Terça-feira, 23 de julho de 2019

ISSN 1983-392X

A corrupção dos miseráveis

Sylvia Romano

Conversando com amigos, vejo que a corrupção atingiu todos os níveis sociais, morais e intelectuais. Se já não é mais surpresa a prática entre indivíduos do alto escalão, o que falar da classe mais humilde, que nunca pôde ter a menor noção de ética e cidadania? Não é preciso ir muito longe para perceber que a corrupção está generalizada. O pobre de hoje virou comodista, pois já perdeu todos os seus sonhos e expectativas quanto a um futuro melhor.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2006


A corrupção dos miseráveis

Sylvia Romano*

Conversando com amigos, vejo que a corrupção atingiu todos os níveis sociais, morais e intelectuais. Se já não é mais surpresa a prática entre indivíduos do alto escalão, o que falar da classe mais humilde, que nunca pôde ter a menor noção de ética e cidadania? Não é preciso ir muito longe para perceber que a corrupção está generalizada. O pobre de hoje virou comodista, pois já perdeu todos os seus sonhos e expectativas quanto a um futuro melhor. E como se não bastasse, percebeu que sem trabalhar consegue manter — e em alguns casos até melhorar — o padrão que tinha enquanto era um simples empregado.

São cada vez mais comuns casos de trabalhadores que pedem para ser demitidos vislumbrando, por exemplo, o recebimento do seguro-desemprego, mesmo que por um pequeno período. Nesse meio tempo, eles caem no mundo da informalidade fazendo alguns “bicos” e garantindo o sustento em casa. Outras vezes, chegam até a arrumar um novo emprego, mas com a condição sine qua non de não serem registrados enquanto tiverem “direito” ao benefício. E assim, o que era para ser apenas uma “assistência financeira” excepcional, virou regra.

Infelizmente, essa corrupção dos miseráveis tende a se expandir ainda mais. Outro dia, soube de uma história similar: O zelador de um prédio em Natal (RN) pediu a um amigo que intercedesse junto à administração do condomínio onde trabalhava para que o demitissem. Estranhando o pedido — afinal, era com aquele emprego que o mesmo sustentava a esposa e os dois filhos —, o amigo quis saber o motivo. Qual não foi sua surpresa quando o colega lhe contou que seus dois cunhados desempregados, também em Natal, por conta da bolsa-escola, cartão-cidadão, cartão-alimentação, vale-gás, transporte gratuito, vale-refeição (acreditem!) e demais benfeitorias dado a título de esmola pelo nosso probo governo, vivem melhor do que ele como zelador. O pior é que, se fizermos as contas, veremos que o trabalhador tem razão. Vejam:

  • Bolsa-escola: R$ 175,00 para cada filho que freqüente as aulas. Supondo que sejam somente dois, são R$ 350,00 (em dinheiro);
  • Cartão-cidadão (cuja finalidade é restituir a cidadania): R$ 350,00 (também em dinheiro);
  • Vale-gás: R$ 70,00;
  • Transporte: R$ 8,00/dia. Considerando-se uma média de quatro passagens diárias, resulta em R$ 160,00;
  • Vale-refeição: R$ 3,50/dia. Calculando-se para quatro pessoas (ele, a esposa e os dois filhos), soma R$ 420,00;

Total em dinheiro: R$ 700,00

Total em serviços: R$ 650,00, equivalendo a R$ 1.350,00 mensais

Motivo do pedido do zelador: O seu salário acrescido de horas extras girava em torno de R$ 830,00. Como ele tem três filhos em idade escolar, descobriu ser mais vantajoso ficar desempregado e passar a fazer jus a todos esses benefícios, já que sua renda mensal subiria para aproximadamente R$ 1.525,00 — quase o dobro do que ganha trabalhando.

Hoje, com os supersalários recebidos, inclusive e principalmente por autoridades dos Três Poderes, quem poderá julgá-los?

E quem paga por isso? Nós trabalhadores, que batalhamos dia-a-dia para tentar garantir um mínimo de dignidade para a nossa família. Sou favorável à distribuição de renda, mas da forma como vem sendo conduzida é um exagero. Ou melhor, como diria Boris Casoy — expurgado dos canais de televisão por se opor ao governo — “É uma vergonha!”.

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*Advogada do escritório Sylvia Romano Consultores Associados




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