Segunda-feira, 22 de julho de 2019

ISSN 1983-392X

Luiz Washington Vita, a esperança perene do filosofar luso-brasileiro

Jayme Vita Roso

Colocando “a vida entre parênteses” , como a coloca com aprumo o poeta uruguaio Mario Benedetti, recordamos carinhosamente um pouco da trajetória de Luiz Washington Vita, nosso primo-irmão, como homem de idéias filosóficas. Tarefa que nos impusemos, porque, neste mês de outubro, no dia 28, lembraremos o 35º aniversário de seu falecimento.

quinta-feira, 23 de outubro de 2003

Luiz Washington Vita, a esperança perene do filosofar luso-brasileiro

Jayme Vita Roso*

Colocando “a vida entre parênteses”1, como a coloca com aprumo o poeta uruguaio Mario Benedetti, recordamos carinhosamente um pouco da trajetória de Luiz Washington Vita, nosso primo-irmão, como homem de idéias filosóficas. Tarefa que nos impusemos, porque, neste mês de outubro, no dia 28, lembraremos o 35º aniversário de seu falecimento.

Sua brevíssima passagem, apenas 47 anos, está inserida no universo dos poucos, até então, que se interessaram em produzir filosofia, sempre recusando os céticos de que, no Brasil, não havia lugar para pensadores-filósofos.

Foi um trabalhador incansável, pois conseguia a proeza de ter quatro empregos, dando conta das tarefas com um vigor desconcertante, daí não ser um mero ideólogo. Polêmico e ardoroso proliferador de idéias, nunca se deteve em enfrentar aqueles que se mascaravam e se escondiam atrás de seus nomes, quiçá pseudo-intelectuais.

Começou a interessar-se por filosofia, quando sofreu um desastre absurdo para a época (1936): escorregou no trilho de um bonde e perdeu um calcanhar. Os longos e intermináveis dias da sofrida recuperação levaram-no à introspecção, que o conduziria a dar os primeiros passos do refletir.

Somente quem o conheceu, antes do desastre, pode avaliar a tenacidade deste descendente de imigrantes italianos, que nunca se perfilou diante de tarefas hercúleas, para recusá-las, ou deixou de devotar ao Brasil todo o amor de um apaixonado pela história. Como no In Memoriam, Miguel Reale – seu mestre e amigo -, disse: “A história tinha para ele um significado imanente, título, aliás, de um de seus melhores ensaios, por ser a livre auto-realização e decisões do espírito, de tal modo que, se cada descoberta da verdade transcende o espaço e o tempo, é ubíqua e anacrônica. Daí seu constante esforço de buscar a razão histórica como superamento do mero acontecer dos fatos, o que o levou a indagar do sentido subjacente mais profundo do pensar brasileiro, só aparentemente redutível a uma trama passiva de influências externas”2.

De sua bibliografia fundamental, destacamos: “Da técnica como problema filosófico” (RT, SP, 1950); “A filosofia no Brasil” (Martins, SP, 1950); “Arte e existência - Notas de estética da arte” (Martins, SP, 1950); “Temas e Perfis” (Daedalus, SP, 1957); “Namoro com Têmis - Notas de ciência e filosofia do direito” (Mestre Jou, SP, 1958); “Introdução à Filosofia” (Melhoramentos, SP, 1954); “Escorço da Filosofia no Brasil” (Atlântida, RJ, 1964); “Alberto Sales, ideólogo da República” (Companhia Editora Nacional, USP, 1965); “Tendências do pensamento estético contemporâneo no Brasil”, (Civilização Brasileira, SP, 1967); “Antologia do pensamento social e político no Brasil” (Grijalbo, RJ, 1968) e a obra póstuma “A filosofia contemporânea em São Paulo” (Instituto Brasileiro de Filosofia, Grijalbo, SP, 1969).

Além, muito além, foram seus inúmeros trabalhos publicados na Revista do Instituto Brasileiro de Filosofia, do qual foi secretário, bem como memoráveis comentários e críticas à obra de Sílvio Romero, Farias Britto, Tobias Barreto, Xavier de Mattos, Galvão Bueno e tantos outros brasileiros que ousaram filosofar.

Antonio Paim, também companheiro e lidador tanto quanto Luiz Washington, na sua memorável “História das Idéias Filosóficas no Brasil”3 , por 15 vezes lembra-o (p. XII, 25, 24, 54, 59, 183, 217, 347, 380, 463, 527, 554, 578, 597 e 598).

Realçamos:

“O fato de que se haja estabelecido em Portugal, ao longo do século XVII e durante toda a primeira metade do século XVIII, o mais completo isolamento em relação ao pensamento moderno determinou que o ponto de partida da meditação que se encerra com o ecletismo espiritualista tivesse que se iniciar pela crítica do saber de salvação. Essa denominação, aliás de extrema acuidade, deve-se a Luiz Washington Vita (1921-1968), que, lamentavelmente, não se deteve em sua caracterização exaustiva, tornando-se imprescindível efetivá-la”4 .

“Luiz Washington Vita ocupou-se preferentemente do pensamento brasileiro e o fez explicitando algo de subjacente ao culturalismo desde Tobias Barreto, isto é, a crença na capacidade das idéias de influir sobre o meio e de aguçar o nível de exigência moral da intelectualidade. Tinha, para ele, grande relevo a idéia da consciência histórica, a que se chegaria para compreensão (assimilação) do passado, assimilação que não deveria tornar-se meramente subjetiva, mas ativa, para incorporar-se ao presente a fim de “melhorar o futuro”5.

