Segunda-feira, 20 de maio de 2019

ISSN 1983-392X

O pai do Junqueirinha

Sérgio Roxo da Fonseca

Manoel Octaviano Junqueira Filho devotou sua vida ao Ministério Público. Para valer-me de palavras que Fernando Pessoa atribuiu aos antigos navegantes portugueses, diria que esse grande homem transformou a sua alma na lenha para aquecer a chama do seu ideal de servir o próximo. Para os amigos, o dr. Manoel Optaciano Junqueira Filho era o Junqueirinha. O presente texto tem o objetivo de documentar um fato de sua vida. E da minha também.

segunda-feira, 9 de outubro de 2006


O pai do Junqueirinha

 

Sérgio Roxo da Fonseca*

 

Manoel Octaviano Junqueira Filho devotou sua vida ao Ministério Público. Para valer-me de palavras que Fernando Pessoa atribuiu aos antigos navegantes portugueses, diria que esse grande homem transformou a sua alma na lenha para aquecer a chama do seu ideal de servir o próximo. Para os amigos, o dr. Manoel Octaviano Junqueira Filho era o Junqueirinha. O presente texto tem o objetivo de documentar um fato de sua vida. E da minha também.

Na década de setenta, havia um pequeno espaço no restaurante do fórum cível de São Paulo no qual eram atendidas as pessoas que passavam por ali correndo para as salas de audiência. Para usar um jargão de hoje, era de alta rotatividade o serviço de almoço. Severino era o garçom.

Num dia perdido no passado, mas guardado na memória, sentei-me na mesa já ocupada pelo Junqueirinha e pelo Frederico. Frederico foi o primeiro a terminar sua refeição. Despediu-se e saiu para suas audiências.

O Severino aproximou-se e comunicou ao Junqueirinha que, contrariando a sagrada regra da casa, o Frederico havia pago a sua conta. Ou seja, a conta do Junqueirinha que, delicadamente, não conseguiu conter o seu desagrado. Pensei que a contrariedade dele era mais formal do que material. Coisas de amigos. O Junqueirinha permaneceu fazendo-me companhia, falando das nossas raízes ribeirãopretanas.

Quando fui pagar a minha conta, o Severino me contradisse, comunicando que o dr. Junqueira já a havia pago.

Foi a minha vez de fazer um pouco de fita. - Você reclamou do Frederico porque pagou a sua conta e agora recidiva no erro, pagando a minha? - Vou-lhe contar a minha história, respondeu ele.

Meu pai foi o orador da turma paraninfada por Rui Barbosa, que não se fez presente na cerimônia, mas que mandou outro ler a “Oração aos Moços”.

Logo após a colação de grau meu pai casou-se com minha mãe e foram para Jaboticabal onde começou a advogar. Minha mãe ficou grávida. Antes do meu nascimento, meu pai morreu.

Tenho saudades de um homem que não conheci. Não pude pagar para ele sequer uma refeição. Sinto muito por isso. Para matar as saudades, sempre pago a refeição dos meus amigos. Não pude pagar o almoço do meu pai, mas paguei o seu. Sou eu quem paga as contas dos meus amigos e não o contrário disso. Quero ver nos amigos a imagem do pai que irremediavelmente partiu antes da minha chegada. Quantas saudades. E mais não disse e nem lhe foi reperguntado.

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*Procurador de Justiça aposentado do Ministério Público de São Paulo, professor das Faculdades de Direito da UNESP e do COC e advogado.





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