Quinta-feira, 21 de março de 2019

ISSN 1983-392X

Neruda, seus sonhos e seus amigos sonhadores

Jayme Vita Roso

Vem da tradição judaica a abordagem dos sonhos. E, dela, se extraem algumas ilações, com decisiva implicância na vida de cada um. Assim, é conhecida a alegoria: “Diga-me os seus sonhos e eu direi quem você é; diga-me que está no centro dos seus sonhos e eu direi o que está no centro de sua vida”.

sexta-feira, 16 de julho de 2004

Neruda, seus sonhos e seus amigos sonhadores


Jayme Vita Roso*


Vem da tradição judaica a abordagem dos sonhos. E, dela, se extraem algumas ilações, com decisiva implicância na vida de cada um. Assim, é conhecida a alegoria: “Diga-me os seus sonhos e eu direi quem você é; diga-me que está no centro dos seus sonhos e eu direi o que está no centro de sua vida”.

Tanto a Bíblia (judaica) como o Talmud, e não por menos Skakespeare e Freud, reconhecem que os sonhos são a chave da personalidade. Por isso, a tradição bíblica é dar exemplos, como os relevantes e conhecidos sonhos de Jacó e de seu filho José. Sempre da Torá, nesses personagens, se desejarmos uma compreensão da natureza íntima de uma coisa (o repetido insight da língua inglesa), na trágica rivalidade familiar entre José e seus irmãos, é indispensável ler e meditar – até refletindo – para tentar alcançar o foco da profunda inimizade de sangue (Gênesis 37:1 e 40:23).

Perseguindo-a, como fonte, a tradição sempre teve em vista os acontecimentos e, também, o seu povo. Desde que uma geração de heróis surge, quase a certeza de que a próxima será de vilões. Por isso, os sábios, historicamente, foram pacientes e conservadores no julgamento de ocorrências e das suas consumações na vida humana. E, rigorosamente, somente o povo e suas façanhas que passarem pelo teste do tempo, no sentido heidgeriano, serão apreciados e respeitados.

Se o tempo é vida e não dinheiro; no tempo, os personagens, que a vida entrelaça, mesmo sonhando, e o homem, por ser criatura, tem medo, suscitado pela idéia de um inconsciente. É esse medo que levou Derrida e Roudinesco a formular a hipótese do medo coletivo criado, recentemente, na Europa pela globalização, dizendo: “... se a Europa é linda o é por sua particular beleza: a autoimunidade como sobrevivência, a invencibilidade como autoimunidade. A imensa tragédia de um belo suicídio”1. Concluem: “Em nossa vida, bem o sabemos, sabemos demasiadamente, sustentamos discursos equívocos, hipócritas, no melhor dos casos e irônicos, estruturalmente irônicos”2. Tudo é mercantilizado, até a psicanálise, segundo eles.

Amalgamei, num hipotético raciocínio propositadamente não cartesiano, conceitos diversos, mas sem pretensão de coerência, para situar Neruda, no intervalo de sua passagem terrena. Não é tarefa simples cogitar sobre a temporalidade (1904-1973), se o homem é singular: em sua vida, em suas atitudes, em seu comportamento, em sua visão do mundo, em sonhos com amigos que os compartilham, em sua participação nos eventos saltitantes de um sul-americano engajado social e politicamente. Ele é um homem para ser buscado, ainda.

E, para buscá-lo, elegi alguns momentos de sua riquíssima existência, durante a qual produziu 260 obras, como atesta Horacio Jorge Becco3. E, com muita percuciência, diz: “Pablo Neruda, desprovido de milagres, lamentou sempre as parcialidades e os distanciamentos, porque considera que o homem vive com um destino circunstancial, quase secreto, mas ao mesmo tempo compartilhado”4, na sua trajetória de escrever poesia, de se dispersar em centenas de artigos, em traduzir, em editar, em recordar com memórias. Contrapartida, brindaram-no com 1.008 interpretações, dele e de sua obra5, dentre os quais personagens do estalão de Gabriela Mistral, Curzio Malaparte, Jorge Amado, Mario Benedetti, Ilya Ehrenburg, Arthur Lundkvist, Ocatvio Paz, Mario Sabato, Maiakovski e Volodia Teitelboim.

