Domingo, 16 de junho de 2019

ISSN 1983-392X

O idealismo de Oscar Niemeyer

Francisco Cesar Pinheiro Rodrigues

A combativa revista mensal “Caros Amigos”, que só li agora mas data de julho de 2006, publicou extensa e inteligente entrevista do famoso arquiteto Oscar Niemeyer, considerado, quase à unanimidade, um gênio da profissão. Como todos sabem, Niemeyer é um comunista que jamais tentou esconder suas convicções. Defende-as com vigor e destemor — é um dos poucos com coragem de defender Stálin —, não sendo possível duvidar de sua sinceridade.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008


O idealismo de Oscar Niemeyer

Francisco Cesar Pinheiro Rodrigues*

A combativa revista mensal "Caros Amigos", que só li agora mas data de julho de 2006, publicou extensa e inteligente entrevista do famoso arquiteto Oscar Niemeyer, considerado, quase à unanimidade, um gênio da profissão. Como todos sabem, Niemeyer é um comunista que jamais tentou esconder suas convicções. Defende-as com vigor e destemor — é um dos poucos com coragem de defender Stálin —, não sendo possível duvidar de sua sinceridade. O que ele pensa, ele diz. E não tenta parecer mais do que é, fraqueza muito comum quando as pessoas são entrevistadas. A compreensível preocupação de brilhar, de parecer mais inteligente ou culto do que se é, não passa pela cabeça de Niemeyer. Impossível maior autenticidade.

Justamente por ele ser inteligente, simples e sincero, o que expressou na entrevista pode ser encarado como uma súmula do ideário socialista. E é sobre esse ideário que aqui falaremos um pouco.

O ideal socialista, quando realmente sentido, compartilhado — como é o caso de Niemeyer, Luis Carlos Prestes, Trotsky e inúmeros outros — não tem uma origem determinada, uma "data de nascimento". Nossos ancestrais da caverna certamente já diferiam em termos de solidariedade humana. Talvez alguns velhos neanderthais, já desdentados aos 38 anos, enfraquecidos, incapazes de caçar, comessem melhor que seus equivalentes da caverna vizinha. As nuances do conceito — "socialismo científico", por exemplo —, podem ter datas — um evento, um discurso, um livro, etc — mas estamos aqui examinando um ideal em sua forma mais abrangente, espontânea e — tenhamos a coragem de usar a palavra — ... sentimental.

A simples visão da brutal desigualdade, da humilhação do pobre, do desempregado, tem uma influência considerável como nutriente do socialismo. Impossível negar o peso da compaixão, um sentimento que dispensa formação teórica. Os grandes teorizadores do socialismo procuram, por orgulho intelectual, minimizar essa fundamentação mais "corriqueira" da doutrina. Tratam do tema abstratamente, como grandes cientistas sociais. Quase geômetras, utilizam uma argumentação por vezes difícil de seguir, acessível quase só aos professores de Sociologia e Economia.

Não é o caso, felizmente, de Niemeyer, em sua entrevista e ao logo de sua vida centenária, coerente e ainda lúcida. Ele sente realmente pena dos mais pobres, dos necessitados. Diz isso com todas as letras. Despreza o capitalismo, vota pela sua imediata extinção e encara com simpatia qualquer governo que pretenda tornar seu país plenamente socialista. Hugo Chávez, se leu sua entrevista, deve se sentir fortalecido.

Feito este intróito, reconhecido o valor individual do grande artista do concreto armado, cabem aqui alguns argumentos de discordância.

O ponto fraco na teoria do socialismo está na presunção de que o homem é um ser essencialmente justo, solidário, altruísta, bondoso e desinteressado. E não é isso o que ocorre no mundo real. O homem é "essencialmente" o contrário desse cacho de virtudes. Reações instintivas animais ainda o dominam. Mínima parte de sua alma se preocupa com a solidariedade. Pelo menos neste início de século o que vemos é a ânsia de ser — ou ter; mais ter do que ser —, mais que o vizinho. Quase todos aspiram a um "tratamento diferenciado". Os bancos, sabendo disso, classificam — e nem temem ofender os depositantes mais modestos... — seus clientes em número de estrelas. Talvez não se preocupem em desagradar os clientes mais pobres porque não são eles mesmo que escolhem o banco, mas sim seus patrões. Estrelas poucas significam mais demora, menos sorrisos, poltronas e cafezinhos. E se o banco, em rompante de igualitarismo, passasse a tratar todos os clientes igualmente é possível que depois lamentasse esse "excesso de democracia": perderia parte dos melhores clientes.

