Quarta-feira, 18 de setembro de 2019

ISSN 1983-392X

Informações biológicas às esposas traídas

Francisco Cesar Pinheiro Rodrigues

Na qualidade de magistrado aposentado, com alguma freqüência sou consultado por cônjuges sobre se devem, ou não, se separar judicialmente. Querem saber o que acontecerá no misterioso e algo temido “amanhã”.

terça-feira, 30 de janeiro de 2007


Informações biológicas às esposas traídas

Francisco Cesar Pinheiro Rodrigues*

Na qualidade de magistrado aposentado, com alguma freqüência sou consultado por cônjuges sobre se devem, ou não, se separar judicialmente. Querem saber o que acontecerá no misterioso e algo temido “amanhã”. Dúvidas sobre como poderão fazer a divisão dos bens, quais os limites da eventual pensão alimentícia (a parte mais difícil), a guarda e visita dos filhos e as demais questões, já bem conhecidas, que acompanham toda separação.

Sem dúvida, dispensadas as variadas estatísticas de país para país, a infidelidade dos maridos é o que mais leva as esposas a buscar a separação. E como o signatário desta tem — mesmo sem formação especializada — uma inescondível curiosidade pelo lado mais polêmico da conexão Direito-Biologia, penso não ser inútil transmitir às esposas traídas alguns informes — e meras intuições — que possivelmente as ajudarão a formar um quadro mais completo do problema que as atormentam, aproximando-as de uma decisão mais sensata. Ou, pelo menos, de uma decisão da qual não se arrependam daqui a uns poucos anos. Mesmo decisões estritamente legais e sensatas (para o momento) podem trazer mais arrependimento do que felicidade. E aí será tarde, porque o tempo consolida tanto as decisões certas quanto as erradas. Há quem diga que o segundo casamento só é mais duradouro que o primeiro, não porque, necessariamente, foi encontrada “a pessoa certa”, mas porque o homem, exausto dos problemas oriundos da separação, já não tem mais paciência — e dinheiro — para enfrentar nova batalha, ou guerrilha. Vai levando...

Para início de consideração, é preciso admitir, ainda que com certa repugnância moral, que o homem, só pelo fato de ser homem — segundo o Cristianismo, “feito à imagem e semelhança de Deus”, um insulto à competência manufatureira do Criador — não é um ser desligado da Biologia. Basta ver que possui unhas, pêlos, barba, saliva, caninos (próprios para dilacerar a carne) e inúmeros outros atributos desnecessários a um ser espiritual. Sabe dar coices com os quatro membros (artes marciais), ronca, sua, cheira forte (quando não remove o suor e às vezes mesmo o removendo). É naturalmente glutão, mandão, babão, sensual, ambicioso, astuto, invejoso e por vezes traiçoeiro. Quando fortemente desafiado e certo da impunidade atreve-se às maiores atrocidades. Quem duvidar disso não precisa se informar em livros de Patologia Forense, basta ler alguns capítulos de História Universal. Como simples exemplo, mencione-se que os colonizadores espanhóis da Patagônia, revoltados com o fato dos índios não respeitarem suas cercas e comerem suas ovelhas — os nativos não tinham noção de propriedade privada e pensavam que as ovelhas eram uma espécie de lhamas — matavam-nos impiedosamente. Inclusive envenenando a carne de baleias encalhadas. Constatando, antes dos nativos, que uma baleia encalhara na praia, envenenavam, em segredo, sua carne porque sabiam que os índios se banqueteavam com tais volumosos presentes do mar. Logo após esses festins morriam centenas. Com tais práticas, “limparam a área”. A beleza local, para mim inesperada — vi isso pessoalmente — do extremo sul da Patagônia esconde um passado tenebroso que nem convém lembrar.

Tais “qualidades” animalescas do ser humano, no entanto, tiveram sua utilidade para a preservação da espécie “Homo Sapiens” (outro elogio discutível). Fossem os nossos ancestrais das cavernas extremamente dóceis, propensos ao jejum, desinteressados de sexo e sem astúcia, a raça humana teria sido provavelmente extinta. Principalmente se o chamado sexo forte (hoje, outro elogio questionável) tivesse baixa sensualidade. Como as crianças morriam às moscas, vítimas de doenças, subnutrição e predadores, o macho das cavernas compensava esse massacre infantil — mesmo sem ter, claro, a menor consciência do porquê de sua gula sexual — fertilizando o máximo possível de fêmeas de seu grupo, ou grupo vizinho. Seguia o procedimento dos demais mamíferos, quase todos poligâmicos.