Como é opção do escriba, a primeira abordagem ousaria rotular de Neruda e o despertar de sua poesia no “Crepusculario”, que escreveu entre 16 e 19 anos (1920-1923): é a gênese da grandeza que se materializaria no que esse despertar é o início de uma obra plural, em cinco décadas. Ao contrário de Castro Alves e Fagundes Varela, sendo magistrais, a chama se lhes apagou precocemente com a morte prematura.

O “Crepusculario” é um paradoxo existencial, porque marca o termo inicial de um período de grande euforia, pois, entre 1920 e 1926, deu-nos “El hondero entusiasta” (1923-1924); “El habitante y su esperança” (1926); “Veinte poemas de amor y una canción desesperada” (1923-1924) e “Tentativa del hombre infinito” (1925). E, mesmo assim, seu crepúsculo é a aurora: quão difícil escrutinar os desígnios da Providência.

Escrito em Temuco, onde vivia, entre as brumas e as chuvas que açoitavam os bosques dessa zona inóspita, o meio o influenciou, marcando-o pela vida inteira no entrelaçamento da paisagem com a dramaticidade de ser órfão e, enquanto adolescente, a tristeza de um desafortunado. É um borbotar de palavras enfático e solene, quiçá, para a idade, quando ainda não voltado à paisagem que é atingida no “Canto General”. É uma obra ritmada, sendo, nas posteriores, abandonada a rima, para o verso fluir, mas quebrando a sintaxe tradicional. Nasceu modernista: fazer conhecer e elaborar, seja, por exemplo, na denúncia histórica do “Canto General” como na política “Las uvas y el viento”.

Noé Jitnik, no prólogo do “Crepusculario”, do “El hondero entusiasta” e “Tentativa del hombre infinito”, aponta que a partir daí, no que outros já haviam adiantado, tentaria “conseguir e dar uma voz própria à altura”6.

Do “Crepusculario”, com o título “Final”, algumas pistas do seu ideário (= sonhar) que se projetaria por cinco décadas:

(i) no poema “Ivresse”, o canto à vida, a mulher, em carne e em sonho, ao vinho, dizendo:

“Es bello porque nosotros lo bebemos

en estos temblorosos vasos de nuestro ser

que nos niegan el goce para que lo gocemos.

Bebamos. Nunca dejemos de beber”7.

(ii) no “El estribillo del turco”, clama com o que está no seu subconsciente de jovem:

“Dulce hay que ser y darse a todos,

para vivir no hay outro modo

de ser dulces. Darse a las gentes

como a la tierra las vertientes.

Y no temer. Y no pensar.

Dar

para volver a dar.

Que quien se da no se termina

Porque hay en él pulpa divina”8;

(iii) na última poesia do “Crepusculario”, que intitulou de “Final”:

“Fueron creadas por mí estas palabras

con sangre mía, con dolores míos

fueron creadas!

Yo lo comprendo, amigos, yo lo comprendo todo.

Se mezclaron voces ajenas a las mías,

Yo lo comprendo amigos!

...

No cabían en mí. Nunca cupieron.

De niño mí dolor fue grito

y mi alegría fue silencio.

...

Ahora, decidme, amigos,

dónde esconder aquella aguda

furia de los sollozos.

Decidme, amigos, dónde

esconder el silencio, para que nunca nadie

lo sintiera con los oídos o con los ojos”9.


Retornando o início, com a tradição judaica, o teste das gerações só se materializa quando as famílias encontrarem um equilíbrio e nele se ancorarem. Monoteísta, observa que, na Torá, a promessa de Deus a Abraão é dependente do que as futuras gerações seguirem nos caminhos da Providência. É o homem em evidência, enquanto criatura.

Embora não exista, pelo menos que me consta, nenhuma menção séria de como Pablo encarava a condição humana – homem diante de Deus -, não ousaria colocá-lo num panteísmo, decorrente da sua poesia voltada à natureza, ao meio ambiente, ao que nela é produzido, ao vinho, ao amor, diferente do apregoado por Spinoza, por isso excomungado em Amsterdã10.

Pois bem, Pablo não só traduziu, como prefaciou, em 1965, os “Estatutos do Homem” do poeta Thiago de Mello, quando este ainda estava no Chile. E Mello os escreveu em abril de 1964, como parte integrante do livro “Está oscuro pero yo canto”.

