Quarta-feira, 13 de novembro de 2019

ISSN 1983-392X

Uma catástrofe atrás da outra...

Antonio Carlos Vendrame

A indenização não traz vidas de volta. Multas e outras penas não trazem a garantia de que não se errará novamente. É preciso criar a cultura da prevenção. Só assim os acidentes não acontecerão mais!

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

São Paulo foi palco de vários incêndios que se tornaram emblemáticos. O primeiro foi o edifício Andraus, em 24/2/72, cuja causa divulgada foi sobrecarga no sistema elétrico. O segundo foi o edifício Joelma, em 1/2/74, cuja causa divulgada foi curto circuito no sistema de ar condicionado. O terceiro foi o edifício Grande Avenida, em 14/2/81, cuja causa divulgada foi curto circuito na rede elétrica. O quarto foi o edifício CESP, em 21/5/87, cuja causa divulgada foi superaquecimento de um reator de lâmpada fluorescente.

Todos os incêndios relatados, possuem como causa comum, problemas envolvendo eletricidade ou equipamentos elétricos. Não foi diferente com a catástrofe ocorrida no dia 8 de fevereiro, no Centro de Treinamento Ninho do Urubu, do Flamengo, que deixou 10 mortos. A provável causa foi curto circuito no sistema de ar condicionado.

Neste momento vou abrir mão da autoria da frase: a experiência do passado não tem servido para prevenir o futuro. Infelizmente tais acidentes são previsíveis e preveníveis. O ano começou com catástrofes que poderiam ter sido evitadas, a exemplo de Brumadinho. E, no caso do Flamengo não foi diferente.

A questão básica é que a eletricidade tem sido negligenciada ao extremo. Os profissionais eletricistas, com raras exceções, são constituídos por pessoas sem qualquer formação ou curso básico. Lidam com eletricidade baseado em sua prática cotidiana. Falar em normas da ABNT para alguém que sequer possui um curso básico em eletricidade é como falar em cálculo integral para quem não sabe a tabuada...

Os problemas com eletricidade começam das instalações prediais mal feitas, com subdimensionamento da fiação. A instalação de equipamentos também não segue qualquer critério e, na maioria das vezes, realizada por profissionais desqualificados.

E não é só! Falta de projeto elétrico é outro grave problema. Atuar numa instalação sem projeto é como dirigir no escuro ou fazer um bolo sem receita. Outro hábito comum é a realização de gatos, derivando ligações de um ramal principal que eventualmente pode ficar sobrecarregado e dar início a um incêndio. Os multiplicadores de tomadas, conhecidos como “benjamins”, são formas práticas de sobrecarregar um circuito, ligando vários equipamentos num circuito que não foi projetado para tal.

Aterramento é mais um problema. Raramente as instalações possuem aterramento e, quase nunca os equipamentos, especialmente chuveiro, são aterrados. Equipamentos que dão choque é indicativo que precisam ser aterrados.

Além do que, os fios e cabos não se encontram organizados, por exemplo, numa canaleta. Normalmente se encontram espalhados aumentando o risco de curto circuitos e choque elétrico. Não é incomum roedores deixaram os cabos desencapados com a linha viva exposta.

A escolha dos materiais também se constitui em questão criteriosa, vez que o mercado oferece produtos com preços competitivos, porém com baixa qualidade e, indiferenciáveis ao leigo. Cabos e disjuntores são os itens mais críticos de uma instalação elétrica e, absolutamente não devem ser adquiridos sob o único critério do menor preço.

Assim, mais uma vez o menosprezo às normas e a falta de prevenção foram responsáveis por várias vidas ceifadas, vidas de jovens e adolescentes com um enorme futuro, que não somente foram privados da vida, mas também nos privou de poder um dia assistir seu sucesso...

A indenização não traz vidas de volta. Multas e outras penas não trazem a garantia de que não se errará novamente. É preciso criar a cultura da prevenção. Só assim os acidentes não acontecerão mais!

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t*Antonio Carlos Vendrame é diretor da Vendrame Consultores.

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