Sábado, 20 de julho de 2019

ISSN 1983-392X

Violência no trânsito: a outra “guerra” nossa de cada dia

Luiz Flávio Gomes

Cerca de 35.000 mortes por ano, 400 mil feridos, 1,5 milhão de acidentes e custos (só dos acidentes nas estradas, em dezembro de 2005) de 22 bilhões de reais por ano (segundo pesquisa do Ipea - Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, que é órgão do governo federal). São quase 100 mortes por dia!

sexta-feira, 12 de janeiro de 2007


Violência no trânsito: a outra “guerra” nossa de cada dia

Luiz Flávio Gomes*

Cerca de 35.000 mortes por ano, 400 mil feridos, 1,5 milhão de acidentes e custos (só dos acidentes nas estradas, em dezembro de 2005) de 22 bilhões de reais por ano (segundo pesquisa do Ipea - Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, que é órgão do governo federal). São quase 100 mortes por dia! Os gastos citados (despesas materiais com veículos, hospitais, atendimento de urgência etc.) só se referem aos acidentes nas estradas. Não estão computados os gatos com acidentes urbanos (que girariam em torno de 6 bilhões). Ou seja: quase 30 bilhões de reais por ano são gastos com acidentes de trânsito. Isso equivale a 1,2% do PIB nacional. Nesse item o Brasil só perde para a África (são 18,7 vítimas para cada 100 mil habitantes; na África o total é de 28,3; EUA 15,2 e União Européia 11). Quando mais desorganização social, como se vê, mais acidentes. A conta é cara: cada morte no trânsito custa cerca de R$ 500.000,00.

Nossa violência endêmica intencional é étnica e racista. Aliás, nascemos sob o império da divisão: europeu de um lado e índios e escravos de outro. Uma “tribo” não aceita a outra. Os apartheids (sociais, econômicos, educacionais etc.) fazem parte da nossa cultura. Convivemos com a discriminação, segregação, favelização etc. Tudo isso está na origem da nossa “guerra civil” intencional diária. Mas ao lado da violência intencional há a não intencional: mortes em acidentes de trabalho, prédios e morros que desabam etc. Destaca-se, nesse âmbito, uma categoria: a violência no trânsito.

Como prevenir tantos acidentes e mortes? Nunca é demais recordar a teoria dos 3 “ês” de David Duarte Lima (Folha de S. Paulo de 15.01.05, p. A3): engenharia, educação e enforcement (fazer cumprir as leis por meio de rigorosa fiscalização).

A engenharia tem que construir boas estradas, com alto nível de segurança, bem sinalizadas; fazer de tudo para evitar a aquaplanagem, desenvolver técnicas que obriguem a redução da velocidade onde isso seja necessário etc. Lamenta-se que pouco disso esteja ocorrendo nas nossas estradas, ruas e vielas. A não duplicação da BR-101, até hoje, é um aberrante exemplo!

A alta velocidade, aliada quase sempre ao álcool, ainda que em estradas modernas e privatizadas, seria uma das causas mais freqüentes dos acidentes.

Considerando-se que todas essas rodovias contam com pedágios, parece muito simples (nelas) conter o excesso de velocidade: que o pedágio seja cobrado conforme a velocidade média desenvolvida em cada trecho. Quem excede em 50% a velocidade permitida, calculado pelo tempo gasto entre um pedágio e outro, pagaria o dobro do preço ou o triplo e assim por diante (numa tabela progressiva). Não podemos nos esquecer que o bolso (especialmente do brasileiro) ainda é a parte mais sensível do “corpo” humano!

Outra medida interessante vem sendo adotada nos EUA: é um bafômetro dentro do veículo que impede a partida do carro quando se constata excesso de álcool. Constitui um tipo de “nariz eletrônico”: “cheirou” álcool o carro não funciona. No Estado do Novo México (EUA) essa medida já reduziu em 11% o número de acidentes envolvendo motoristas embriagados (VEJA de 29.11.06, p. 102). No Brasil, 12,3% da população é dependente de álcool (considerando-se a faixa etária de 18 a 24 anos, 19% são dependentes – O Estado de S. Paulo de 23.11.06, p. C10). Essa combinação entre o álcool, o volante e a faixa etária é altamente mortal: 30% das mortes no trânsito estão relacionadas com o álcool (VEJA de 29.11.06, p. 103).

No que se relaciona com a educação no trânsito, tudo está por ser feito. Esse é o lado preventivo da violência, do qual poucos cuidam o Estado e a sociedade civil. Nossa formação étnica separatista está treinada só para atuar repressivamente! Em lugar de prevenir acidentes o poder público avisa, com placas, que os acidentes vão acontecer (“Curva perigosa, acidente iminente”, “Local de acidentes freqüentes” etc.). Cuida-se de uma auto-profecia que se cumpre corriqueiramente.

No que concerne ao enforcement (fazer cumprir as leis por meio de uma fiscalização eficiente) a maior dificuldade reside na cultura engendrada pela sociedade étnica dominante de “levar vantagem em tudo”, de “explorar o outro”, de disseminar a corrupção, saquear o dinheiro público etc. Queremos regras duras, porém, “para os outros”! Que o Código de Trânsito seja duro contra “os outros”, que as multas afetem “os outros” etc. Para nós, que o excesso de velocidade seja permitido, que o cinto de segurança não seja obrigatório, que as crianças fiquem soltas no veículo, que o capacete permaneça como protetor de cotovelo, que a embriaguez no volante seja liberada etc.

Não temos que reinventar a roda: a responsabilidade não é só do Estado, também é da própria sociedade, dos motoristas, do sistema educacional etc. Cada qual tem que cumprir seu papel, jogando energia nos três “es”. Do contrário, nosso cenário de mortes violentas (leia-se: nossa guerra civil) perdurará eternamente.

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*Fundador e presidente da Rede de Ensino Luiz Flávio Gomes


 



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