Haréns de fêmeas sempre foi a regra. A de machos, inexistente ou exceção. Quando se fala em “matriarcado” quer-se referir ao domínio (mando) do grupo pelas mulheres, não ao fato delas disporem, pelo que sei, de grande número de homens para com eles coabitar simultaneamente.

Essa poligamia natural do homem primitivo era uma forma grosseira, mas eficaz, de garantir a propagação da espécie não só em termos de quantidade de seres humanos como também de qualidade, porque o macho dominante — praticamente o único “dono das fêmeas” —, era o melhor portador e transmissor das qualidades genéticas então mais valiosas: força bruta, astúcia e agressividade. Fosse a monogamia, com absoluta fidelidade, a regra na evolução biológica dos mamíferos, a imensa quantidade de espermatozóides liberada em cada conjunção carnal seria totalmente desperdiçada porque a companheira, enquanto no estado de gravidez, torna-se estéril. Sementes desperdiçadas, portanto. Daí a incessante procura de novas parceiras carnais que poderiam gerar prole, compensatória não só da grande mortandade infantil como também da morte precoce de guerreiros ou caçadores, vitimados em constantes combates tribais ou com animais predadores. A própria gula, o comer exageradamente — hoje um vício bem desagradável de presenciar, mas não de praticar —, era também uma forma de “virtude”, porque nesses primitivos tempos, antes da agricultura localizada, não havia certeza alguma de que seria possível comer no dia seguinte. Um comedor moderado, hoje elogiado, tinha muito mais probabilidade de morrer de inanição do que um “guloso” que se empanturrava, formando reservas no fígado e no tecido adiposo, com isso resistindo mais à fome prolongada. Hoje, a gula é daninha porque no mundo civilizado temos alimento à nossa disposição pelo menos três vezes por dia.

Em suma, o homem atual — e as esposas traídas precisam lembrar-se disso —, é fruto da evolução animal de milênios, trazendo ainda consigo características primitivas que já tiveram sua utilidade em eras remotas. Uma delas, a propensão instintiva para a infidelidade.

Ocorre que, de uns séculos para cá, o homem — à maneira das cobras, que se livram da pele antiga — constatou que essas “qualidades” de seus ancestrais já não eram mais necessárias. Pelo contrário, tornaram-se defeitos. Não havia mais predadores naturais. Já não morriam tantos recém-nascidos. A força bruta do macho dominante tornou-se uma excrescência porque os machos fisicamente mais fracos, vivendo em sociedade, podiam se organizar e derrotar o biologicamente mais forte. Criou-se o Estado, esse ser poderoso, abstrato mas também de força bem concreta, que pode enforcar ou encarcerar o mais musculoso e agressivo componente do grupo. A monogamia — pelo menos a oficial —, tornou-se a regra. Se países muçulmanos ainda admitem a poligamia isso ocorre — segundo me foi informado por gente que conhece o assunto —, porque as tribos árabes viviam em constantes guerras, com grande número de guerreiros mortos. Seria necessário, portanto, um sistema de “fornecimento de vidas” mais eficaz que a monogamia. Daí a permissão para o muçulmano ter mais de uma esposa, se em condições de mantê-las.

E surgiu o Cristianismo, a religião inspirada nos anseios mais nobres do homem, vista aqui apenas pelo lado da feição humana. Querendo a paz entre os homens, uma das dimensões maiores dessa paz seria o casamento monogâmico, idealmente perfeito porque o número de homens e mulheres nascidos se equivale, aproximadamente. Cada um, com sua mulher, até o fim da vida e ponto final. Sem brigas e disputas pela mulher do próximo. Bom, teoricamente, para os cônjuges e não apenas teoricamente para os filhos, que sempre sofrem de alguma forma com a separação dos pais.

Entretanto, se essa é a boa teoria, a prática revelada no estudo do comportamento real mostra que a elegante capa do Cristianismo é um modelo feito por um alfaiate muito mais idealista do que atento ao real formato do quase-animal que irá vestir.

