Domingo, 22 de setembro de 2019

ISSN 1983-392X

Caio Cesar Rocha: inteligência artificial é aliada, não inimiga

O advogado Caio Cesar Rocha analisa como a tecnologia revolucionará o mercado de trabalho e o Poder Judiciário.

sexta-feira, 14 de junho de 2019

tVocê já viu esse filme: num futuro não tão distante, homens disputam com máquinas superinteligentes que tentam destruir a humanidade. O enredo batido pertence ao campo da ficção científica. No mundo real, nenhum prognóstico sério aponta que robôs irão aniquilar nossa espécie nas próximas décadas. O que eles provavelmente farão, segundo a maioria das previsões, é aniquilar o seu emprego. E isso pode ser bom, acredite. Quer um exemplo?

 

A Amazon usa 100 mil robôs em seus centros de logística nos Estados Unidos. Os efeitos diretos do crescimento no uso das máquinas foram o aumento na produtividade, nas vendas e, consequentemente, a abertura de novos postos de trabalho. Hoje, 125 mil pessoas trabalham nos depósitos da empresa.

 

Agora, outro gigante varejista, o Walmart, investe pesadamente na automatização de suas lojas físicas e online. A rede de supermercados também está contratando mais mão de obra humana.

 

Profissões antigas estão sumindo para que outras novas surjam. Segundo um levantamento do Fórum Econômico Mundial, máquinas executarão mais tarefas do que pessoas até 2025. Nesse período, contudo, a robótica criará outros 58 milhões de empregos.

 

Às portas do Século XXI

 

Há alguns anos os futurologistas fazem suposições sobre como serão as relações de trabalho. Pra tentar antecipar o que acontecerá lá na frente, eles olham para o passado e para o presente. O professor de história Yuval Noah Harari, escritor de best-sellers admirado por Bill Gates, fez esse exercício no seu recente 21 Lições Para O Século 21.

 

“Os temores de que a automação causará desemprego massivo remontam ao século XIX, e até agora nunca se materializaram”, afirma Harari em seu livro. “Mas há boas razões para pensar que desta vez é diferente, e que o aprendizado das máquinas será um fator real que mudará o jogo”, conclui.

 

Segundo o pensador, nós temos dois tipos de habilidades, a física e a cognitiva. Na época da Revolução Industrial, a tecnologia começou a substituir os humanos na lida braçal. Mas as pessoas se mantiveram à frente das máquinas em capacidade mental.

 

Isso começou a mudar. Com avanços no campo da inteligência artificial e da biotecnologia, os computadores já são capazes de aprender por conta própria. Também conseguem compreender emoções e comportamentos humanos. Por isso, estaríamos diante de uma nova revolução tecnológica, na qual a robótica nos substituiria em nossa capacidade cognitiva.

 

Segundo sugere um relatório da McKinsey Global Institute, até o ano 2055, metade dos trabalhos do mundo, o equivalente a cerca de 1,1 bilhão de empregos, passará a ser automatizado. Novas profissões e ocupações surgirão.

 

Contudo, em algumas décadas, segundo vasta análise da Brookings Institution, trabalhadores com menores salários e baixos graus de especialização estarão mais vulneráveis. Em contrapartida, profissionais bem formados e que trabalham em áreas que envolvem habilidades sociais e alto grau de inteligência emocional se manterão em seus postos.

 

Um dos estudos mais citados por quem se arrisca a fazer adivinhações sobre o futuro foi realizado em 2013. Cientistas da Universidade de Oxford, no Reino Unido, analisaram os possíveis impactos da automação em 702 profissões diferentes nos Estados Unidos. Concluíram que 47% delas correm risco de serem suplantadas por robôs.

 

Funcionários de telemarketing, caixas de supermercado, analistas de crédito, segundo o estudo, têm de 97% a 99% de chances de desaparecerem. Sou advogado. Segundo os pesquisadores de Oxford, assistentes jurídicos têm 94% de chances de serem substituídos por programas de computador. Isso, aliás, já está acontecendo atualmente. Pequenas atividades do direito que eram conduzidas por gente, agora, são tocadas por softwares.

 

Minha profissão continua existindo. Mas, talvez, não por muito tempo. O historiador Harari acredita que algumas áreas da advocacia serão totalmente tomadas pelas máquinas. Ele não está sozinho. Há onze anos, o estudioso britânico Richard Susskind publicou o livro The End Of Lawyers – Rethinking The Nature Of Legal Services, em que prevê a transformação da profissão a tal ponto em que muitas atividades desempenhada por advogados poderiam se tornar desnecessárias.

 

Algoritmos no direito

 

Pode-se pensar que um mundo livre de advogados é algo positivo. Mas experiências com inteligência artificial no direito ainda precisam ser aperfeiçoadas antes de substituírem os profissionais do Judiciário como um todo – não só os advogados, mas também juízes e promotores estão no alvo.

 

Há três anos, um algoritmo usado pela Justiça dos Estados Unidos causa controvérsias. O programa, chamado Compas (sigla em inglês para Correctional Offender Management Profiling for Alternative Sanctions), foi desenvolvido para avaliar o grau de periculosidade de criminosos e ajudar a definir suas sentenças.

 

O problema: depois de avaliar sete mil condenações diferentes dadas pelo Compas no estado de Wisconsin, a ProPublica, uma organização de jornalismo investigativo, descobriu que as penas de minorias, como negros e latinos, eram mais severas do que as dos brancos. Um detalhe importante: informações sobre a raça dos prisioneiros não eram fornecidas ao algoritmo. Como, então, os resultados foram tão discrepantes?

 

Algoritmos são fórmulas matemáticas usadas para responder problemas. Eles se valem de bancos de dados e de cruzamentos de informações para apresentar os resultados. No caso específico do Compas, eles usaram informações do Judiciário americano. Segundo a ProPública, as injustiças e preconceitos do sistema penal do país foram carregadas pra dentro do algoritmo. Dessa maneira, o banco de dados enviesado levou a máquina a aprender a julgar de maneira igualmente enviesada.

 

“Os dados do passado podem ser tendenciosos”, afirmam em artigo sobre o assunto os professores de estatística e ciência de dados Sofia Olhede e Patrick Wolfe, respectivamente, da University College London e da Purdue University. “Isso deve ser considerado para evitar a perpetuação ou a criação de práticas discriminatórias”, concluem. Para o algoritmo funcionar bem, é preciso fazer correções. Para que ele seja imparcial, o negócio é mais complexo.

 

A humanidade levou séculos para desenvolver sistemas legais mais justos e modelos de governo mais democráticos. Ainda assim, eles são imperfeitos e desiguais. Agora, caberá à inteligência artificial aperfeiçoar nossas criações e conceber outras novas. Tudo isso em bem menos tempo. Melhor assim, ter nas máquinas poderosas aliadas. E deixar que apenas na ficção científica elas sejam nossas arqui-inimigas.

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Caio Cesar Rocha é advogado especializado em arbitragem e visiting scholar pela Columbia Law School.

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