Apontando Thiago como um utopista, como um personagem que celebra a vida nos “Estatutos”, dele Neruda recorda a história e momentos convividos – com tristeza – pelo obscurantismo de então e, novamente, repetido, nos dias atuais:


“Desde que Thiago chegou ao Chile, se produziram várias alterações territoriais dignas de se tomar em conta. O chamado vento
puelche mudou invisivelmente de rumo e formou figuras rombóides na Cordilheira. O pulso do país se recobrou como se despertara de uma letárgica tristeza. Também se observou na areia da Ilha Negra um precipitado calcáreo ao mesmo tempo transparente e sonoro. Podemos atribuir essas variações à influência de Thiago de Mello em nossas almas. Simultaneamente, nossas almas fazem mudar a paisagem.

Thiago de Mello é um transformador de alma. De perto ou de longe, de frente ou de perfil, por contato ou transparência, Thiago tem mudado nossas vidas, nos tem dado a certeza da alegria. O tempo e Thiago de Mello trabalham em sentido contrário. O tempo desgasta e continua. Thiago de Mello nos aumenta, nos agrega, nos faz florear e logo se vai, tem outros afazeres. O tempo se adere à nossa pele para nos gastar. Thiago passa por nossas almas para nos convidar a viver”11.


Thiago, lembrando Neruda:


“São tantas as belas memórias que conservo de nossa convivência. Tão poucas as que não guardam o gosto da alegria. Não posso deixar de recordar que, ao fim de cada refeição, Neruda exigia que recitássemos poemas em coro e que depois cantássemos canções populares. Sempre as mesmas. De vez em quando, caminhando pela floresta, evoco e canto só, em voz alta, nossa canção preferida: “Soy marinero/ me gusta el mar”
12.


É por deveras pesaroso que a genialidade de Oswaldo Guayasamín seja alheia, indiferente ou desconhecida nos meios artísticos ou intelectuais de nosso país, maioria absoluta – como constatei.

Esse extraordinário artista equatoriano (1919–1999), distante três lustros de Pablo, é cultuado na maioria dos países latinos. No Brasil, um artigo escrito por Fernando Meneses, no Jornal do Commercio, no dia 21 de dezembro de 1965: “Guayasamín ou a Idade da Ira”, ao que me consta, nada mais do que uma menção sobre sua permanência no Rio de Janeiro, no Rio Magazine, em maio de 1958 e, pouco antes, quando, na 4ª Bienal, recebeu o prêmio de melhor pintor da América do Sul.

Pois o que ele tem de comum com Neruda?

São os mesmos anseios pela latinidade, contra a exclusão, contra o domínio cultural alheio às nossas tradições e o profundo espantar-se sobre a tragédia da luta do homem contra o homem13. Ambos críticos ferrenhos da política norte-americana para o continente.

O Maestro, como é conhecido em seu país, viveu, conviveu, compartilhou anseios, angústias, alegrias, tristezas, a devoção ao homem, a luta contra a opressão e as formas diversas de dominação. A sua obra é, como lembrou Régis Debray, um luto imemorial, não conduzindo, todavia, “à neblina do desespero. Leva-nos por meio da realidade amarga, sem enganar-se e sem enganar-nos. Não é aos deuses a quem enaltece, sim aos seus contemporâneos que combatem”, nas palavras do jornalista Lucien Cruzi, no L’Humanité.

Neruda, sentindo a importância do artista equatoriano, já o brindara com palavras de profunda admiração, quando, descansando na Isla Negra, em 1969, produziu o memorável texto “A Guayasamín”.

Encontro em Oswaldo uma intercomunicação pictórica com a obra de Portinari e de Abelardo da Hora, nos idos dos anos 60 e 70.

A “Mulher Chorando”, de Portinari, e a série “Os Retirantes”, de Abelardo da Hora, são a interlocução dos que sonham com um mundo mais justo, pois adaptam os sentimentos ao que desejam expressar com as mãos e as mulheres chorando de Guayasamín, que o imortalizaram, por influência do mexicano Orozco. Tanto Portinari e Aberlado, como Oswaldo, pintaram pungentes Via Crucis, transportando o sacro ao social. É nisso tudo que Neruda se entranhou.

