Sábado, 19 de outubro de 2019

ISSN 1983-392X

Doutor José Eduardo Ferraz Monaco

Roberto Junqueira de Andrade Vietri

Doutor Monaco se foi, repentinamente, como um suspiro, assim como aconteceu com os meus avós maternos, numa piscada aqui e outra do lado de lá. Tenho lembranças do Doutor Monaco desde criança, mas ele, por sua vez, já me conhecia antes disso. Viu-me nascer, chorar, engatinhar, e então crescer um tanto até um belo dia, ao chegar para o trabalho, ter o prazer de se deparar com desenhos espalhados pela sua sala, cuidadosamente colocados na véspera, contra o seu Palmeiras e, é claro, como não poderia deixar de ser, avisos de "é proibido fumar", tudo elaborado no alto dos meus 9 ou 10 anos de idade.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007


Doutor José Eduardo Ferraz Monaco

Roberto Junqueira de Andrade Vietri*

Doutor Monaco se foi, repentinamente, como um suspiro, assim como aconteceu com os meus avós maternos, numa piscada aqui e outra do lado de lá.

Tenho lembranças do Doutor Monaco desde criança, mas ele, por sua vez, já me conhecia antes disso. Viu-me nascer, chorar, engatinhar, e então crescer um tanto até um belo dia, ao chegar para o trabalho, ter o prazer de se deparar com desenhos espalhados pela sua sala, cuidadosamente colocados na véspera, contra o seu Palmeiras e, é claro, como não poderia deixar de ser, avisos de "é proibido fumar", tudo elaborado no alto dos meus 9 ou 10 anos de idade.

Sei que no fundo ele não achou aquilo as mil maravilhas, principalmente quando eu ainda reforçava a coisa ao chamá-lo de Tio Fumaça com uma das pernas já do lado de fora da sua sala, pronto para fugir se fosse o caso. Mas eu não precisava sair correndo, pois a sua reação nunca deixou de ser um sorriso de volta - não um sorriso falso, mas um sorriso afetuoso, de quem demonstra carinho e bom humor mesmo quando contrariado. Doutor Monaco era assim, bom coração, incapaz de fazer mal a alguém.

Anos depois ingressei no escritório e vi que não havia me enganado. Ora, quem teve a experiência de procurá-lo para tirar alguma dúvida jurídica ou mesmo contar uma piada sempre encontrou aquela pessoa atenciosa de sempre, pronta para abrir inúmeros livros e leis atrás das respostas mais difíceis ou simplesmente dar uma daquelas risadas carregadas de humor que eram somente suas.

A isso se somaram outros momentos de convívio, sempre descontraídos, sempre divertidos, nunca com frescuras e formalismos desnecessários, seja no próprio escritório, seja quando muitas vezes eu e o Doutor Vietri o levávamos para casa nos dias de rodízio, seja nas confraternizações, quando normalmente o seu extraordinário senso de humor batia recordes, atingindo momentos de pura genialidade. Era rápido e perfeito no raciocínio, cortante, incisivo, mortal, insuperável. Um Garrincha das tiradas. Não é à toa que os ávidos por conhecimento logo posicionavam-se à sua órbita nesses eventos, como bem lembrou o Dr. Dimas Lazarini.

Profissionalmente não tive a oportunidade de trabalhar na mesma área, mas sei que era considerado por todos os colegas e clientes - além de uma pessoa absolutamente honesta - um advogado brilhante, com uma cultura jurídica excepcional, mestre que foi de muitos, inclusive dos sócios mais antigos. Nos últimos tempos vinha diminuindo um pouco o ritmo, quem sabe já se preparando para um digno e merecido descanso após quase cinqüenta anos de casa. Mesmo assim, a sua opinião nunca deixou de ser consultada nos assuntos mais sensíveis e de maior complexidade, independentemente de qual fosse a matéria. Infelizmente, o seu descanso veio de outra maneira, muito antes do que gostaríamos, privando-nos da sua presença.

De qualquer maneira, não importa se nem todos tiveram o prazer de conviver com ele mais de perto, talvez alguns nunca tenham sequer trocado uma palavra – nesse caso, como disse, não importa, pois pode ser momento de lembrar de alguém especial que passou por nossas vidas. Todos podemos lembrar e então sonhar, imaginar, transcender nos nossos devaneios.

Assim como será sempre possível a todos pensar um Doutor Monaco, imaginá-lo, fazê-lo viver. Não, nem ele se foi nem nos privou da sua presença, isso é apenas para os que não conseguem sonhar. Doutor Monaco não jaz, Doutor Monaco é jazz, é puro improviso, é a colocação certeira, é a possibilidade de se surpreender e reinventar a linha de sombra da impermanência.

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*Advogado do escritório França Ribeiro Advocacia










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