Segunda-feira, 14 de outubro de 2019

ISSN 1983-392X

Imperdível: O que você precisa saber sobre as novas profissões jurídicas

Marcílio Guedes Drummond

A receita “tradicional” de como seguir e crescer em uma carreira jurídica dificilmente será ainda a mais adequada em tempos de startups, nova economia, era dos dados. A solução, então, é ampliar o repertório para fora do direito (multidisciplinariedade), abandonar o pensamento jurídico tradicional (com mais tecnologia, design thinking, pensamento “startupês”, conhecimento de mercado, futurismo, empreendedorismo etc.) e cuidar as Soft Skills (“habilidades humanas”).

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Já pensou em ter um "Waze Jurídico", para guiar os caminhos dos profissionais do Direito?

O Waze é o mais famoso app de GPS Colaborativo da atualidade. Um GPS nada mais é do que um sistema de posicionamento global, comumente utilizado para ajudar o usuário a se posicionar adequadamente e encontrar o melhor caminho para seguir até o seu destino. Adicionalmente, quando ele é colaborativo - como o Waze - significa que o usuário é ajudado por outras pessoas, que, ou já passaram anteriormente por algum caminho e podem alertar aos demais usuários sobre algo, ou que, de alguma outra maneira possuem informações relevantes aos demais usuários.

Este artigo, então, foi criado para ajudar aos profissionais jurídicos a se situarem neste mundo da cibernética, do data-driven, V.U.C.A. e de consequentes mudanças profundas no campo do Direito. Vou mostrar os nomes das “ruas” de possíveis caminhos a serem percorridos.

A realidade é que a tecnologia transforma nosso mundo e o campo jurídico está sendo agitado e rearranjado como nunca antes.

Vejo vários colegas profissionais jurídicos perdidos nesse novo cenário e tantos outros simplesmente ignorando as profundas mudanças mercadológicas. Talvez seja o forte “modelo mental” tradicional que impede a visão das novas oportunidades.

Chegou o momento das carreiras jurídicas alternativas, ou não tradicionais.

O Mundo V.U.C.A.

Primeiro, é importante alertar para o mundo V.U.C.A. no qual estamos vivendo, para entender mais sobre os rearranjos da sociedade, das profissões, dos negócios, do dinheiro.

Na verdade, VUCA é um acrônimo. Significa Volátil, Incerto, Complexo e Ambíguo - as iniciais são provenientes da língua inglesa: volatility, uncertainty, complexity, and ambiguity).

A Volatilidade se refere à velocidade da mudança em uma indústria, um mercado ou no mundo em geral. Está associada a flutuações na demanda, bem como às turbulências e o pouco tempo de rearranjo para os mercados. Quanto mais volátil é o mundo, mais rápidas as coisas mudam.

Por sua vez, a incerteza se refere à medida em que podemos prever com confiança o futuro. Parte da incerteza é percebida e associada à incapacidade das pessoas de entenderem o que está acontecendo. Quanto mais incerto o mundo, mais difícil é prever

A complexidade, nada mais é do que o número de fatores que precisamos levar em conta, suas variedades e as relações entre eles. Quanto mais fatores, maior a variedade e quanto mais interligados, mais complexo é o ambiente. Sob alta complexidade, é impossível analisar completamente o ambiente e chegar a conclusões racionais. Quanto mais complexo o mundo, mais difícil é analisar.

A ambiguidade, por fim, se refere à falta de clareza sobre como interpretar algo. Uma situação é ambígua, por exemplo, quando a informação é incompleta, contraditória ou muito imprecisa para tirar conclusões claras. Quanto mais ambíguo o mundo é, mais difícil é interpretar.

O que o mundo V.U.C.A. significa então, é que precisamos ter flexibilidade mental para nos reinventarmos rapidamente. Eu sei que isso não é fácil, por isso, este texto tem a intenção de ajudar.

Apenas 15% dos trabalhos permanecerão

Uma importante pesquisa encomendada pela Dell Technologies, para o Institute for the Future (IFTF) revela que 85% dos trabalhos que existirão em 2030 ainda não foram inventados. Isso significa que, dos trabalhos, da forma como você conhece agora, apenas 15% permanecerão.

A leitura que se deve ter disso é o profundo rearranjo que ocorre em nossa sociedade.

Especificamente no campo do Direito, o conhecimento jurídico está cada vez mais acessível às pessoas, em função do rápido e fácil compartilhamento das informações, por todo o mundo, propiciadas pela criação e expansão da internet.

Nesse cenário, o que ocorre é que este conhecimento passa pelo processo de comoditização, portanto, a perder fortemente o seu valor na percepção da sociedade. Assim, ter o conhecimento jurídico apenas, é muito pouco, de modo os profissionais do Direito precisam investir em aquisição de repertório amplo e variado, sobretudo relacionados à Soft Skills (habilidades humanas), tecnologia e inovação.