Miguel Reale, a quem este escriba está vinculado culturalmente desde os anos quarenta e por quem devota o maior carinho, apesar de ser ocupado e preocupado, como lembra Julián Marias, não titubeou em brindar nossos leitores com respostas a três perguntas que lhe fizemos a respeito de quem chamou “saudoso companheiro”. A propósito em suas “Memórias”, no volume I e no volume II, por sete vezes, Reale recorda-o com a costumeira benevolência e amizade6 .

As perguntas e as respostas:

I) Professor Reale, como conheceu Luiz Washington Vita e o convidou para secretariar o Instituto Brasileiro de Filosofia?

“Conheci Luiz Washington Vita na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco e percebi logo que tinha interesse incomum por problemas culturais, com a inteligência voltada mais para a Filosofia do que para o Direito.

Uma de suas virtudes era a amizade, sabendo estabelecer relações duradouras e desinteressadas; outra era o entusiasmo que dedicava a tudo o que fazia. Foi fácil, assim estabelecermos uma convivência fecunda, máxime porque nos unia o mesmo empenho de viver a Filosofia como atividade criadora do espírito, e não apenas como cabedal de conhecimentos.

Por mais motivos, passou a exercer naturalmente uma função ativa no Instituto Brasileiro de Filosofia, que fundei em 1949, ao exercer, pela primeira vez, as funções de Reitor da Universidade de São Paulo, reunindo pensadores de todos os Estados, acima de ideologias e correntes doutrinárias. Luiz Washington Vita já colaborou no 3º fascículo da Revista Brasileira de Filosofia, em 1951. Aos poucos, ele foi se projetando no IBF, passando a integrar o Conselho de Redação da RBF, a partir de 1957”.

II) Professor Reale, qual o desempenho dele como Secretário, ao longo dos anos, até a sua morte?

“Luiz Washington Vita foi membro da Diretoria do IBF e, dado seu espírito prático, nela atuou como Diretor-Secretário. Exerceu, porém, o cargo de Secretário da RBF até sua morte, em 1968.

Um de seus maiores empenhos foi estabelecer contato com instituições filosóficas da América Latina e com Portugal. Foi com a matriz lusitana que ele manteve uma ligação da maior relevância, podendo-se dizer que ele foi o primeiro “filósofo da língua portuguesa”, realizando, assim, o ideal de Fernando Pessoa”.

III) Professor Reale, como vê a importância de Luiz Washington como homem de ação no ambiente cultural da época?

“Quanto às suas idéias, faço referência ao In Memoriam que escrevi para o fascículo 72 da RBF em outubro/dezembro de 1968”.

Além do precitado texto, ainda do referido In Memoriam, recordamos:

“Quando Luiz Washington Vita na manhã de 28 de outubro, me telefonou para expor os seus planos de comemoração do vigésimo aniversário do Instituto Brasileiro de Filosofia, estava eu longe de imaginar que, poucas horas depois, a cultura brasileira seria privada de um de seus mais lúcidos intérpretes.

Foi sobretudo no plano das atividades filosóficas que se desenvolveu a sua poderosa energia, animada por uma nova e aberta compreensão dos problemas brasileiros, que ele sempre desejou colher na totalidade orgânica de seus valores.

A morte veio surpreendê-lo quando se achava na plenitude de sua força criadora, numa fase de reelaboração das próprias idéias, após tantos anos de amoroso estudo das idéias alheias. Impelia-o uma saudável confiança na capacidade mental de nossa gente, debruçando-se carinhosamente sobre os escritos filosóficos aparecidos no Brasil, sempre seduzido pela busca der uma nota reveladora do espírito nacional”.

Queremos encerrar, outra vez mais, com Mario Benedetti, nascido em 1920, que, para comemorar 83 anos, canta:

“83 Poemas/Años”

Los años son un pozo de memorias

hilachas de odio / lindas plenitudes

franjas de olvido ya convalecientes

hendijas de un amor como cualquiera

miedos justificados y benignos

son años con impactos en la nuca

con la envidia aportando mezquindades

pero también con la buenaventura

de los amigos fieles como siempre7 .

Em arremate ousado:

Amigo rima com fidelidade

abarca o sempre

o temporal

o humano.

O humano

o temporal

o possível

abarcam os laços parentescos

o sempre.

____________________

1BENEDETTI, Mario. La vida ese paréntesis: poemas. Buenos Aires: Alfaguara, 1998. 154 p.

2REALE, Miguel. In Memoriam – Luiz Washington Vita: 1921-1968. Revista Brasileira de Filosofia, São Paulo, v. XVIII, fasc. 72, p. 387-389, out./dez. 1968.

3PAIM, Antonio. História das idéias filosóficas no Brasil. 3ª ed. São Paulo: Editora Convívio, 1984. 615 p.

4Ibidem, p. 25.

5Ibidem, p. 597.

6REALE, Miguel. Memórias: destinos cruzados. São Paulo: Editora Saraiva, 1986. p. 224 e 228, v. I. Idem. Memórias: a balança e a espada. São Paulo: Editora Saraiva, 1987. p. 151, 157, 159 e 161-162, v. II.

7BENEDETTI, Mario. Existir todavía. Buenos Aires: Grupo Editorial Planeta, set. 2003. p. 9.

______________________

* Advogado do escritório Jayme Vita Roso Advogados e Consultores Jurídicos

______________