Dir-se-á que essa vulgar "ânsia de diferenciação" é exclusividade do Capitalismo — "esse regime bandido" —, algo inexistente no Socialismo, não se podendo dizer que tal orgulho seja inerente à natureza humana. Mas não é bem assim. Todos sabem que no "mundo comunista" europeu, antes da queda, altos funcionários do partido comunista tinham privilégios inacessíveis aos meros trabalhadores. A elite, a "nomenklatura", dispunha de vantagens que desmentiam a pretendida igualdade apregoada pelo regime. Essa diferenciação foi denunciada por escritores que, por isso, incidiram na ira dos governos satélites. Quando o comunismo estava no auge, na União Soviética, os burocratas fingiam acreditar piamente nas teses marxistas e nos discursos de seus chefes. Quando o comunismo caiu, quase não houve protestos. A "conversão ideológica" foi imediata, a comprovar que a convicção marxista demonstrada anteriormente, por vários anos, era simples sede de conforto e de mando, vontade de subir na hierarquia. Karl Marx, para tais cabeças, era apenas um bilhete de partida. Certamente, as esposas dos funcionários — geralmente mais céticas e realistas que seus maridos —, sabiam bem das coisas e os impulsionavam nesse sentido. Não queriam ficar aquém de suas amigas.

Porque o homem ainda carrega — por quanto tempo ainda? — essa carga instintiva, animal, cobiçosa, pretendendo ser mais que o vizinho — pelo menos em termos de posses e bem estar — não é prudente estimular, tão cedo, idéias para formação de países inteiramente socialistas, ou comunistas. A roupa teórica, requintada demais, não seria adequada ao corcunda peludo e de unhas sujas. Além disso, a criação de um Estado comunista, hoje, — no estilo pretendido por um Hugo Chávez —, só estimularia guerras ou corridas armamentistas, em um mundo cada vez mais acossado pelo medo.

Não esquecer que o socialismo, justamente porque se preocupa mais com a distribuição do que com a criação da riqueza, não tem envergadura econômica para competir materialmente com o mundo capitalista. Países ferrenhamente socialistas são sempre pobres. Winston Churchill dizia que vício inerente do capitalismo é a partilha desigual das bênçãos; a virtude inerente do socialismo é a partilha igual da miséria.

Guerras são caras. Consomem muito, e não apenas o sangue humano. A tecnologia moderna, extremamente sofisticada, exige enorme quantidade de dinheiro para a fabricação de aviões que dispensam até a presença do piloto. Na primeira guerra do Iraque, os tanques iraquianos eram atingidos à vontade pelos disparos americanos. E os iraquianos nem sabiam de onde, exatamente, vinham os foguetes, para poder revidar. Sua tecnologia era suficiente apenas para combater os iranianos, não para enfrentar os Estados Unidos. Estes, tecnologicamente, precavidos, não ensinaram a Saddam o "pulo do gato". A pontaria não era do soldado americano, nas do computador, que não errava uma. Quisessem, os americanos, por mera e pavorosa hipótese, aniquilar a Venezuela, poderiam fazê-lo dentro de poucas horas. Não agem assim apenas por considerações políticas e econômicas que seria longo fundamentar, mesmo porque o leitor as conhece mais do que eu. Menciono esse potencial destrutivo apenas para salientar que arreganhos bélicos contra o mundo capitalista, hoje, é procedimento infantil. Chávez, se for inteligente, deve melhorar os modos, sossegar, não desafiando seu principal cliente de petróleo. Mesmo porque o capitalismo tem o seu lado útil, enérgico, vantajoso para a humanidade. Não se joga fora uma grande fonte de energia. E o capitalismo é isso: uma técnica social de liberação de energia.

Para quem tolera o uso de metáforas, peço licença para dizer que a energia liberada pelo capitalismo tem uma certa semelhança com a força liberada pelo átomo. Este último é mínimo em seu tamanho, mas contém em seu interior, "desproporcionalmente", uma energia que, se bem aproveitada, pode, querendo-se, iluminar todo o planeta. A energia — seja ela a nuclear ou a individual — tanto pode servir para o bem como para o mal da humanidade. Depende apenas do manipulador.

