Sábado, 19 de outubro de 2019

ISSN 1983-392X

Os novos senhores de escravos

Sylvia Romano

Ao ler periodicamente nossos principais veículos de comunicação e ser informada da "maravilha" dos lucros dos bancos, ao ensejo da data da consciência negra parto para a seguinte reflexão quanto ao período negro que foi a escravidão no Brasil.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007


Os novos senhores de escravos

Sylvia Romano*

Ao ler periodicamente nossos principais veículos de comunicação e ser informada da "maravilha" dos lucros dos bancos, ao ensejo da data da consciência negra parto para a seguinte reflexão quanto ao período negro que foi a escravidão no Brasil.

Nós pobres brasileiros quando, com muito sacrifício, conseguimos guardar um "troquinho" e aplicamos na poupança, o nosso ganho fica em média em 0,60% a 0,70% ao mês, o que — toda dona-de-casa sabe — nem cobre a variação da inflação da cesta básica. Quando nós pessoas físicas, profissionais e empresários, entramos no cheque especial, o que vem a ser uma constante para a maioria, os juros cobrados passam dos 10%, chegando em alguns casos a 12%, fora as taxas de talão de cheque, cheque abaixo do valor mínimo, seguro, cartão magnético e por aí afora, numa sanha exploradora que não tem fim. Não vou falar nem da CPMF que, infelizmente, nosso governo acha imprescindível – imprescindível só se for para manter o AEROLULA, outros brinquedinhos e achegos a que todo político é acostumado.

Só para ilustrar, se um correntista no dia 1° de julho de 1994 (data do lançamento do real) tivesse depositado R$ 100,00 (cem reais) na poupança em qualquer banco, teria hoje a extraordinária quantia de R$ 374,00 (trezentos e setenta e quatro reais). Em contrapartida, se este mesmo correntista tivesse sacado aqueles mesmos R$ 100,00 no cheque especial, na mesma data, teria uma pequena dívida de R$ 139.259,00 (cento e trinta e nove mil e duzentos e cinqüenta e nove reais). Ou seja, os próprios números falam por si... E ninguém fala nada, ninguém faz nada, nem a grande maioria da mídia se manifesta. Será que as polpudas verbas publicitárias não são um "cala boca" contra este absurdo?

Do jeito que a coisa vai, qual juiz terá moral daqui a pouco para julgar um ladrão, seja qual for o montante do roubo? Um agiota, então nem se fala. Nos velhos tempos e, ainda hoje, qualquer agiota que venha a cobrar um juro de 5% é passível de prisão. Ninguém pode explorar a necessidade alheia. Este direito é único e exclusivo das entidades financeiras e dos bancos.

Mas o que um banco produz? Cada vez mais informatizados e com um número menor de funcionários, os bancos geram a riqueza só para os seus proprietários e, ao mesmo tempo, causam a desgraça da maioria escravizada cada vez mais pelas dívidas que, para sobreviver, tem de assumir junto a estes novos senhores de escravos. Vamos criar o dia da consciência dos explorados pelos bancos.

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*Advogada do escritório Sylvia Romano Consultores Associados










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