Sexta-feira, 20 de setembro de 2019

ISSN 1983-392X

Os culpados só podem ter sido os 154 passageiros

Rosane Gutjhar

Depois de sete meses do maior acidente aéreo ocorrido no Brasil, em 29 de setembro de 2006, só podemos chegar a uma conclusão: os culpados pela tragédia foram os 154 passageiros do avião da Gol. Não há outra explicação.

sexta-feira, 25 de maio de 2007


Os culpados só podem ter sido os 154 passageiros

Rosane Gutjhar*

Depois de sete meses do maior acidente aéreo ocorrido no Brasil, em 29 de setembro de 2006, só podemos chegar a uma conclusão: os culpados pela tragédia foram os 154 passageiros do avião da Gol. Não há outra explicação.

Os pilotos norte-americanos desconheciam o funcionamento do transponder e desligaram o aparelho, conforme as informações da caixa preta do Legacy divulgadas pela imprensa. O desconhecimento deles não pode resultar em culpa pela morte de 154 pessoas. Não podem ser culpados, porque eles conseguiram salvar o avião que a empresa Excelaire comprou no Brasil e as pessoas que nele estavam, incluindo um jornalista americano, que diariamente acusa o Brasil de ser “tupiniquim”, uma República de bananas, e de desconhecer os equipamentos e a alta tecnologia de aviões, além de não saber como funciona o próprio espaço aéreo.

Os controladores de vôo também não são culpados. Como o transponder e o TCAS estavam desligados, eles não poderiam saber que o Legacy estava em rota de colisão com o avião da Gol e nem que os pilotos norte-americanos dirigiam na contramão. Passaram meses se defendendo e, agora, o inquérito da Polícia Federal brasileira diz que, sim, eles também tiveram sua parcela de culpa, pois receberam avisos de que os norte-americanos voavam em altura inadequada e não fizeram nada. Ou será que fizeram? O inquérito também destaca que os pilotos norte-americanos não foram irresponsáveis em não seguir as regras de segurança, ao desligar o transponder e colocar em risco o espaço aéreo brasileiro. A pergunta que fica é: porque as autoridades brasileiras demoraram tantos meses para chegar a essa conclusão?

Outra pergunta que fazemos diariamente é quais são as motivações das autoridades brasileiras na investigação deste acidente. Será que a demora é devido ao acordo bilateral que estabelece que os acidentes aéreos devem ser investigados com caráter somente de prevenção? Ou será que os acordos e interesses econômicos dificultam um posicionamento brasileiro sobre as vítimas de seu próprio país?

Mais de cem vidas se perderam e nem ao menos conseguimos do nosso próprio presidente uma palavra de consolo pelo acidente. Enquanto isso, vimos em noticiários o apoio do vice-presidente norte-americano aos pilotos Joe Lepore e Jan Paladino, que foram recebidos em seu país como heróis, porque salvaram a vida de sete pessoas. E as outras 154 pessoas que morreram? Não importa. Eles não eram norte-americanos. Agora os pilotos estão em seu país, trabalhando, pilotando e nada mudou. Nem temos a esperança de que voltem ao Brasil para prestar maiores esclarecimentos. Ou alguém acreditou que, assinando um documento, eles voltariam? Agora os responsáveis pela CPI precisam fazer uma negociação com o governo norte-americano para que eles voltem ao Brasil, com salvo conduto. Será que eles têm medo de serem presos novamente em hotel de luxo?

A Aeronáutica também não teve culpa. Fato comprovado na última reunião do CENIPA com alguns familiares. Foram duas horas de uma tentativa de explicação sobre as etapas da investigação do acidente, o que comprova que a Aeronáutica não tem responsabilidade nenhuma, ao contrário, eles só nos ajudam a entender a situação. Tivemos o tempo de dez minutos para fazer perguntas e, fora desse tempo, nossas outras dúvidas poderiam ser enviadas por email.

De tudo isso só nos resta pensar que a culpa pelo acidente do Legacy com o Gol foi resultado da ação dos nossos 154 entes queridos. Eles, de certo, devem ter provocado tudo isso e esqueceram de nos avisar desse plano.

Hoje, acompanhamos atentamente os passos da CPI – que agora são duas – e nos resta a esperança de que as investigações políticas não se transformem em brigas e rixas partidárias e que todo esse sofrimento diário, pelo qual todas as famílias das vítimas passam ao acompanhar essas investigações, não se torne, novamente, mais uma prova do descaso do nosso sistema político com os seus cidadãos, pelos seus eleitores.

Conseguimos, depois de muito esforço e persistência, uma audiência com o Ministro da Justiça, Tarso Genro, no próximo dia 28 de maio, ao meio dia. Queremos dizer a ele tudo aquilo que já dissemos nestes sete meses: que temos pressa nas investigações. Que temos, ainda, esperança na justiça de nosso país. Que queremos respostas claras e que os culpados, independentemente de sua origem, recebam a pena adequada por tirar do nosso convívio 154 cidadãos e que nossa angústia só acabará quando houver justiça.

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*Viúva de Rolf Gutjhar, vítima do acidente Gol 1907

 

 

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