diante o pae, retrabindo-se, cedeu o passo ao filho e o partido liberal de Sorocaba teve á sua frente o dr. Americo Braziliense.

Foram taes os seus serviços que em 1857 conseguiu ser eleito deputado á assembléa provincial como representando do 5º districto.

Em 1858, logo que tomou assento na assembléa, escolheramn’o para 1º secretario, sendo o presidente o ilustre paulista, o dr. Gabriel José Rodrigues dos Santos.

No recinto da representação provincial revelou muito talento e dedicação aos negocios públicos.

A influencia pessoal deste moço começou sob bons auspicios.

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Havia sido nomeado juiz municipal e de orphãos da Faxina e encerrada a assembléa segue para o termo e entra em exercicio.

O magistrado soube-se haver com tanta justiça e prudencia que ainda hoje seu nome é querido e pronunciado com respeito pelos povos do termo que então era extensissimo.

A’ brandura no tratar os homens rústicos elle sabia unir a energia na execução da lei.

Distribuía justiça com calma e rectidão, e prendia, como delegado de policia, os criminosos sem alarde nem perseguição.

Em 1859 pediu demissão e ficou residindo na capital.

As relações políticas alargaram-se e o deputado provincial começou a ter maiores ambições.

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No anno seguinte a morte atira-lhe um golpe terrivel, ferindo-lhe em cheio no coração : rouba-lhe o pae ainda robusto e na edade de 54 annos.

Desde então o dr. Americo Braziliense repartiu os seus cuidados com a politica e a viúva, sua extremosa mãe, a exm. sr.a d. Felizarda Joaquina Pinto.

A assembléa provincial continou a ser o theatro de suas glorias como homem politico, cheio de intelligencia, e tacto fino para todas as questões as mais complicadas. Os collegas fizeram-n’o vice-presidente na sessão de 1863, e presidente na de 1864.

Sua palavra grave e sincera se fazia ouvir em todas as discussões com uma certa simplicidade que não destoava da energia das convicções democraticas.

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Em pouco tempo chegou a influir com auctoridade nos trabalhos da assembléa e pezar nas deliberações do partido.

Por vezes as galerias e ante-salas encheram-se ao constar que o sympathico orador occupava a tribuna.

Sua eloquencia como que levava o auditorio, arrastado docemente, a abraçar a causa que defendia.

Foi no meio das visões chamadas glorias politicas neste paiz, quando sentiu que a opinião publica alentava em seu espirito as nobres ambições do filho do povo – a de elevar-se pelo talento, pelo estudo e patriotismo – que o coração do dr. Americo Braziliense denunciou faltar á sua existência mais um elemento poderoso de força para ter a coragem de affrontar com os desgostos que surgem constantemente na carreira publica. Faltava-lhe a esposa, a confidente das dores, dos sonhos e dos desenganos do homem politico.

Casou-se em 1862 com a exm.a sr.a d. Marcellina Lopes Chaves, senhora de qualidades recommendaveis e filha do sr. barão de Santa Branca.

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Filho, esposo, e para logo pae extremoso, o dr. Americo Braziliense quis conciliar a prestação de cuidados permanentes consagrados á familia, com as vantagens que uma posição mais garantida na capital da província lhe podia trazer, e porisso defendeu theses e preparou-se para tirar uma cadeira de lente.

Mas, em breve tempo o moço cheio de talento, com recursos proprios para se collocar superior ás necessidades, acariciado pela estima publica, sentiu a fronte altiva pender ao encarar com o futuro !

Em seu coração generoso onde já se aninhava tantos affectos puros, tantas paixões nobres, começaram a apparecer os estremecimentos de quem se arreceia de uma desgraça. Sentia-se doente e impressionado via fugir diante de si todas aquellas nuvens douradas que franjavam caprichosamente os largos horisontes de sua vida publica e privada.

O filho extremoso, o esposo dedicado, o pae affectuosissimo e o politico popular e victoriado olhava em derredor de si e como que deparava sombras por toda a parte.

O physico indicava padecimentos contra os quaes o moral não podia reagir.

Uma viagem á Europa lhe é aconselhada pelos medicos.

Parte em 1864 com a familia. Percorre varias cidades da França, Hespanha, Portugal, Inglaterra, Bélgica, Allemanha e Italia.

Intelligencia clara e cultivada, não passou por todos esses lugares sem estudo, sem observação. O que via – sabia ver. Não era diante dos monumentos, dos marcos que no velho continente a cada passo attestam a passagem dos seculos e da civilisação, um mero curioso ; era o espirito lúcido, prompto para criticar, facil em comparar e concluir.