Estatísticas demonstram o elevado percentual de atos de infidelidade masculina em todos os países. É um dado da realidade, embora desagradável de saber. E só não aumentou ainda mais, recentemente, em razão do medo da AIDS. Como o bicho-homem tem alguns milhões de anos (se computado o período em que foi peixe), é natural que esse imenso e tenebroso passado faça-o contorcer-se e coçar quando lhe põem uma roupagem moral muito elegante, nobre mas um tanto em desacordo com sua natureza mais primitiva. É o mesmo que pegar um carvoeiro bronco — menciono essa profissão por imaginar que ela nem mais exista —, dar-lhe um banho, vesti-lo com fraque elegantíssimo e mandar que compareça a uma sofisticada recepção no Itamaraty, fingindo ser um diplomata. Depois de algumas horas de sofrimento, todo duro, os sapatos e o colarinho apertando, segurando uma taça de champanha que esvazia continuamente, vai acabar cometendo algumas gafes.

Essa gafe, no marido moderno, chama-se infidelidade. É o velho instinto represado que, meio adormecido, sente o que, para os cães, corresponderia ao “chamado das selvas”, do escritor Jack London, e que Robert Louis Stevenson imortalizou no seu “O médico e o monstro”.

Não estou aqui nem defendendo os “lobos” nem estimulando os hesitantes “quase-lobos”, que ainda vacilam em juntar-se à alcatéia. Apenas procuro entender e explicar o que ocorre na vida real. No círculo de relações de qualquer pessoa não é raro saber-se que o casal “x” está se separando porque houve traição. Na maior parte das vezes por parte de um homem maduro, que preferiu uma mulher mais jovem que a esposa. E para essa diferença etária parece que há também uma explicação biológica, sem conhecimento consciente do garanhão, algo retardatário, de cabelos grisalhos.

O homem, no caso, nem sabe que está sendo usado pela “sabedoria” embutida nos genes, o “board” que, a meu ver, comanda na surdina. Os genes sabem que mulheres mais jovens têm à frente um longo período fertilidade, bem maior que as mulheres maduras, que até podem estar estéreis em definitivo em razão da menopausa. A cintura fina das jovens — em contraste com os quadris largos —, que tanto atrai os homens, pode ser apenas um aviso biológico de que “o forno está vazio”— emitindo um sinal para “enchê-lo” com a gravidez. E os quadris largos aparentemente favorecem partos mais fáceis. Todas as características de atração feminina coincidem com maior saúde, boas para a gestação. O único item para o qual ainda não encontrei explicação biológica foi a excepcional importância da beleza do rosto feminino, um atrativo que nem sempre coincide com a boa saúde da mulher e sua aptidão para gerar prole vigorosa. Um tuberculosa, ou anêmica cancerosa, de rosto lindo, pode despertar paixões. Será a valorização da beleza fisionômica da mulher um sinal biológico de que o homem evoluiu extraordinariamente? Os animais são atraídos pelo cheiro, não pela beleza.

— Está bem! — dirá a leitora irritada com um enfoque tão “rasteiro” e biológico do seu problema. — Admito que ainda há muito de animal no homem, mas ele precisa se conscientizar de que não é mais um animal! É dotado de racionalidade! Fôssemos perdoar seu lado primitivo, não haveria porque existir a legislação penal. O homem, em situações extremas, mata, estupra, rouba e até tortura. Esses atos, pergunto, merecem “compreensão” porque foram espontâneos, resquícios de sua embutida animalidade?”

A leitora tem razão no acentuar seu idealismo. Mas minha intenção, aqui, não é “dar carta branca ao animal”. É mostrar todos os lados do fenômeno “infidelidade”, evitando a precipitação de logo procurar um advogado e entrar com pedido de separação. A primeira reação da esposa, principalmente quando o fato se tornou notório. Notadamente quando suas amigas também souberam do caso. — “Se pelo menos elas não soubessem...” — E tais amigas (“da onça”) por vezes contribuem para a decisão da separação. Parecem perguntar, sutilmente, nem que seja só com os olhos: — “Você não vai fazer nada?...” — Aí a traída faz, mas muitas vezes se arrepende. E não é impossível que a “amiga” esteja é de olho no marido da traída. A precipitação desta pode também ser uma reação prevista pela parte interessada, “a outra”, que está atrás de um marido e não de um amante casado. E sei de casos em que a esposa se arrepende. Para não mencionar eventuais situações de posições trocadas: o marido, já vivendo com “a outra”, visita a ex-esposa para conversar sobre filhos e aí acontece o que a moral e o brio não recomendam. A “ex” torna-se “a outra”, com toda a carga de auto-reprovação por ter cedido à tentação.