O capitalismo, ao contrário do socialismo, libera o cidadão — esse pequeno "átomo" social — para inventar e empreender o que bem entenda, desde que isso não cause um dano visível, constatável, à comunidade. E em todas as raças e populações há um pequeno percentual de mentes criativas — ou terrivelmente persistentes em seus esforços — que, mesmo quando egoisticamente pensam apenas nelas mesmas e nas suas famílias, acabam construindo coisas e inventando técnicas que, quando dão certo, proporcionam vigoroso impulso para seus países. Como tais descobertas e inovações não dariam lucro nenhum se ficassem inativas, acabam sendo patenteadas e transformadas em realidades que proporcionam avanços tecnológicos. Quem inventou o celular? Não sei, mas obviamente a primeira idéia veio de uma ou algumas pessoas. Se tais pessoas tivessem que esperar ordens do governo — "inventem tal coisa!" — o progresso seriam muito mais lento. A burocracia, inerente ao socialismo — mais preocupado em evitar que uns fiquem mais ricos que outros — sufoca boa parte da criatividade ou operosidade individual.

Como as pessoas variam demais em suas aptidões físicas, intelectuais e morais, um regime que imponha uma determinada filosofia — vigiando para que todos permaneçam "iguais" — acaba amarrando o país. Foi o que ocorreu com o socialismo em estado puro, na extinta União Soviética.

Certa está, portanto, a China, com seu sistema híbrido de permitir uma convivência habilidosa de dois regimes. Reconheceu que o homem — com todos os seus defeitos relacionados com o egoísmo — precisa de liberdade para produzir e gerar riqueza. Produzida esta, encaminha a fatia (arrecadada em tributos), que entenda mais adequada, para a sustentação do Estado. O mesmo acontece com a Escandinávia, que consegue uma boa mescla fundindo, sem alarde, os dois sistemas. Cuida do cidadão do berço até o túmulo mas aceita o jogo do capitalismo. Não dificulta a criação de empresas. E a coisa funciona de modo tão ideal que os ricos evitam ostentação. É "feio", "vulgar", lá, mostrar-se rico. Os outros que descubram isso. Por outro lado, quem recebe auxílio-desemprego — bem alto, para nossos padrões — envergonha-se dessa condição, não pretendendo em ficar por longo tempo ganhando sem trabalhar.

É claro que um capitalista, como ser humano, pode ser imensamente ganancioso. Privatizada uma rodovia, se deixado sem vigilância governamental, colocaria um posto de pedágio a cada duzentos metros. Dizia alguém que o Capitalismo é bom mas devemos desconfiar dos capitalistas. Para evitar essa "gula" econômica existem as agências reguladores, que funcionam — ou deveriam funcionar — como "super ego" do capitalismo. O Estado sempre disporá de mecanismos para cortar as asinhas dos empresários mais atacados de ambição doentia.

O capitalismo também tem o seu lado negativo: brutaliza o homem. Transforma-o em uma máquina de fazer dinheiro. O mundo torna-se uma arena. Mesmo um CEO invejado pode passar as noites sem dormir, preocupado em "produzir resultados", cumprir metas. Se não as cumprir é cuspido fora, não importa as boas desculpas que apresente. Sempre haverá quem ambicione seu lugar. Mocinhas mais humildes são forçadas, direta ou indiretamente, a mentir um pouco — ou muito —, nos telefones quando o produto que tentam empurrar não é lá essas coisas. Até o sexo vira artigo de comércio, em jornais, internet, dentro e fora das empresas. Salve-se quem puder, porque a vida é breve e a beleza feminina o é mais ainda. "Quem garantirá minha velhice sem vexames?"

Se tudo isso é verdade no capitalismo, também o é no socialismo, só que com a agravante da maior pobreza.

Se quisermos um mundo menos imperfeito, há uma imagem que resume bem o caminho a seguir: a humanidade é um barco em que o motor é capitalista, mas o timoneiro possui tendências socialistas. Tendências, apenas — não fanatismo —, porque se ele virar demais o leme para a esquerda o barco passará a navegar em círculo. Esgotados os víveres, tripulação e passageiros sentirão as agruras da fome. Só não chegarão ao canibalismo porque antes disso os passageiros, desesperados, jogarão o timoneiro no mar.

__________________




*Desembargador aposentado do TJ/SP e Associado Efetivo do IASP - Instituto dos Advogados de São Paulo








_________