Domingo, 22 de setembro de 2019

ISSN 1983-392X

Letargia moral

Edison Vicentini Barroso

Brasil, a pátria amada. Celeiro de esperanças, que se esvaem. No desgoverno que ora te caracteriza, há uma como que ojeriza pelas coisas boas, aquelas dos tempos idos de nossos pais. Amanhece e anoitece, na repetição incessante de escândalos – a ferir de morte o homem de bem.

quinta-feira, 12 de julho de 2007


Letargia moral

Edison Vicentini Barroso*

Brasil, a pátria amada. Celeiro de esperanças, que se esvaem. No desgoverno que ora te caracteriza, há uma como que ojeriza pelas coisas boas, aquelas dos tempos idos de nossos pais. Amanhece e anoitece, na repetição incessante de escândalos – a ferir de morte o homem de bem.

É violência de todo tipo, do pobre ao rico. Vê-se um povo sofrido, ao desabrigo da educação. Tem-se uma população ignorante, a reconduzir governantes indignos e incapazes de governar. Pior, disso insciente, a lhes servir de pasto a intentos mil. E, de novo, na manhã de cada dia, se anoitece no manto vil da ousadia que fere o brio.

Invasões se sucedem. A autoridade de quase nada vale, num vale de lágrimas a transbordar. O caos está presente, sim. A anarquia faz-se companheira de todas as vidas, na sucessão de dias sem fim. Enfim, vem a lume o mandatário grande, distante da grandeza doutras eras. Brada, para que todos ouçam: "nada temam, isso é terrorismo da mídia".

E o povo, esse povo mais que sofrido, uma vez mais acredita, ou finge acreditar. E os mandatários do grande senhor, fazendo-lhe coro – pois que compõem equipe homogênea – também alteiam vozes. O jeito é relaxar e gozar, diz-se daqui; o que sucede é devido ao progresso da Nação, diz-se de lá. E a bandalheira, associada à inércia se reinstala em seu seio – outrora nobre e bom.

O choro dos que sofrem, nas filas de hospitais e/ou nas perdas irreparáveis de vidas para a violência cada vez mais presente, fica como que inaudível, ante a ilusão hipnótica de um carisma popular que embriaga e entorpece a massa ignorante, da qual se nutre um populismo nunca dantes visto.

E o país treme, se agita e contorce, inerte diante dos persistentes cometimentos da corrupção desenfreada, com a sensação fria de impunidade. Brinca-se com a população. Faz-se pouco de sua capacidade de pensar, compreender e tomar decisões reacionais. De cima a baixo, desfaz-se da sociedade. A inversão de valores é gritante, só equiparável ao torpor da maioria esmagadora do povo, cuja aparente indiferença machuca o sentimento de vergonha que inda resta.

O baixo nível prospera nessa ficção de vida melhor! O que antes foi bom, hoje é considerado ruim. Finge-se preservar valores, vindo à tona os falsos profetas – a pregar o que não fazem e a fazer o que não pregam. O picadeiro está montado. Eis o pão e o circo a surgirem de novo, na imensidão desta Roma atual, em que o faz de conta monta a ilusão do povo, jugulado à ignorância do palhaço inconsciente.

E na vertente destes novos velhos tempos, uma vez mais prepondera o desalento dos corações oprimidos, que, mais esclarecidos, se sentem impotentes à reação. É a realidade cedendo passo à ilusão, como sempre. E o que fazer ? Eis a indagação que não quer parar. E como parar esse faz de conta que só nos faz mais complicar ?

Este é o dilema do momento, na sangria de corações embrutecidos, inconscientes da realidade de seu poder. É tempo, mais que nunca, de reagir, de volver a antigos valores morais, jamais envilecidos pela ação do tempo. É hora de renascer, qual fênix ressurrecta, dos escombros da ruína moral que nos prende à retaguarda do progresso. Acorda, Brasil!

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* Juiz de Direito em São Paulo






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