Quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

ISSN 1983-392X

Aos mestres Sivuca e Luiz Gonzaga, com carinho

Abílio Neto

Certa vez numa peleja na Paraíba, alguém deu um tema pros dois violeiros: “plantar saudade”. Tema difícil pra fazer versos, mas saíram vários, pois nada é impossível ao repentista. E houve um cantador, Ontõe Pereira (Antonio Pereira de Moraes, paraibano) que fechou com chave de ouro aquela cantoria.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007


Aos mestres Sivuca e Luiz Gonzaga, com carinho

Abílio Neto*

Certa vez numa peleja na Paraíba, alguém deu um tema pros dois violeiros: "plantar saudade". Tema difícil pra fazer versos, mas saíram vários, pois nada é impossível ao repentista. E houve um cantador, Ontõe Pereira (Antonio Pereira de Moraes, paraibano) que fechou com chave de ouro aquela cantoria fazendo esta sextilha fabulosa:

“Quem quiser plantar saudade,
escalde bem a semente,
depois plante em lugar seco
na hora do sol mais quente,
pois se plantar no molhado
quando nascer mata a gente".

Ao fim do ano passado, por ocasião do falecimento do grande músico Sivuca, escrevi algumas linhas pro Migalhas (clique aqui). Não repeti no dia 13.12.2006 aquilo que fazia desde 2004, que era escrever em comemoração ao nascimento de Luiz Gonzaga contando coisas interessantes da sua vida, porque sabia que Sivuca estava muito mal de saúde em João Pessoa.

Em 13.12.2007 eu quero fazer diferente e homenagear os dois, pois Sivuca morreu a 14 de dezembro, e eles se admiravam muito. Imaginem que o maior músico de sanfona do mundo, numa entrevista de 2005, disse que tinha aprendido também com Gonzaga. Segundo Sivuca, a escola de acordeon brasileira é a única no mundo que consegue desbravar recursos e sons inimagináveis até para os acordeonistas italianos e alemães, duas outras escolas portentosas, porque somente aqui os músicos de sanfona conseguem também fazer o ritmo da música sentindo a pulsação no próprio instrumento, seja tocando choro ou forró. O "pai" dessa escola seria Luiz Gonzaga, que explorou não só o forró como o choro. E a linha do choro brasileiro teve vários outros instrumentistas notáveis como Chiquinho do Acordeon, Orlando Silveira, Mário Gennari Filho e Noca do Acordeon. No forró destacaram-se Osvaldinho e Dominguinhos. Sivuca foi, a meu ver, o mais completo de todos.

Como se sabe, no começo de 1964 Sivuca viajou pros Estados Unidos pra acompanhar a cantora Carmem Costa em suas apresentações musicais. Lá ficou por mais de 12 anos e trabalhou com grandes artistas, fez arranjos pra muita gente famosa, era adorado pelos músicos americanos, tocando sempre mais violão do que sanfona, pois era também exímio guitarrista, como dizem os norte-americanos e espanhóis do músico que toca violão.

Mas apesar do sucesso, Sivuca tinha uma vontade danada de voltar pro Brasil, porém, aqui, conforme ele falou, tinha acontecido "aquela coisa que se chamou de Revolução de 1964" e ele tinha a carteirinha do Partidão. Os militares (acho eu), nunca souberam disso, pois do contrário não o teriam deixado voltar em fins de 1976.

Foi lá nos States quando estava morrendo de saudades de cá, que o "filho da Lua" fazia evocações da sua juventude em Itabaiana/PB, lugar onde nasceu e se criou. Assim foi juntando algumas coisinhas, fazendo algumas rimas e começou a fazer uma musiquinha onde cada verso começava sempre com a expressão "nunca mais eu vi". E seguindo aquele chamado da recordação, falava na viola famosa de Azulão; no seu time de botão que adquiriu em Recife; na sua louça espalhada pelo terreiro na pobreza da sua comunidade rural chamada Pernambuquinho; em Henriqueta pisando milho no pilão significando fartura pro sertanejo; em arrasta-pé no Sertão; em pegar boi no marmeleiro; em chapéu de couro e gibão; em adivinhação: qual o menino que não se lembra de "o que é, o que é que cai em pé e corre deitado?" E, claro, também em Gonzaga que sempre foi seu ídolo.

Voltando ao Brasil em 1976, viu os tempos bicudos em que vivíamos e foi então que se lembrou daquele inseto ortóptero verde, muito comum nas matas brasileiras e que mais se parece com um micro garrancho andando. O nome do bichinho? Esperança. E o País estava mergulhado naquele regime de "pega, tortura e mata". Assim, de olho na situação política, conseguiu terminar sua musiquinha. Quando procurou colocar-lhe um título, deu uma jogada de mestre, pois conseguiu emplacar um "nunca mais eu vi esperança". Era a lembrança doce do menino transformada em azeda realidade pro adulto, porque assim concluiu em forma de música que, naquela época, esperança no Brasil só havia mesmo na mata. Quanta gente escreveu tanta coisa sem conseguir transmitir aquilo que ele disse tão simplesmente. Tão genial quanto um drible de cabeça do Kerlon, o foquinha, aquele fantástico jogador do Cruzeiro de Belo Horizonte.

No primeiro encontro que teve com Luiz Gonzaga após a volta, em 1977, lembraram dos velhos tempos e então falou na música que havia composto a qual mencionava o Rei do Baião. Luiz ficou encantando com a simplicidade daquela música que parecia destinada à criançada. E era, pois minha filha aos cinco anos, em 1985, escutando o som que vinha do toca-discos do pai, entoava: "na mata tem esperança/ que vem e vai, esperança". Aquilo que até então tinha um ritmo de baião dolente sofreu a influência do gênio inventivo de Gonzaga, porque disse pro Sivuca: "Vou gravar em ritmo de xaxado, você faz o arranjo envenenado e vai cantar comigo".

A Censura do regime militar, que era um monstro sem cabeça, só se ligou na letra da música, esquecendo completamente o seu título, onde estava a mensagem subliminar. Desse modo foi possível que aquela música de saudosismo adolescente, tenha se transformado numa raridade: Luiz Gonzaga cantando com a participação de Sivuca e ao som daquela sua sanfona divinal, pois jamais posso chamá-la de endiabrada como fizeram alguns. É o único registro sonoro que reúne os dois (voz e instrumento), pois dizem que a Globo perdeu num incêndio aquelas fitas do Especial de Luiz Gonzaga de 1978, onde tocaram e cantaram de verdade (sem o maldito play-back) Sivuca, Luiz Gonzaga e Dominguinhos.

No registro do disco, a música aparece com a co-autoria da esposa de Sivuca, a cantora e compositora paraibana Glorinha Gadelha, como acontece com toda produção musical dele registrada a partir de 1976. Eu não sei exatamente qual a participação dela nessa música. Sei, apenas, que compõe com qualidade. Exemplo: "Doce Doce".

E rendendo homenagem aos dois artistas, Sivuca e Gonzaga, o Migalhas vai permitir aos migalheiros que ouçam este exemplo da simplicidade e do talento musical. E nunca mais vão esquecer esse xaxado! A música foi gravada em 1977 e faz parte do repertório do LP "Dengo Maior", de Luiz Gonzaga, lançado em 1978, aquele mesmo disco que traz a última música da parceria famosa Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira, intitulada "Salmo dos Aflitos". E então, gostaram? Sentiram a dimensão da nossa perda?

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*Migalheiro





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