Quarta-feira, 19 de junho de 2019

ISSN 1983-392X

Áulicos

Edson Vidigal

O perigo é esse tipo de amizade que parecendo surgir do nada se abanca na intimidade do poder e vai ocupando espaços, afrontando princípios, exibindo força e prestigio, querendo que todos se submetam aos seus caprichos, às suas vontades. Será que vai ser sempre assim?

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008


Áulicos

Edson Vidigal*

O perigo é esse tipo de amizade que parecendo surgir do nada se abanca na intimidade do poder e vai ocupando espaços, afrontando princípios, exibindo força e prestígio, querendo que todos se submetam aos seus caprichos, às suas vontades.

Será que vai ser sempre assim?

Quando estava para se mudar para o Rio de Janeiro, pois fora eleito Presidente da República, Artur Bernardes tirou um dia para reencontrar velhos amigos, daqueles que nunca pedem nada.

Não havia se passado uma semana da posse, eis que lhe chega uma carta de um deles. Carta na qual, que depois de muitos prolegômenos, termina com um pedido.

Por um momento a imaginação do Presidente voou. Como se uma daquelas águias de ferro pousadas sobre o Palácio do Catete tivesse ganhado vida e lhe invadido o Gabinete brincando de corvo. Aquele corvo do poema de Edgard Allan Poe. Never More! Never More!

Lamentava o velho amigo missivista que o Doutor Bernardes tivesse aceitado viver naquele inferno que era a Presidência da República, sujeitando a família a tantos desassossegos, e pior, a sua honra exposta todo dia a provocações e ofensas.

A longa carta trazida por mão própria, era assim que se dizia quando não era pelo correio, só faltava dizer que o doutor havia cometido o maior erro de sua vida quando concordou em ser candidato a Presidente da República.

Dava notícias sobre a quietude das alterosas, a vida mansa nas gerais, a paz que dava viver longe das atribulações da política e das intrigas da Corte. E nesse quesito, intrigas, o Presidente Bernardes se deteve, lendo e relendo as advertências.

Como um bom conselheiro, e os mineiros são muito bons nisso, o velho amigo seguiu em suas mal, ou bem, traçadas linhas advertindo que o Presidente da República não iria a bom termo se não se vacinasse, o quanto antes, contra um vírus de alta periculosidade.

E que diabo de vírus era esse, que o amigo sabia existir nos Palácios, especialmente no do Catete, se ele nunca nem havia estado lá? Os áulicos, meu amigo, os áulicos. São piores que os ácaros, do que os répteis, do que os aracnídeos, do que os artrópodes quelicerados. Os áulicos são o perigo.

Saem governos, entram governos, qualquer que seja o partido, quem quer que seja o Presidente, se civil, se militar, se de centro, se de esquerda, se de direita, os áulicos mudam de cara, põem bigode, pintam o cabelo, fazem de tudo.

Perante o poderoso do momento até se fingem de frágeis e de perseguidos. Com a própria máscara ou com a cara de outrem, os áulicos, são sempre os mesmos, bajulando, intrigando, mentindo, tirando da boa fé dos poderosos todo tipo de proveito.

Doutor Bernardes guardou a carta na gaveta maior, a do centro da mesa. E passou a prestar mais atenção à rotina da Presidência, ao entra e sai do seu gabinete.

Quando o velho amigo nem mais esperava, chegou-lhe a resposta, uma carta igualmente longa, do próprio punho, em papel timbrado. E lá para tantas dizia, e quanto aos áulicos, aqueles sobre os quais me falastes, já são muitos por aqui. Surgem aos magotes. Mas não tens idéia do quanto são tão agradáveis...

Registra a história do Brasil que o Presidente Bernardes se deu mal. Os bandidos da politicalha cercaram o Palácio querendo fazer o Presidente seu refém. Para governar, passou o mandato inteiro com o País sob estado de sítio.

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*Ex-Presidente do STJ e Professor de Direito na UFMA









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