Domingo, 19 de janeiro de 2020

ISSN 1983-392X

A mulher de Évora

Sérgio Roxo da Fonseca

Descia uma das ruas pedregosas de Évora, quando me encontrei com alguns escolares. Puxei conversa. De uma das casas baldias surgiu uma velha despenteada, de olhos espantados que me perguntou se eu era brasileiro. Tinha ouvido o som da minha voz. Sim, respondi, paralisado com as palavras que lhe saiam incontidas.

sexta-feira, 30 de novembro de 2007


A mulher de Évora

Sérgio Roxo da Fonseca*

Descia uma das ruas pedregosas de Évora, quando me encontrei com alguns escolares. Puxei conversa. De uma das casas baldias surgiu uma velha despenteada, de olhos espantados que me perguntou se eu era brasileiro. Tinha ouvido o som da minha voz. Sim, respondi, paralisado com as palavras que lhe saiam incontidas.

Pediu um favor. Há mais de vinte anos seu filho Heraldo havia partido para o Brasil. Disse-lhe adeus ao pé daquela porta. Nunca mais dera notícias. Precisava ver de novo o filho que havia levado um pedaço de sua alma para o lado de lá do mar. Seus olhos eram vermelhos como se o pranto fosse iminente. Mas chorar, ela não chorava. Eram gastas todas as lágrimas, aquelas lágrimas derramadas em vão. Se encontrar o Heraldo, diga a ele que haja o que houver, eu estou aqui, repetindo o som de um fado.

Prometi procurar pelas terras brasileiras um Heraldo de Évora que havia abandonado sua mãe ao pé da porta daquela casa. Sei que a tarefa é titânica. Cumpro a palavra. Se encontro um português, pergunto se não é o Heraldo, aquele que deixou a mãe ao pé de uma porta em Évora. A resposta é sempre negativa. O Brasil e o mar são imensos como as saudades daquela mulher.

O poeta Fernando Pessoa escreveu que Deus deu ao mar o abismo e o perigo, espelhando nele a infinitude dos céus. O mar é infinito como os céus e nele os portugueses deitaram o seu fadário. Houve quem se lançasse ao mar, confundindo-o com o paraíso, e não voltaram mais de sua navegação. Os velhos marinheiros já diziam que navegar é preciso, viver não é preciso.

O Príncipe D. Henrique acreditava que a África terminaria ali pertinho, sendo possível dar a volta nela e atacar Marrocos pelo sul. Mas havia um obstáculo: o Cabo do Bojador, envolvido em neblina e mistério. Ninguém jamais havia ido além do Bojador. Acreditavam que era ali o fim do mundo. A neblina era o resultado da água do mar despejada no inferno e esfumaçada pelo seu fogo. Passar além do Bojador era ir para lá do fim do mundo.

O navegador Gil Eanes, em 1434, foi além do Bojador e descobriu que a África, o mundo, as pessoas continuavam do lado de lá. Marrocos não foi atacado pelo sul, mas os portugueses descobriram os caminhos da Índia, da China e do Japão. Dando as costas para o sol, encontraram o Brasil. Para Fernando Pessoa o mar tornou-se português porque as mães salgaram suas águas com lágrimas, os filhos em vão rezaram, e as noivas ficaram por casar. Mesmo assim, depois do Bojador o mar continua com suas ondas, o mundo permanece correndo para o infinito e as pessoas sobrevivendo com suas alegrias e tristezas.

Valeu a pena? "Tudo vale a pena se a alma não é pequena". Pois, para "passar além do Bojador, tem que passar além da dor", foi exatamente a voz de Fernando Pessoa que em silêncio ouvi refletida nos olhos secos da mulher de Évora.

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*Advogado, Procurador de Justiça aposentado do Ministério Público de São Paulo, professor das Faculdades de Direito da UNESP e do COC.







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