O que ocorre é que estas mudanças representam grandes oportunidades para os profissionais do Direito, que podem recriar suas profissões e criarem um repertório próprio.

Os avanços tecnológicos estão criando carreiras jurídicas alternativas e transformando a maneira como o campo jurídico é praticado.

Por outro lado, não nego que o Direito é tradicionalmente lento para se adaptar às mudanças, ainda mais porque os profissionais jurídicos com visão tradicional também são lentos para mudanças e normalmente avessos à tecnologia, ao design, ao empreendedorismo e às inovações, em geral.

Ocorre que essa é uma boa notícia para os que ousarem “virar a chave” desde já, porque trabalhos relacionados à tecnologia abundam neste novo cenário jurídico e muitos outros ainda serão criados.

A Cibernética e o Mundo data-driven

Estamos vivendo a Era da 4ª Revolução Industrial, guiada pela Cibernética, o que gera uma grande quantidade de dados, mas muitas pessoas não param para interpretar o que isso significa.

Estamos atualmente no mundo “data-driven” (guiado por dados), o que muda totalmente a lógica da tecnologia, da sociedade, de como fazer negócios.

No mundo do compartilhamento dos dados, as máquinas compartilham dados entre elas, compartilham dados com os humanos e os humanos compartilham dados entre eles (vide as redes sociais).

O que isso significa é que quase tudo neste contexto acontece muito mais rápido e é potencialmente escalável. Neste cenário é possível criar do zero uma startup e ela, em 5 anos, valer mais de 15 bilhões de dólares.

Veja que o termo "cibernética" foi cunhado em 1946, por Norbert Wiener. O que ele fez foi criar uma nova área de estudo e uma nova maneira de olhar o mundo. Ele acreditava que o mundo se moldaria para termos um novo tipo de feedback (mais detalhado, constante e objetivo) de sistemas biológicos, técnicos e humanos. Perceba que o que temos atualmente no mundo guiado por dados é exatamente isso.

Portanto, a Cibernética não é uma criação recente e sua evolução segue a Amara Law, que diz que "Nós tendemos a superestimar o efeito de uma tecnologia a curto prazo e subestimar o efeito a longo prazo”. Estamos agora sentindo o efeito de “longo prazo” desta tecnologia iniciada em 1946: a Era dos Dados.

O mundo está se movendo na velocidade da luz em direção a uma realidade mais tecnologizada. Podemos chamar isso de revolução digital, a quarta revolução industrial ou a era do computador (se você é de uma certa “safra”).

Em geral, ainda estamos chocados com o volume de dados gerado todos os dias - porém, alerto que, por outro lado, há diversas pessoas que sequer percebem isso em seus cotidianos -. As conversas, por todo o mundo, ainda são sobre o que fazer com todo esse poder de computação e todos esses dados. Fala-se ainda sobre como “limpar” os dados adequadamente para maior evolução da Inteligência Artificial.

A verdade é que neste mundo “V.U.C.A. digital” os profissionais (inclusive jurídicos) precisam desenvolver a capacidade de fazer as perguntas certas. Para isso, é necessário, repito, um amplo repertório, integrando ciência da computação, teoria de sistemas,  psicologia, antropologia, Direito, Marketing e assim por diante.

As 19 novas profissões jurídico-tecnológicas já existentes

A minha promessa, no início deste texto, foi a de mostrar os nomes das “ruas” de possíveis caminhos a serem percorridos no mundo jurídico da tecnologia. É uma analogia às novas profissões jurídico-tecnológicas. Vamos a elas:

1- Head de Inovação em escritório de advocacia

A grande necessidade de mudança no mundo jurídico e a tradicional mentalidade jurídica avessa às mudançasImagem relacionada rápidas faz surgir a necessidade do profissional jurídico que saiba dialogar entre inovação e modelos tradicionais, com uma ampla gama de conhecimentos relacionados à tecnologia, legal design, futurismo, marketing, growth hacking, modelos educacionais, comportamento, entre outras habilidades tipicamente não jurídicas. É trabalho desse profissional introduzir nos escritórios a semente de uma nova cultura necessária para o sucesso no mundo data driven, bem como auxiliar na ampliação da gama de clientes (sobretudo aqueles relacionados à tecnologia, inovação e startups).  

2- Empreendedor em Lawtechs/Legaltechs

As crescentes mudanças no mundo jurídico têm gerado muitas oportunidades para os profissionais que desejam criar e empreender por meio de Lawtechs, seja criando soluções para as demandas jurídicas, seja melhorando o trabalho dos profissionais do Direito. Nesse contexto, inclusive, é que o crescimento em Lawtechs no ano de 2018 foi de incríveis 718%.

