Sábado, 17 de agosto de 2019

ISSN 1983-392X

A economia capitalista por Hyman P. Minsky

Daniel Costa Lima da Rocha

Existem muitas visões pessoais acerca do que se trata o modelo econômico capitalista. Talvez a mais objetiva seja a dada por Hyman P. Minsky, falecido professor norte-americano de Finanças da Universidade de Washington, membro do Levy Economics Institute.

quarta-feira, 23 de junho de 2004

A economia capitalista por Hyman P. Minsky e o otimismo do mercado que gera estabilidade desestabilizante


Daniel Costa Lima da Rocha*


Existem muitas visões pessoais acerca do que se trata o modelo econômico capitalista. Talvez a mais objetiva seja a dada por Hyman P. Minsky, falecido professor norte-americano de Finanças da Universidade de Washington, membro do Levy Economics Institute.

Para MINSKY, a forma mais exata de entender o que é como funciona o sistema econômico capitalista é através da rotina de uma corretora de ações de Wall Street, coração financeiro da economia norte-americana e da mundial. A sua visão pessoal sobre como se comporta o sistema econômico capitalista tornou-se notadamente conhecida nos meios acadêmicos como “Paradigma de Wall Street”.

A este respeito, ponderava em suas aulas que “Olhando para a economia, a partir de uma sala de comando de Wall Street, vemos um mundo de papel - um mundo de dívidas a pagar, hoje e no futuro. (...). A viabilidade deste mundo de papel repousa sobre os fluxos de caixa (...) que as organizações de negócios, as famílias e os órgãos governamentais, (...) recebem, como resultado do processo de geração de renda." (MINSKY, Hyman P. (1982). Inflation, Recession and Economy Policy. Armonk, M. E. Sharpe, 63 p.)

Para ele, o sistema econômico capitalista é um mundo de realizações de pagamentos hoje e no futuro, e os bancos são os instrumentos possibilitadores destes pagamentos. Seriam mercadores de dívidas.

Neste passo, a instabilidade financeira da economia capitalista, a partir dos processos naturais de estruturas de endividamento das empresas que, no afã de crescerem, principalmente as especulativas, e não as “hedge” ou as “ponzi”, procuram obter recursos nos mercados financeiros, não é causada por fatores exógenos ao sistema econômico como guerras (exemplo, a do Iraque), alta ou queda da cotação “brent” do barril de petróleo, ou por erros da política econômica do governo federal, e sim pelo processo de financiamento dos bancos.

De fato, os bancos são instituições que realizam a essência do sistema econômico capitalista ao funcionarem na base da concessão de financiamentos para criação de dívidas pelas empresas, dívidas estas que precisam ser pagas, e, por força disto, novas são contraídas pelos mesmas empresas, ou no interesse da especulação no mercado financeiro, visando à obtenção de crédito para se financiarem e, dentro de um quadro de período estabelecido planejado, extinguirem suas dívidas, ou no interesse de se manterem presentes no mercado, desejando crédito para liquidar crédito pretérito (modelo “ponzi”), o viver às custas de empréstimo.

Para o economista, o núcleo central da atividade dos bancos reside em financiar, criar e quitar dívidas, criar e destruir dinheiro de crédito, com o objetivo de obter lucro. Nesse sentido, dizer que a economia capitalista é essencialmente monetária, que sua natureza é financeira ou que é uma economia de dívidas é a mesma coisa. O dinheiro é criado no processo financeiro, através do crédito adiantado pelos bancos às empresas capitalistas. Financiar significa criar uma dívida. Essa é a essência da atividade bancária, para Minsky.

A economia capitalista, portanto, se desenvolve às custas da criação de dívidas que precisam ser pagas, de um dinheiro que necessita seja validado pelo processo produtivo. O papel instabilizador dos bancos decorre do fato de que eles não são meros intermediários financeiros, mas verdadeiras corporações capitalistas, indiscutivelmente desejadoras de lucros, e não há mal nenhum nisto.

Com ida ao mercado financeiro, para captar crédito dos bancos, as empresas acabam se endividando ainda mais, obstaculizando ou ao menos dificultando seus projetos de liquidação dos débitos.

É a partir deste otimismo dos agentes do mercado, em razão da estabilidade financeira que se apresenta, porém perigosa, que ocorre a ida das empresas aos bancos para obtenção de crédito e, tal fato, virá acarretar o aumento do grau de estrutura de endividamento das mesmas, cada vez mais devedoras, o que resultará na desestabilidade do mercado que fica formado por empresas mais endividadas por força do ímpeto criado pelo otimismo da estabilidade prévia.

O endividamento crescente das empresas, criado pelo seu otimismo, gera um pessimismo às mesmas diante do obscuro quadro de incerteza de como quitarão os débitos contraídos juntos aos bancos, pessimismo ainda majorado diante do fato de que os bancos, antes concessores de crédito, passam a se comportar como negadores, realizando estratégias defensivas, naturalmente preocupados com a recuperação do dinheiro emprestado que, ainda por cima, deve ser lucrativa.

De se notar que, no momento em que o mercados se encontram instáveis, Minsky entendia que o único meio de salvá-los seria a intervenção dos Bancos Centrais como emprestadores de últimos créditos às empresas, os chamados “lenders of last resort”, sob pena de, em não o fazer, permitir a instauração do colapso financeiro nos mercados, o que teria o condão de causar má impressão do país perante a comunidade financeira internacional e as conseqüências fáticas nefastas daí decorrentes.

Em conclusão, quero crer que este artigo não teve por fim criticar a postura dos bancos, primeiros agentes emprestadores de recursos às empresas, criadores da instabilidade do mercado, e sim analisar a doutrina muito bem autorizada de Hyman P. Minsky, de compreensão de todo este processo natural endógeno ao sistema econômico capitalista. O planejamento constante de comprometimentos financeiros das empresas é indispensável, sob pena de risco delas deixarem de existir.

Crescer é vital, porém, sem se permitir dar passos maiores que as próprias pernas, tendo-se, enfim, consciência de que, momentos de otimismo no mercado são perigosos, traiçoeiros, porque induzem ao ímpeto da captação de recursos no mercado financeiro que, com a certeza que todos possuem, deverão ser devolvidos aos bancos com os juros por estes ansiados.

As empresas devem ter responsabilidade sobre os processos pessoais de endividamento que assumem, não se garantindo na ação emergencial e salvadora dos Bancos Centrais, como últimos emprestadores de recursos (“lenders of last resort”).
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* Advogado do escritório Siqueira Castro Advogados









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