Quando as Ediciones Nauta, de Barcelona, numa reinterpretação de artistas plásticos dos séculos XIX e XX, na qual incluiu o equatoriano Guayasamín, reproduziu, na obra, o texto “Entrada a Guayasamín”, de Neruda14:


“Os nomes de Orozco, Rivera, Portinari, Tamayo e Guayasamín formam a estrutura andina do continente. São altos e abundantes, crispados (exasperados) e ferruginosos (ferrosos). Caem às vezes como desprendimentos ou se mantém naturalmente elevados, unidos territorialmente pela terra e pelo sangue: pela profundidade indígena. Guayasamín, entre uns e outros, empreendeu em sua obra o juízo final que pedíamos aos solitários do Renascimento. Poucos pintores de nossa América tão poderosos como este equatoriano intransferível: tem o toque da força; é um anfitrião de raízes: do encontro à tempestade, à violência, à inexatidão. E tudo isso, à vista e paciência de nossos olhos, se transforma em luz.


Suponhamos que o realismo tenha morrido. E celebramos o funeral porque não o mataram os quiméricos, os irrealistas, senão os próprios realistas que o realizaram, extinguindo-o até nos apresentar um realismo sem carne e sem osso: a imitação da verdade.


Guayasamín é um dos últimos cruzados do imaginário: seu coração é uma comida e figurativo: está pleno de criaturas, de dores terrestres, de personagens oprimidos/encurvados, de torturas e de sinais. É um criador do homem mais espaçoso, das figurações da vida, da imaginação histórica. Eu o tenho em meu santuário de santos militares, aguerridos, arriscando tudo na pintura. As modas passam sobre sua cabeça como nuvenzinhas. Nunca o aterrorizaram.


Apresento, e é muita honra para mim, a este pintor provocador e essencial, seguro de que seu universo pode manter-se ainda que nos ameace como um desmoronamento cósmico.

Pensemos antes de entrar em sua pintura, porque não nos será fácil voltar”.


Se Neruda tinha medo (em perder sua jovem amada), na poesia “Tengo miedo”, do “Crepusculario”, nunca abandonou a sua vocação universal de acompanhar os acontecimentos e o que eles afetavam seu povo. Porém, sempre sonhou, amando o homem, seu irmão, em todas as circunstâncias, compreendendo que a fragilidade da maioria não pode ser subjugada pelo medo coletivo do exercício abusivo do poder militar, subsidiado pelo capitalismo imoral. É o que arrematou no discurso pronunciado no Estádio Nacional (Santiago), em novembro de 1972, quando saúda os carabineiros, as delegações populares, os trabalhadores, as mulheres, a juventude, as crianças:


“Pois bem, compatriotas, amigos, companheiros meus, tudo se cumpriu, o retorno se cumpriu, Os versos de “Quando” se cumpriram.


Andarei de casa em casa nas eleições de março.


Esta manhã despertou-me o estrondo marinho de Isla Negra.

A terra já passou das mãos dos saciados às mãos dos esfaimados”15.

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1 DERRIDA, Jacques, ROUDINESCO, Élisabeth. Y mañana qué... Trad. de Victor Goldstein. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica de Argentina, 2003. p. 194.

2 Ibidem, p. 195.

3 BECCO, Horacio Jorge. Pablo Neruda: Bibliografia. Buenos Aires: Casa Pardo S.A., 1975.

4 Ibidem, p. 7.

5 Ibidem, pp. 141-231.

6 NERUDA, Pablo. Crepusculario/El hondero entusiasta/Tentativa del hombre infinito. Buenos Aires: Debolsillo, 2003. p. 11.

7 Ibidem, pp. 20-21.

8 Ibidem, p. 25.

9 Ibidem, pp. 60-61.

10 I.S. Revah escreveu, com muita erudição, cinco ensaios sobre esse tema, conforme informa Steven Nadler, in Spinoza: A life. Londres: Cambridge University Press, 1999. pp. 59-60; 64 et allia.

11 MELLO, Thiago de. Los Estatutos del Hombre: Una celebración de la vida. Trad. de Pablo Neruda. Buenos Aires: Vergara & Riba Editoras, 2001. p. 7.

12 Ibidem, p. 10.

13 ANTEM, Maria Luísa. Tele-exprés. Barcelona, 31.dez.1972.

14 LASSAIGNE, Jacques (Org.). Guayasamín: El pintor ecuatoriano que denuncia con su obra la opresión y la injusticia humana. Barcelona: Ediciones Nauta S.A., 1981. p. 5

15 NERUDA, Pablo. Para nascer nasci. 6ª ed. São Paulo: Difusão Editorial S.A., 1983. pp. 309-312.
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* Advogado do escritório Jayme Vita Roso Advogados e Consultores Jurídicos









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