Neste contexto, é importante desenvolver diversas competências típicas a um empreendedor, como senso de oportunidade, dominância, poder de realização, autoconfiança, otimismo, dinamismo, independência, persistência, flexibilidade e resistência a frustrações, criatividade, propensão ao risco, liderança carismática, habilidade de equilibrar sonho e realidade, habilidade de relacionamentos, dentre outras. Perceba aqui o grande enfoque às Soft Skills (habilidades humanas) e menos às Hard Skills (habilidades técnicas), tendência já abordada pelo Fórum Econômico Mundial.

3- Desenvolvedor de negócios em Lawtechs

O profissional jurídico que trabalha como Desenvolvedor de negócios em Startups Jurídicas possui responsabilidades que podem envolver o mapeamento e gestão do relacionamento com clientes, capacidade de negociação e visão empreendedora, compreensão dos conceitos da indústria 4.0, capacidade de utilização das ferramentas relacionadas,  capacidade de performar como um Business Data Analyst Developer (BDAD), visualizando oportunidades de integração, análise e visualização de dados, tendo uma lente de Artificial Intelligence (AI) Insights; dentre outras habilidades humanas (soft Skills) e tecnológicas. Muitas das habilidades típicas ao empreendedor são importantes aqui também.

4- Gerente de privacidade

O Regulamento Geral de Proteção de Dados da União Européia causou uma corrida para contratar profissionais de privacidade, mas as empresas descobriram que a especialização necessária era rara no mercado. Assim essa tem sido uma grande oportunidade para quem tem estudado proteção de dados, com preparação para departamentos de privacidade corporativa, onde os profissionais possam assumir a responsabilidade de compilar e utilizar as leis de privacidade e garantir que as equipes de desenvolvimento de produtos planejem privacidade desde o início (by design) e por padrão (by default) . Estes profissionais podem trabalhar também em empresas que consultam e aconselham outras empresas sobre programas de privacidade.

5- Operações Jurídicas

O trabalho em "operações legais" (legal ops) é uma tendência no mundo da carreira profissional.

Estes profissionais ajudam os departamentos jurídicos internos a construir a infraestrutura técnica para administrar melhor esta área. Por exemplo, eles podem desenvolver um sistema de software para processar faturas externas enquanto coletam e analisam dados sobre faturamento que podem ajudar o departamento a economizar dinheiro.

6- Arquiteto de soluções jurídicas

Escritórios de advocacia e organizações de assistência jurídica também estão apostando em "operações legais", mas eles usam uma “linguagem” diferente. O arquiteto jurídico é o profissional capaz de trabalhar e entender os processos e dados envolvidos no problema de um cliente, para, a partir dos dados coletados,  pensar soluções a serem implementadas em conjunto com um engenheiro jurídico.

7- Engenheiro Jurídico

O Engenheiro jurídico é o profissional do direito capaz de criar conteúdo lógico-jurídico. Ele é capaz de “ensinar” ao computador quais são as regras, princípios e soluções lógicas. É a fusão do advogado com o programador, sendo sua função ajudar os clientes a criar sistemas jurídicos especializados.

8- Analista de dados

O Big Data, ou seja, a análise de enormes quantidades de dados, entrou no mundo jurídico com força total. O trabalho do Analista de dados é usar os dados judiciais e informações de casos semelhantes, por exemplo, em sistemas de aprendizado de máquina e de inteligência artificial para ajudar os operadores do direito a prever os resultados de questões jurídicas. O profissional jurídico com habilidades de analista de dados, que tenha conhecimento de propriedade intelectual e industrial possui grandes oportunidades pela frente.

9- Profissional de segurança cibernética

Anúncios embaraçosos de empresas sobre violações de segurança cibernética tornaram-se comuns e a ameaça não desaparecerá tão cedo. Isso está criando oportunidades de carreira para graduados em faculdades de direito que podem ajudar empresas a lidar com vulnerabilidades, responder a falhas de segurança, lidar com preocupações de consumidores, trabalhar com reguladores do governo e garantir que recursos de segurança adequados sejam projetados para os produtos das empresas.

10 - Conformidade com código aberto

Os profissionais jurídicos estão encontrando carreiras em empresas de software, usando ferramentas eletrônicas para escanear novos aplicativos para códigos open source (códigos abertos) e garantindo que a empresa esteja cumprindo as licenças e os direitos de distribuição para esse código.

11 - Gerente de projetos para tecnologia

Grandes empresas de tecnologia têm grandes departamentos jurídicos que frequentemente contratam graduados em direito como gerentes de projeto. Esses gerentes de projeto negociam, mantêm e renovam contratos, bem como garantem que a empresa cumpra com os termos do contrato.