Essa viagem equivalia a um estudo pratico, ainda que rapido, de tudo quanto lhe cabia debaixo das vistas.

Para o homem intelligente o viajar é aprender sem trabalho e á custa dos esforços acumulados dos outros.

A sua alma retemperou-se na contemplação de muita coisa grandiosa e tambem na observação de muitas miserias. Por vezes o Brazileiro teve orgulho de ser filho destas ricas e vastas regiões da America e outras tantas curvou a cabeça diante do atrazo do seu bello paiz.

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Em 1866 voltou á terra natal. Se não trazia mais saude todavia regressava animado e disposto a votar o engrandecimento da patria as suas faculdades e os novos conhecimentos adquiridos pelo estudo e exame das instituições e costumes de outros povos.

Os amigos politicos reclamaram a sua cooperação no governo e coube-lhe a missão de administrar a provincia da Parahyba do Norte, no ministerio do marquez de Olinda.

O administrador não desdisse dos actos do juiz e do deputado provincial. Em politica sustentáva as pretenções judiciosas dos seus correligionarios e em administração attendia aos interesses da provincia, ainda mesmo contrariando os seus amigos politicos. As maneiras de tratar tanto um como outros éram tão delicadas, as resoluções tão meditadas e firmes que seus actos não criaram descontentes e todos bemdizem ainda hoje de sua administração.

Neste tempo mereceu ser eleito deputado á assemblea geral por esta provincia de S. Paulo. Sua candidatura que era bem acceita no 3º e 2º districtos foi por accordo dos amigos apresentada pelo 1º e sahiu victoriosa das urnas.

Abertas as camaras em 1867, o dr. Americo Braziliense deixa a presidencia da Parahyba e toma assento na camara temporaria.

A situação era má para os talentos que então se prendiam ás conveniencias de uma disciplina partidaria que nada tinha de gloriosa. O dr. Americo Braziliense, como tantos outros moços verdadeiramente liberaes, sentia-se acanhado n’aquelle recinto onde uma atmosphera pesada abafava as mais bellas intelligencias que apoiavam a situação.

O deputado paulista não appareceu nesse periodo com o brilho correspondente aos seus creditos de parlamentar.

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Em Fevereiro de 1868 elle estava de passeio em Sorocaba ;  procurava talvez ahi recordações de sua entrada na scena publica e interrogava a consciencia sobre o desempenho do mandato popular. Ahi um convite instante de Zacharias o surprehende : estava-lhe destinada a presidencia da importante provincia do Rio de Janeiro.

Homem politico, que não mede o sacrificio pessoal quando lhe fallam em nome do partido, parte e acceita a commissão.

Presidente da provincia do Rio de Janeiro durante alguns mezes revelou dotes eminentes como administrador e deixou seu nome gravados nos corações dos auxiliares d’aquella administração.

Foi nesse anno que o poder moderador, fazendo questão da escolha de Salles Torres Homem para o logar de senador pela provincia do Rio Grande do Norte, houve por bem demitir o ministerio de 3 de Agosto presidido pelo conselheiro Zacharias. Cahira assim a situação liberal, criada em grande parte pelo voto e conselhos do illustre estadista, mas mal definida sempre e equivocamente representada nos factos.

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O sympathico representante de S. Paulo pertencia ao numero dos moços que em consciencia applaudiam, em nome da democracia e da honra do partido liberal, o uso da prerogativa da corôa.

Esse periodo cheio de lutas estereis entre historicos e progressistas, foi para muitos a fonte d’onde surgiu o partido republicano. Entre estes estava, pela força da convicção e do patriotismo, o dr. Americo Braziliense.

Elle, que fôra durante toda a situação juiz imparcial da luta pessoal travada entre os proprios companheiros de deputação, voltou á provincia contristado mas não descrente, e abriu escriptorio de advocacia.

A Loja America, o conventiculo de utopistas como chamavam-na uns – e o antro de revolucionarios abolicionistas como qualificavam-na outros, fel-o seu venerável.

Moderado por indole, por estudo, por experiencia e educação, o dr. Americo Braziliense assumiu sempre francamente a responsabilidade do que a Loja fazia solidariamente em nome da democracia e da humanidade.

As suspeitas cahiram diante dos factos, e as calumnias ficaram abafadas pela verdade.

Sendo presidente da provincia o sr. dr. Costa Pereira, foi dirigido ao venerável da Loja America um officio consultando-o em nome do governo se ella queria tomar a si a creação e educação dos ingenuos afim de gozar dos favores concedidos por lei.

