Domingo, 20 de outubro de 2019

ISSN 1983-392X

Que venha o gato!

Edson Vidigal

Corre mundo a historia de um gato que não se encanta com peixinhos de aquário, nem perde tempo com ratos. Atua no mercado da morte, mas não em causa própria. Não me ocorre agora o nome do bichano. Sei que trabalha como oficial de justiça de uma visita fatal, inevitável, chamada morte.

sexta-feira, 10 de agosto de 2007


Que venha o gato!

Edson Vidigal*

Corre mundo a história de um gato que não se encanta com peixinhos de aquário, nem perde tempo com ratos. Atua no mercado da morte, mas não em causa própria. Não me ocorre agora o nome do bichano.

Sei que trabalha como oficial de justiça de uma visita fatal, inevitável, chamada morte. Até agora é o único felino nesse serviço. Atua numa cidade inglesa. É ele aparecer numa casa e dar uma encarada na pessoa, pronto. Pode encomendar o caixão.

Fiquei olhando a cara safada do gato ao qual, diz um site, se atribuem esses poderes macabros e divaguei nas hipóteses do que aconteceria entre nós se esse maldito animal desembarcasse, num pára-quedas, por exemplo, aqui neste fim de mundo.

Não teria sossego e o que aconteceria de gente com dor na consciência, perdendo sono, suspendendo vidros de carros, fechando portas, portões, espalhando venenos nos jardins e nos quintais, tudo por medo do gato, meu Deus, seria muito engraçado.

O crime organizado que se cuidasse. A turma do peculato, os meliantes metidos a gente fina, os chantagistas de todos os gêneros, os magarefes da honra alheia que agora estão só no osso porque já perderam o discurso, o pessoal da volta ao passado querendo ganhar eleição agora no tapetão, gente por onde anda esse gato inglês que não dá as caras por aqui ?

Claro que com essa má fama que nossa terra alcançou por aqui e alhures em matéria de praticas éticas e morais, não faltaria quem tentasse cooptar o gato, corrompendo-o no vício em alguma droga ou, quem sabe, até envenenando-o, tudo de modo a que fosse destituído de suas funções.

De outro lado, surgiria na Ilha um Comitê de Defesa do Gato e sua candidatura a herói do século seria lançada com grandes algazarras e foguetórios. Logo algumas listas seriam feitas por populares indicando os endereços das primeiras visitas do oficial de justiça da inevitável.

E os blogs ? O que não lançariam de boatos ? O gato ontem foi visto na casa de fulano e de lá saiu para a casa de sicrano. Bom, quem não teria, no fundo, no fundo, a sua lista secreta para o gato dos maus agouros visitar ? Claro que eu também entraria em algumas listas.

Mas tenho certeza que se eu tivesse de fazer uma lista seria aprovada pela maioria do povo, a mesma maioria que votou rejeitando as tentativas de volta ao passado, ao atraso social e econômico a que sujeitaram, e ainda ameaçam tentar sujeitar, o nosso o sofrido povo.

Bem, estou entre os que estão acreditando nesses poderes macabros do gato inglês. O danado, qual aquele cara chato do samba canção de Tom Jobim, não gosta de chope, não vai ao cinema, nem a Ipanema. O que ele gosta mesmo é de chegar de surpresa numa casa, encarar uma pessoa, ir embora e a distância conferir no dia seguinte o velório.

Com esse gato por aqui, se fossemos imaginar uma faxina moral e política, e administrativa, em todos os rincões deste Estado, seria algo arrasador. O gato acabaria ganhando uma estátua maior do que a do Benedito Leite, aquele que disse que deixaria que lhe cortassem a mão direita, mas não assinaria, como governador, um ato de demissão de uma professora.

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*Ex-Presidente do STJ e Professor de Direito na UFMA, escreve para o Jornal Pequeno às quintas-feiras.





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