Nem sempre a solidão é melhor que a vida a dois. O “caso” pode ter tido raízes pouco profundas, ou até mesmo raiz alguma. É preciso lembrar que assim como “o malandro” enjoou da esposa pode também enjoar da “outra”. Conheço um caso assim. A empregada da casa, para agradar a patroa, contou lhe a conversa comprometedora que ouviu acidentalmente. A esposa reagiu no ato, ocorreu a separação e o marido teve que ir embora. Mas não para “ficar” com a causadora do problema. Ele não voltava ao lar porque ouviu tanto insulto que só lembrava da mulher como fonte agressora. Imaginava que, se voltasse, levaria uma vida de condenado em livramento condicional, constantemente vigiado, ouvidos estourando com constantes alusões ao seu erro. Preferiu viver sozinho, ou com um filho. E a ex-mulher também viveu sozinha, pelo que sei, duas solidões não felizes.

Como esta narrativa já está longa demais e a Internet não é o espaço mais apropriado para dissertações, deixo aqui mais uns curtos dados sobre o papel do mecanismo biológico que comanda a evolução das espécies, com repercussão nos seres humanos. Os ursos pandas estão em perigo de extinção. Quando em cativeiro é comum o casal não se reproduzir. Fiquei sabendo que em alguns zoológicos os cientistas fizeram de tudo para que o casal gerasse filhotes, mas em vão. Tentaram — isso não é imaginação minha, confiram na literatura própria — “quebrar o gelo” até com a exibição de “filmes pornográficos” — no caso, casais de pandas em pleno ato. E chegaram ao ponto — sentem-se para não cair — de ministrar “Viagra” ao panda macho, sem resultado. Agora — é apenas intuição minha — posso quase apostar que se na jaula fosse introduzida outra fêmea, ou macho, ou outros machos e fêmeas, a ciumeira acionaria o mecanismo biológico que levaria à fecundação talvez de todas as fêmeas. Isso porque a disputa, a concorrência, o ciúme, são mecanismos de seleção do melhor. Junte, leitor, a esta consideração este outro fato impressionante: o óvulo é fecundado, normalmente, apenas por um espermatozóide, mas se ele chegar sozinho ao óvulo este não o acolhe, não se abre, não ocorre a fecundação. Porque a “senhorita óvulo” faz questão de selecionar, escolher o melhor. Ela parece pensar assim: “Desculpe, meu caro, faço questão de escolher. Como vou saber que você é o melhor?”

Considerando tudo isso, essa carga biológica que ainda carregamos, renovo meu conselho às mulheres traídas: não se precipitem. A separação judicial só deve ser requerida quando a infidelidade representa um sinal de que todo o resto da convivência já é uma ruína. O marido que traiu — quando bom marido em tudo o mais e bom pai — sente-se intimamente mal quando a consciência o acusa. E esta o acusa com especial virulência quando vê, na esposa, uma companheira digna, educada, capaz de fechar os olhos e sofrer em silêncio por um curto período de tempo. Uma chance para que o lado bom, moral, do esposo prevaleça sobre o lado mais egoísta e animal que ele carrega involuntariamente.

Para aliviar o clima pesado das considerações acima é talvez lícito contar aqui uma anedota relacionada com o tema: um noivo, preocupado com suas tendências à, digamos, multiplicidade de amores, procurou o padre no dia anterior ao do casamento. Pediu-lhe um favor: que fingisse esquecer de mencionar a exigência de promessa formal de nunca trair a esposa, “até que a morte nos separe”, etc. Explicou que não pretendia ser infiel, mas gostaria de fazer isso “vindo do íntimo”, sem ser forçado em promessa formal no momento da cerimônia. Em troca, deu ao padre um cheque de cinco mil reais para ajudar a reforma da igreja, obras já em andamento mas em ritmo lento. O padre pegou o cheque e foi embora, sem nada responder. No dia seguinte, na cerimônia, o sacerdote, encarando o noivo nos olhos, exigiu, alto e bom som: — “Fulano de Tal, o senhor promete ser fiel até a morte? Trazer café na cama para sua esposa? Pagar, sem reclamar, todas as despesas com cartão de crédito, mesmo que as considere excessivas? Manter pelo menos duas empregadas e um motorista à sua disposição e nunca fazer nem cara feia?” Constrangido, o noivo concordou com tudo, mas logo após a cerimônia procurou o padre dizendo: “Pensei que tínhamos feito um trato...”, ao que o sacerdote devolveu o cheque de cinco mil e respondeu: “A noiva dobrou o lance”.

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* Desembargador aposentado do TJ/SP e Associado Efetivo do IASP - Instituto dos Advogados de São Paulo






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