12 - Compliance Pro

A tecnologia está ajudando imensamente os graduados em Direito que realizam trabalhos em Compliance (“conformidade”). Esses funcionários usam software para ajudar a rastrear questões como a conformidade da cadeia de suprimentos, o que garante que os materiais usados ??na fabricação sejam provenientes de fontes legais e que os fornecedores cumpram os requisitos contratuais. E veja, será cada vez fácil rastrear, já que a tecnologia blockchain está desenvolvendo muito essa questão.

13 - Gerente de conhecimento

Grandes escritórios de advocacia contratam gerentes de conhecimento para desenvolver bancos de dados internos, kits de ferramentas de prática e outros recursos, além de criar sistemas para tornar as informações facilmente acessíveis a todos na empresa.

14 - Gerente de risco

Os clientes corporativos passam toneladas de dados confidenciais para seus escritórios de advocacia, mas o que acontece quando os crackers têm como alvo os sistemas de TI das empresas? Os escritórios de advocacia começaram a contratar gerentes de risco, ou agentes de proteção de privacidade de dados, para ajudá-los a avaliar riscos, obter seguros para violações e reforçar a segurança em seus sistemas internos. O papel requer um alto nível de conhecimento tecnológico, e ser graduado em direito ajuda muito a entender os reais risco do tratamento de dados.

15 - Oficial de transferência de tecnologia

Grandes empresas de tecnologia têm inúmeras preocupações no campo da propriedade intelectual, sendo uma delas como comercializar seus esforços de pesquisa e desenvolvimento. Elas contratam agentes de transferência de tecnologia, ou profissionais de comercialização de tecnologia, para proteger a propriedade intelectual de suas inovações no cenário mundial e para identificar possíveis compradores ou licenciados da tecnologia.

Esses profissionais também monitoram as licenças e os usos.

16 - Especialista em proteção de propriedade intelectual na indústria da moda

Você já pensou que as impressoras 3D pudessem atrapalhar a indústria da moda? Ocorre que qualquer um que tenha uma impressora 3D pode baixar um projeto e imprimir uma cópia. Com essa situação, os litígios pelo mundo envolvendo violações de propriedade intelectual estão aumentando e as empresas de moda estão contratando especialistas em proteção de propriedade intelectual que conheçam da tecnologia de impressão 3D.

17 - Proteção de ativos digitais

Os ativos digitais são itens como contas bancárias on-line, propriedade intelectual, documentos comerciais, informações financeiras e contas de mídia social. Muitas empresas hoje têm muito valor em ativos digitais, por isso estão contratando funcionários que se concentram exclusivamente na proteção desses ativos.

18 - Profissional de apoio a litígios

Contencioso em grande escala vem com grandes volumes de dados. Graduados em Direito com conhecimento em tecnologia podem ajudar advogados executando bancos de dados para obter informações, oferecer suporte e treinamento em sistemas de software, coordenar atividades com fornecedores de tecnologia e até mesmo ajudar a administrar a tecnologia nos tribunais.

19 - Consultor de eDiscovery

Cada vez mais atividades de negócios são divulgadas online, seja por meio de e-mail ou em mídias sociais. A quantidade de dados e evidências “deixadas para trás”, ou seja, disponíveis na internet, parece nunca terminar. Não é de admirar que a eDiscovery (“descoberta eletrônica”) esteja cada vez mais complexa e cara, dando origem a diversas soluções tecnológicas e a várias empresas  em busca de resolver a questão. Como um consultor de descoberta eletrônica, uma pessoa com experiência em direito pode determinar rapidamente quais informações são relevantes para os advogados e seus casos.

Após as contextualizações iniciais do mundo V.U.C.A, das mudanças das profissões e da cibernética, bem como da apresentação de algumas profissões jurídicas “fora dos padrões tradicionais”, o maior aviso deste “Waze Jurídico” é que o profissional do direito entenda que estamos passando por mudanças extremamente profundas. Inclusive, as novas profissões abordadas neste texto não fazem parte de um rol exaustivo, já que a cada dia novas oportunidades são criadas no mundo V.U.C.A.

A receita “tradicional” de como seguir e crescer em uma carreira jurídica dificilmente será ainda a mais adequada em tempos de startups, nova economia, era dos dados. A solução, então, é ampliar o repertório para fora do direito (multidisciplinariedade), abandonar o pensamento jurídico tradicional (com mais tecnologia, design thinking, pensamento “startupês”, conhecimento de mercado, futurismo, empreendedorismo etc.) e cuidar as Soft Skills (“habilidades humanas”).

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*Marcílio Guedes Drummond é sócio do escritório Marcelo Tostes Advogados.