A reposta foi digna de um homem de talento e verdadeiros sentimentos humanitarios.

A Loja America subiu assim officialmente e desde então documentos públicos lhe têm sido tributados em signal de attenção por parte do governo.

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Por esse tempo houve uma vaga de lente e o dr. Americo inscreveu-se. Não restava duvida de que seria approvado.

A Faculdade indicou-o como digno de sentar-se entre os membros do seu corpo docente, dando-lhe o segundo logar na lista.

O governo imperial, porém, não o nomeou.

Correu que os motivos principaes desse acto tinham origem no facto de ser o distincto paulista republicano e uma das luzes da Loja America, a mesma que depois merecera as taes provas de consideração do mesmo governo.

Entretanto os seus padecimentos aggravaram-se e appareceu de novo a necessidade de uma viagem.

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Campinas, cidade cujo clima é mais quente que o desta capital e onde elle já nessa época tinha amigos lettrados e correligionarios, mereceu-lhe a preferencia.

Ahi advogou desde 1870 até 1873.

O dr. Americo Braziliense pertence ao numero desses homens que não se negam ao trabalho e têm sempre nos nos lábios o monosyllabo – sim. A elle chegou-se em um dia o sr. Caldeira, director de um collegio de meninos e pediu-lhe para dar algumas prelecções no seu estabelecimento de educação. O pedido do intelligente director foi satisfeito : as prelecções foram dadas e o publico hoje as conhece porque o sr. José Maria Lisboa as editou em um livro, que tem merecido muitos louvores.

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Em 1879 o advogado voltou a fixar residencia na capital, e aqui encontramol-o sempre rodeado de um grupo de amigos.

Seu escriptorio faz lembrar o de um outro paulista distincto, gloria da provincia, o dr. Gabriel José Rodrigues dos Santos.

Nessa casa do canto do Largo da Sé reúnem-se habitualmente catholicos livres. Todos se estimam, conversam e discutem vindo á baila as questões da época. Ninguém se insulta e a harmonia reinam sempre entre os frequentadores da sala vermelha do chefe republicano.

É admiravel a concórdia que existe n’aquella assembléa, na qual as maiorias e minorias se formam com summa rapidez ás vezes dentro de meia hora ! Entretanto não ha trânsfugas : as transformações rapidas dependem dos membros que comparecem.

Ninguem preside as reuniões.

Ali formam-se novas relações, estreitam-se outras e todos enfim se estima porque todos desejam agradar ao sympathico petroleiro, que é um dos corações mais generosos que Deus formou.

Vede : Liberaes, conservadores, republicanos e catholicos estão em larga palestra ; o dr. Americo puxa do relogio e pega no chapeu. Sae. Os outros ficam e preseguem na conversação que está calorosa, esquecidos talvez de que a hora adianta-se.

Nenhum dos presentes se incommoda com a retirada do dono da casa.

Sabem que sae para servir um amigo ou cumprir um dever.

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Ás 2 horas elle deixa impreterivelmente a sala vermelha entregue aos amigos e o escriptorio ao companheiro, e vae praticar um acto glorioso que o ennobrece aos olhos da actual geração.

O parlamentar, o jurisconsulto, o cidadão que é um nome feito, a essa hora ensina historia patria ás meninas do collegio .

É ahi que o dr. Americo Braziliense conquista pelo talento, e por outros dotes superiores da alma os mais virentes louros para a sua corôa de patriota.

Aquellas meninas, que sentem verdadeiro orgulho ao sentarem-se diante delle, hão de ser as futuras mães da geração nova que terá de fazer a mais completa justiça ao seu civismo.

Eis ahi como aos 42 annos de edade um brazileiro illustrado, como ha poucos, mostra que ama a sua patria.

Porisso tambem o jovem partido republicano não podia achar um homem mais distincto para represental-o no pleito eleitoral que esse seu correligionario.

O dr. Americo Braziliense na luta geral em pról da republica vale uma legião.

É quasi certa a derrota, mas restar-lhe-há a gloria de haver feito dignamente as honras á bandeira do seu partido.

Diante do vulto sympathico desse homem que tem sabido revelar sem contradicção excellentes qualidades como filho, esposo, pae, amigo, partidario e mestre, descobrem-se reverentes e alegres todos aquelles que têm tido a opportunidade de aperta-lhe a mão e trocar com elle uma palavra de affecto ou um comprimento de cortezia.

S. Paulo. Outubro de 1876.

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