Quinta-feira, 20 de junho de 2019

ISSN 1983-392X

Traidor ou Traído?

Edson Vidigal

O que, afinal, a não ser princípios muito sólidos, pode imantar uma pessoa com autoridade moral e intelectual sobre as outras para que ela então possa ficar lhe decretando sobre o que lhe é certo e o que lhe é errado?

quarta-feira, 7 de maio de 2008


Traidor ou Traído?

Edson Vidigal*

O que, afinal, a não ser princípios muito sólidos, pode imantar uma pessoa com autoridade moral e intelectual sobre as outras para que ela então possa ficar lhe decretando sobre o que lhe é certo e o que lhe é errado?

A experiência tem provado que não bastam princípios muito sólidos. É da maior importância manter agregado um fator chamado exemplo. Ou seja, não se pode exigir dos outros aquilo que, nos limites da individualidade alheia, o cobrador não pratica.

Pelos frutos, conhecereis as árvores, não é isso, Mateus? Ou seja, pelas ações, as mínimas ações, de uma pessoa é possível saber quem ela é.

Em alguns casos demora-se a descobrir quem realmente são essas pessoas, na essência, na verdade, porque astutas, maestras da dissimulação, conseguem enganar por muito tempo. Nunca irão conseguir enganar a todos o tempo todo, não é isso, Lincoln?

Despencam na legitimidade, reduzindo a nada a sua credibilidade, quando se danam a cobrar dos outros comportamentos morais aos quais não são afeitos.

Quando buscam mostrar-se que, como os idealistas, também se movem por ideais nobres e lúcidos é só para tirar proveito da energia dos que, verdadeiramente, se entregam à causa dos ideais nobres e lúcidos.

Quando evocam o sentimento da amizade, é para explorar a boa-fé dos que acreditam no valor da amizade e o praticam em reciprocidades muitas vezes até desproporcionais.

Cobram honestidade aos outros, mas de olho no descuido dos outros. Nunca ouviram falar num tipo chamado descuidista? É primo ou irmão daquele outro, o oportunista.

Teotônio Villela, não o filho, mas o velho Senador, conhecido como o Menestrel das Alagoas, me animou uma vez, no auge de uma das minhas dissidências políticas em Brasília, ele também um dissidente, com esta frase – "o problema é que eles confundem sempre a lealdade com a cumplicidade".

Lealdade em política não é submissão, é respeito, é compromisso que se assume em torno de princípios norteadores das ações para a melhoria das condições de vida da coletividade. Liderar é interagir com energia mas com humildade em busca do que pode ser o melhor para todos.

Quando o líder começa a se impor exigindo da base ou dos aliados obediência cega, passando a levitar como se existisse acima do bem e do mal, distanciando-se dos parceiros e das bandeiras da luta e em confronto claro com os princípios programáticos, ou seja com o conjunto dos ideais que unem e movem a todos, aí nesse momento cabe a divergência, a discordância, e emerge cristalino o bom direito, o direito de discordar.

Se não discordar, está aceitando então se acumpliciar.

Acumpliciar-se significa estar de acordo com todos os desvios do líder, que aí já não é mais líder e sim um falso líder, um falso profeta, um aproveitador da legitimidade alcançada pelos sonhos acordados dos idealistas, apoios e sonhos que ele já vendeu adiante, em proveito pessoal.

Quem se acumplicia ganha a proteção da rede, fica blindado, intocável. Quem discorda, rompe e sai, leva pecha de traidor e os rogos são para que lhe alcancem e não lhe desprezem nunca as sete pragas do Egito. Em seguida, o linchamento moral.

Mas vem cá, quem diverge e sai de perto do antro para não se acumpliciar, é o traidor ou o traído? É o traído, sim, porque o traidor mesmo, o grande traidor, é o que desviando-se dos ideais comuns se aproveita da liderança da causa e tira proveitos pessoais, e até enriquece às custas da pobreza geral. Este, sim, é o traidor.
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*Ex-Presidente do STJ e Professor de Direito na UFMA

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